Monarco e seu anjo

serrote

26.01.11

Se eu for falar da elegância e da nobreza de Monarco, hoje eu não vou terminar. Até porque é chover no molhado. Ontem, com a fachada do IMS iluminada por uma delicada chama azul-Portela, ele cantou todo o seu disco de estreia. Disso tudo vocês já sabem, e o show pode ser ouvido integralmente na Rádio Batuta. Saí emocionado, como todo mundo de carne e osso que por aqui esteve, mas com outro personagem na cabeça. Um ilustre ausente que para mim dividiu o palco com ele: Zeca Pagodinho.

Muita gente, mas muita mesmo, conhece hoje Monarco – e até mesmo a Velha Guarda, a despeito dos discos fundamentais da turma – pelas gravações do Zeca. “Coração em desalinho”,  “Vai vadiar” e “Vivo isolado do mundo” são os hits dessa conexão – as duas primeiras de Monarco e Ratinho; a última, de Alcides Malandro Histórico. Mas ali, entre os 20 discos de carreira de Zeca, há pérolas de Monarco (e Ratinho) como “Não me maltrate tanto assim” e “Nunca vi você tão triste assim” e pelo menos uma boa regravação de “Lenço” (parceria com Chico Sant’Anna).

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Num samba lindo, Aldir Blanc e Moacyr Luz batizaram Zeca de “o anjo da Velha Guarda”. E Zeca de fato tem sido esse anjo, zeloso e discreto como convém aos anjos, usando sempre seu brutal prestígio popular – ele é talvez o grande artista popular pra valer, que congrega os mais diferentes gostos sem se baratear e, também, sem posar de “purinho” – para falar da Portela, da Velha Guarda, de Monarco.

Mas, ao cantar ontem “Coração em desalinho” – agora gravada em desabalada carreira por Maria Rita e transformada em tema de novela -, Monarco lembrou que o samba, composto inicialmente como enredo em homenagem a Paulo da Portela, deveria ser mostrado a Martinho da Vila, que, nos anos 1980, vendia algo como 200 mil cópias. Mas ele, deixando em segundo plano o provável e providencial dinheiro, preferiu entregar a música a Jessé Gomes da Silva Filho, um rapaz magrinho que vivia pelo Cacique de Ramos e, em 1986, gravou seu primeiro disco como Zeca Pagodinho. A segunda faixa era “Coração em desalinho”.

Não há, como se pode pensar, paternalismo de Zeca com Monarco e a Velha Guarda. Há, isso sim, a constante retribuição de uma generosidade fundadora, da mão estendida muito antes do sucesso e de se imaginar que o samba voltaria a ser mainstream, algo ainda inimaginável há 30 anos. Para além de qualquer clichê,  Zeca é herdeiro da altivez de um Monarco e de tudo o que ele representa. Por isso é bom lembrar que falar em um é falar no outro. Sempre lembrando, é claro, quem vem primeiro, como o próprio Monarco ensina: “Antigamente era Paulo da Portela/ Agora é Paulinho da Viola/ Paulo da Portela, nosso professor/ Paulinho da Viola, o seu sucessor/ Vejam que coisa mais bela/ O passado e o presente/ Da nossa querida Portela”.