Mostra de SP: anotações apressadas

No cinema

24.10.11

Na cor­re­ria entre um fil­me e outro da 35ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, obser­va­ções espar­sas sobre alguns dos fil­mes vis­tos até ago­ra:

Um mun­do mis­te­ri­o­so

No lon­ga do argen­ti­no Rodrigo Moreno (o mes­mo de O guar­dião, exi­bi­do na Mostra de 2006), um jovem leva o fora da com­pa­nhei­ra e pas­sa a vagar por uma Buenos Aires peri­fé­ri­ca e suja (cer­tas cenas até pare­cem fil­ma­das em São Paulo), ora a pé, ora num car­ro velho de fabri­ca­ção rome­na.

O anda­men­to deam­bu­la­tó­rio, em que os apa­ren­tes “tem­pos mor­tos” têm a mes­ma dura­ção e den­si­da­de dos acon­te­ci­men­tos deci­si­vos, faz lem­brar outros notá­veis fil­mes recen­tes, como o uru­guaio Hiroshima, de Pablo Stoll, e o bra­si­lei­ro Hotel Atlântico, de Suzana Amaral (o melhor dos três).

Belíssimo repre­sen­tan­te da nova onda argen­ti­na, toma­ra que entre logo em car­taz nos nos­sos cine­mas. Aqui o trai­ler:


Marighella

O docu­men­tá­rio de Isa Grinspum Ferraz, sobri­nha de Carlos Marighella, é um retra­to bio­grá­fi­co-afe­ti­vo do céle­bre mili­tan­te comu­nis­ta, figu­ra legen­dá­ria da his­tó­ria polí­ti­ca do país.

A ine­xis­tên­cia de ima­gens em movi­men­to de Marighella é com­pen­sa­da por um far­to e bem mon­ta­do mate­ri­al de arqui­vo e pelos exce­len­tes depoi­men­tos de per­so­na­gens que con­vi­ve­ram com o bio­gra­fa­do.

O impac­to tre­men­do do fil­me pode­ria ser ain­da mai­or se os depoi­men­tos pes­so­ais da dire­to­ra, ditos em off, não fos­sem acom­pa­nha­dos por uma músi­ca sen­ti­men­tal, se o tom geral não fos­se de hagi­o­gra­fia e se não hou­ves­se ima­gens “poé­ti­cas” de gos­to duvi­do­so, como a esta­tu­e­ta de um san­to guer­rei­ro explo­di­da e recons­ti­tuí­da em câme­ra len­ta.

Não era pre­ci­so “per­fu­mar essa flor”, como diria João Cabral de Melo Neto. A tra­je­tó­ria de Marighella já é épi­ca e trá­gi­ca o sufi­ci­en­te para como­ver até os cora­ções mais empe­der­ni­dos.

Eu rece­be­ria as pio­res notí­ci­as dos seus lin­dos lábi­os

Este ficou para o fim por­que é o mais difí­cil de comen­tar, pelo menos para mim, que admi­ro pro­fun­da­men­te o cine­as­ta Beto Brant (aqui divi­din­do a dire­ção com o pro­du­tor Renato Ciasca) e seu velho par­cei­ro Marçal Aquino, autor do roman­ce homô­ni­mo que ins­pi­rou o fil­me.

Pela pri­mei­ra vez um fil­me da dupla (ou do trio) me decep­ci­o­na. A his­tó­ria é óti­ma: um tri­ân­gu­lo amo­ro­so entre um jovem fotó­gra­fo (Gustavo Machado), uma ex-pros­ti­tu­ta (Camila Pitanga) e um pas­tor evan­gé­li­co de meia-ida­de (Zecarlos Machado) em ple­na sel­va amazô­ni­ca. O pano de fun­do: des­ma­ta­men­to, luta pela demar­ca­ção de ter­ras indí­ge­nas, con­fli­tos fun­diá­ri­os. Aqui o trai­ler:

O pro­ble­ma, gros­so modo, é que as duas dimen­sões — o dra­ma pas­si­o­nal dos pro­ta­go­nis­tas e o con­tex­to polí­ti­co-soci­al — pare­cem se sobre­por ao em vez de se entre­la­çar orga­ni­ca­men­te. Um incô­mo­do adi­ci­o­nal é cer­ta dis­pa­ri­da­de entre os ato­res, ou, mais pre­ci­sa­men­te, entre Camila Pitanga e os outros.

A lin­da atriz faz um esfor­ço tão gran­de para ter uma gran­de atu­a­ção que o que aca­ba mos­tran­do é mais isso mes­mo, o esfor­ço, do que um bom resul­ta­do. Não pode­ria ser mai­or o des­com­pas­so de seus cli­chês tele­vi­si­vos com a per­for­man­ce mini­ma­lis­ta de Gustavo Machado e a dic­ção tro­an­te (per­fei­ta­men­te ade­qua­da ao papel) de Zecarlos Machado.

Claro que há momen­tos mui­to for­tes e opções cer­tei­ras — em espe­ci­al o con­tras­te entre o flu­xo plá­ci­do, cons­tan­te, do rio cau­da­lo­so e os vio­len­tos sobres­sal­tos da ação que se pas­sa às suas mar­gens. Digna de nota tam­bém a atu­a­ção de Gero Camilo como um cul­to e feri­no colu­nis­ta soci­al, qua­se um dân­di gay no meio da mata.

Mas de Beto Brant e Marçal Aquino a gen­te sem­pre espe­ra mais.

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