Movimento e paralisia no novíssimo cinema brasileiro

No cinema

10.05.13

"O que se move"

Dois notá­veis lon­gas-metra­gens de estreia de jovens dire­to­res bra­si­lei­ros entram em car­taz hoje (10 de maio): O que se move, de Caetano Gotardo, e Cores, de Francisco Garcia. Quem gos­ta de cine­ma fará bem em vê-los antes que sejam expe­li­dos de um mer­ca­do exi­bi­dor cada vez mais ime­di­a­tis­ta e pre­da­tó­rio.

Para falar de O que se move tal­vez seja o caso de reto­mar a velha expres­são moving pic­tu­res. De modo sabo­ro­sa­men­te lite­ral, ela defi­ne o cine­ma como “ima­gens que se movem”. Mas o adje­ti­vo moving tem tam­bém o sig­ni­fi­ca­do de como­ven­te, de modo que o cine­ma, des­de as ori­gens, traz embu­ti­da a facul­da­de de como­ver. Em seu melhor, o cine­ma é um fenô­me­no em que moção e emo­ção se fun­dem numa coi­sa só, intra­du­zí­vel em outras lin­gua­gens. É isso, nada menos, que ocor­re no fil­me de Caetano Gotardo.

http://www.youtube.com/watch?v=r6SyVS_q_zM

Assistimos ali a uma tra­gé­dia em três atos inde­pen­den­tes, inter­li­ga­dos sub­ter­ra­ne­a­men­te pelo moti­vo recor­ren­te da per­da. É difí­cil abor­dar o enre­do sem pre­ju­di­car as sur­pre­sas e des­co­ber­tas do espec­ta­dor, mas diga­mos ape­nas que são his­tó­ri­as que envol­vem pedo­fi­lia, um bebê rou­ba­do na mater­ni­da­de e outro esque­ci­do den­tro de um car­ro.

A par­tir de temas assim, um Todd Solondz (o ame­ri­ca­no que diri­giu Felicidade e Histórias proi­bi­das) se refes­te­la­ria no sen­sa­ci­o­na­lis­mo e no inven­tá­rio de aber­ra­ções. Gotardo e seus par­cei­ros do cole­ti­vo pau­lis­ta Filmes do Caixote tri­lham o cami­nho opos­to, de apro­xi­ma­ção ao ínti­mo e silen­ci­o­so dra­ma de cada um. Como expres­sar a dor? Como dizer o indi­zí­vel?

Presença e ausên­cia

A opção ado­ta­da por O que se move é a da elip­se, da entre­li­nha, do fazer de con­ta que está falan­do de outra coi­sa. A dia­lé­ti­ca entre pre­sen­ça e ausên­cia no fil­me foi exa­mi­na­da com mui­ta argú­cia por Filipe Furtado na revis­ta digi­tal Cinética. Mas há tam­bém o jogo sutil entre o movi­men­to e a fixi­dez, bem como entre o silên­cio e a fala.

Um dos tra­ços mais ori­gi­nais e des­con­cer­tan­tes de O que se move é o fato de cada uma das três his­tó­ri­as ter­mi­nar com sua pro­ta­go­nis­ta femi­ni­na (pela ordem, Cida Moreira, Andrea Marquee e Fernanda Vianna) ento­an­do uma can­ção que sin­te­ti­za seu dra­ma, numa rup­tu­ra radi­cal com o natu­ra­lis­mo da ence­na­ção.

Como expli­car essa apa­ren­te extra­va­gân­cia? Meu pal­pi­te é que a estra­té­gia de “escon­der” o dra­ma, ou de mos­trá-lo de modo elíp­ti­co e indi­re­to, cria uma atmos­fe­ra qua­se insu­por­tá­vel de emo­ção cala­da, dian­te da qual a músi­ca sur­ge não pro­pri­a­men­te como catar­se, mas como subli­ma­ção. Nesses momen­tos, sobre­tu­do no mag­ní­fi­co final da últi­ma his­tó­ria, com a can­ção se sobre­pon­do a ima­gens de cor­pos de atle­tas em movi­men­to numa tela de tevê de chur­ras­ca­ria (o que pode­ria haver de mais pro­sai­co?), músi­ca e cine­ma são uma coi­sa só, e Caetano Gotardo rea­li­za o sor­ti­lé­gio de con­ver­ter a dor em poe­sia.

Vidas sem cor

Mais que uma mera bou­ta­de, a iro­nia de inti­tu­lar de Cores um fil­me roda­do em pre­to e bran­co cer­ta­men­te encer­ra uma inten­ção mais pro­fun­da, a de con­tras­tar as aspi­ra­ções do trio de jovens pro­ta­go­nis­tas com seu coti­di­a­no estag­na­do e sem pers­pec­ti­vas. Eles moram em bair­ros peri­fé­ri­cos de São Paulo e vivem de subem­pre­gos: Luca (Pedro di Pietro) é tatu­a­dor e mora com a avó; Luiz (Acauã Sol) tra­ba­lha numa far­má­cia e sua namo­ra­da Luara (Simone Iliescu) é ven­de­do­ra numa loja de pei­xes de aquá­rio.

http://www.youtube.com/watch?v=aqqx5emfKrI

O con­tex­to soci­al e exis­ten­ci­al não dife­re mui­to do mos­tra­do em Um céu de estre­las (1996), de Tata Amaral, outro fil­me cen­tra­do na clas­se média bai­xa pau­lis­ta­na e que tam­bém traz um títu­lo irô­ni­co. Mas, se no huis clos de Tata a con­cen­tra­ção espa­ci­al e a pro­gres­são dra­má­ti­ca con­du­zi­am para um paro­xis­mo de tra­gé­dia e vio­lên­cia, em Cores a opção é por um acen­tu­a­do esva­zi­a­men­to do dra­ma, por uma ten­ta­ti­va de expres­sar na pró­pria dra­ma­tur­gia rare­fei­ta o desa­len­to das vidas fra­cas­sa­das que retra­ta.

Como outros crí­ti­cos já obser­va­ram, a refe­rên­cia óbvia com que o dire­tor tra­ba­lhou para con­tar sua his­tó­ria são os pri­mei­ros fil­mes de Jim Jarmusch, em espe­ci­al Estranhos no paraí­so, cujo car­taz apa­re­ce em dado momen­to de Cores. A nar­ra­ti­va é epi­só­di­ca, dis­ten­si­o­na­da, acu­mu­lan­do tem­pos mor­tos. Os per­so­na­gens, como em Jarmusch, estão como que à mar­gem do mer­ca­do e da vida soci­al. Passam seu tem­po toman­do cer­ve­ja, fuman­do maco­nha, even­tu­al­men­te fazen­do um sexo sem entu­si­as­mo. Seus esbo­ços de rea­ção ao maras­mo que os cer­ca dão em nada: uma ten­ta­ti­va atra­pa­lha­da de assal­to à far­má­cia, uma via­gem ao lito­ral que aca­ba antes de come­çar. Volta-se sem­pre ao mes­mo lugar.

"Cores"

A via­gem como pro­mes­sa

A ilu­mi­na­ção, os enqua­dra­men­tos e os movi­men­tos de câme­ra do dire­tor de foto­gra­fia Alziro Barbosa são tão belos quan­to pre­ci­sos e “neces­sá­ri­os”, evi­tan­do a este­ti­za­ção gra­ças a uma inte­gra­ção orgâ­ni­ca com a pro­pos­ta geral do fil­me. Alguns pla­nos são memo­rá­veis: uma tar­ta­ru­ga atra­ves­sa len­ta­men­te um quin­tal debai­xo de chu­va; um avião ater­ris­sa na pis­ta e a câme­ra, ao acom­pa­nhar seu movi­men­to, aca­ba enqua­dran­do o casal que obser­va a cena de uma jane­la.

Tudo con­flui para a ten­são entre movi­men­to (vir­tu­al ou poten­ci­al) e para­li­sia (real). Não é por aca­so que Luara mora ao lado do aero­por­to e fler­ta com um pilo­to de avião que fre­quen­ta sua loja. De sua jane­la ela vê os aviões deco­lan­do ou ater­ris­san­do, o que faz lem­brar o ver­so de Manuel Bandeira: “Todas as manhãs o aero­por­to em fren­te me dá lições de par­tir”. Mas essas lições os três ami­gos não têm como apren­der. O voo per­ma­ne­ce como pro­mes­sa não cum­pri­da.

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