Mo Yan, quem?!

Literatura

11.10.12

Uma cer­ta sober­ba da igno­rân­cia cos­tu­ma exa­lar dos comen­tá­ri­os, entre nós, sobre aque­les ven­ce­do­res do Nobel de Literatura que esca­pam às lis­tas dos eter­nos can­di­da­tos. Mo Yan, chi­nês que foi anun­ci­a­do nes­ta quin­ta como pre­mi­a­do de 2012, é, por aqui, can­di­da­to for­te ao epí­te­to de “des­co­nhe­ci­do”. Acha-se que o pro­ble­ma é da Academia Sueca, sem dúvi­da idi­os­sin­crá­ti­ca como qual­quer júri lite­rá­rio. Mas bem que pode ser nos­so, de uma cer­ta pre­gui­ça de des­co­brir o mun­do lite­rá­rio pelos pró­prio olhos, espe­ran­do que outros o façam por nós.

Em geral repro­va-se no Nobel algo que se defi­ne como “cri­té­ri­os polí­ti­cos” da pre­mi­a­ção, argu­men­to que cos­tu­ma sal­tar quan­do o ven­ce­dor não é euro­peu, nor­te-ame­ri­ca­no ou, vá lá, lati­no-ame­ri­ca­no — pre­mi­ar um chi­nês e sua con­fli­tu­a­da rela­ção com o gover­no de seu país fecha com per­fei­ção este raci­o­cí­nio. O segun­do argu­men­to mais cota­do vai na linha “a rapo­sa e as uvas”: é dis­cu­tí­vel a impor­tân­cia do prê­mio, que teria esque­ci­do, entre outros, Borges e Jorge Amado,  e, nos últi­mos anos, vem negli­gen­ci­an­do um Philip Roth  ou um Amós Oz.

Em uma bus­ca rápi­da, vê-se que Mo Yan, pre­sen­te na lis­ta de joga­ti­na da Ladbrokes, a casa de apos­tas ingle­sa, foi far­ta­men­te edi­ta­do na Alemanha e na França e está dis­po­ní­vel em inglês e espa­nhol tam­bém. A Granta, que está come­çan­do a edi­tar na China, obvi­a­men­te já tinha se ocu­pa­do de sua obra. Ou seja, mes­mo sem ser uma coque­lu­che glo­bal, como Haruki Murakami, o pri­mei­rão de mui­tas lis­tas,  Mo Yan é nome con­so­li­da­do.

Fico me ima­gi­nan­do jor­na­lis­ta ale­mão, rece­ben­do a notí­cia, em ple­na Feira de Frankfurt, de que o Nobel de Literatura é Ariano Suassuna. Antes de digi­tar “des­co­nhe­ci­do” bas­ta­ria veri­fi­car que,  na Amazon, é pos­sí­vel com­prar “Der Stein der Reiches”, “A pedra do rei­no”, e pelo menos saber da exis­tên­cia  de “O Auto da Compadecida”,  com o qui­lo­mé­tri­co títu­lo “Das Testament des Hundes oder das Spiel von unse­rer lie­ben Frau der Mitleidvollen”.

Se é óbvio que um Nobel não sig­ni­fi­ca mais — aliás, nun­ca sig­ni­fi­cou — a imor­ta­li­da­de de um autor ou seu reco­nhe­ci­men­to máxi­mo (Patrick White, 1973, alguém?), tra­ta-se de uma mais do que razoá­vel indi­ca­ção de lei­tu­ra. Não nos esque­ça­mos que, sem o prê­mio, pro­va­vel­men­te o Brasil não conhe­ce­ria, em edi­ções comer­ci­ais e bem cui­da­das, Wislawa Szymborska (1986) ou Imre Kertész (2002).

Não há rigo­ro­sa­men­te nada de aber­ran­te no fato de o Nobel pre­fe­rir Mo Yan (que nun­ca li, fato do qual não me enver­go­nho e tam­pou­co me orgu­lho) a Javier Marías. No fun­do é até bom, pois para uma comu­ni­da­de inte­lec­tu­al ain­da imper­meá­vel a expe­ri­men­tar novos sabo­res lite­rá­ri­os, abre-se uma nova pos­si­bi­li­da­de. Já que, no fun­do, o Nobel para o Brasil só não pres­ta quan­do não pre­mia quem a gen­te conhe­ce. E só não é melhor por­que ain­da não pre­mi­ou um bra­si­lei­ro.

* Na ima­gem que ilus­tra o post: o escri­tor Mo Yan.

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