Mungiu, Kiarostami, cinemas libertários

No cinema

29.10.12

Cena do fil­me Um alguém apai­xo­na­do

A 36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo entra em sua reta final, mas ain­da há tem­po de ver, entre outras pre­ci­o­si­da­des, dois fil­mes fun­da­men­tais: Além das mon­ta­nhas, do rome­no Cristian Mungiu, e Um alguém apai­xo­na­do, do ira­ni­a­no Abbas Kiarostami. Veja aqui a pro­gra­ma­ção com­ple­ta da mos­tra.

O fil­me rome­no ganhou em Cannes os prê­mi­os de rotei­ro (assi­na­do pelo pró­prio dire­tor e ins­pi­ra­do em livros de Tatiana Niculescu Bran) e de atriz, divi­di­do entre suas pro­ta­go­nis­tas Cosmina Stratan e Cristina Flutur. Ao que pare­ce, Mungiu gos­ta dos temas pun­gen­tes e polê­mi­cos. Em Quatro meses, três sema­nas e dois dias (2007), o assun­to era o abor­to clan­des­ti­no. Em Além das mon­ta­nhas, tra­ta-se de amor sáfi­co (vela­do) e exor­cis­mo (explí­ci­to).

http://www.youtube.com/watch?v=npOe0gzdBfQ

O que apro­xi­ma os dois fil­mes é o fato de serem, ambos, dra­mas cen­tra­dos na ami­za­de entre duas jovens às vol­tas com um ambi­en­te opres­si­vo e apa­ren­te­men­te sem saí­da: o da dita­du­ra tota­li­tá­ria e cor­rup­ta de Ceausescu em Quatro meses…, o do obs­cu­ran­tis­mo reli­gi­o­so em Além das mon­ta­nhas.

Mas dizer as coi­sas assim é trair os fil­mes em ques­tão. Eles não par­tem dos temas gerais para che­gar aos des­ti­nos par­ti­cu­la­res, que des­te modo seri­am ape­nas ilus­tra­ções daque­les. Seu foco está no ínti­mo e pes­so­al, nos dile­mas mais secre­tos de suas cri­a­tu­ras. No caso, as ami­gas Voichita (Cosmina Stratan) e Alina (Cristina Flutur). As duas foram cole­gas de orfa­na­to, depois se sepa­ra­ram: Alina pas­sou um tem­po na Alemanha, Voichita entrou para um con­ven­to cató­li­co orto­do­xo. Agora Alina está de vol­ta à aldeia natal e quer con­ven­cer a ami­ga e ir com ela para a Alemanha. Voichita, por sua vez, ten­ta con­ver­ter Alina à sua fé e fazê-la ficar no con­ven­to.

Eros sufo­ca­do

O afe­to entre as duas é sufo­ca­do pela atmos­fe­ra mor­ti­fi­can­te do con­ven­to e da igre­ja local, pre­si­di­da por um padre dos mais seve­ros. Reprimido, Eros esca­pa por onde pode: Alina soma­ti­za suas frus­tra­ções, o cor­po se rebe­la. A rea­ção da ordem reli­gi­o­sa não tar­da.

Mungiu fil­ma esse emba­te de modo ao mes­mo tem­po sutil e impla­cá­vel. A bela e inós­pi­ta pai­sa­gem inver­nal, com a fala e a res­pi­ra­ção dos per­so­na­gens pro­du­zin­do dra­má­ti­cos vapo­res de con­den­sa­ção, acen­tua a sen­sa­ção de um lugar para­do no tem­po, ou antes, onde o tem­po cícli­co ain­da pre­va­le­ce sobre o tem­po his­tó­ri­co. Longos pla­nos com a câme­ra qua­se imó­vel, nos quais a pro­fun­di­da­de de cam­po ofe­re­ce ao espec­ta­dor uma vas­ta gama de deta­lhes a obser­var, alter­nam-se com movi­men­tos brus­cos e ner­vo­sos, geral­men­te de câme­ra na mão, como se o dese­jo — ou o dia­bo, depen­den­do do pon­to de vis­ta — vies­se per­tur­bar a ordem esta­be­le­ci­da e ins­tau­rar seu impé­rio do caos.

À pri­mei­ra vis­ta, esta­mos num mun­do à par­te, cas­ti­ga­do pelas intem­pé­ri­es e dis­tan­te da soci­e­da­de urba­na con­tem­po­râ­nea, o que é real­ça­do pela ausên­cia de ener­gia elé­tri­ca e de uten­sí­li­os moder­nos. Mas bas­ta pen­sar no dis­cur­so da pos­ses­são e nos ritu­ais de exor­cis­mo de tan­tas sei­tas evan­gé­li­cas à nos­sa vol­ta para cons­ta­tar que o obs­cu­ran­tis­mo e a into­le­rân­cia per­sis­tem entre nós, sob as rou­pa­gens mais vari­a­das e relu­zen­tes.

Movimento per­pé­tuo

Igualmente atu­al e uni­ver­sal é o novo Kiarostami, Um alguém apai­xo­na­do — tra­du­ção bra­si­lei­ra ruim para o títu­lo ori­gi­nal, Like some­o­ne in love, refe­rên­cia à can­ção de Jimmy van Heusen e Johnny Burke, um entre vári­os stan­dards do jazz des­fi­la­dos na tri­lha sono­ra.

http://www.youtube.com/watch?v=QIDLBG8tJnc

A nar­ra­ti­va, con­cen­tra­da em 24 horas, trans­cor­re em Tóquio e seus arre­do­res. Em linhas gerais — e as linhas gerais são mui­to trai­ço­ei­ras, em se tra­tan­do de Kiarostami — des­cre­ve-se o encon­tro impro­vá­vel entre uma garo­ta de pro­gra­ma recém-saí­da da ado­les­cên­cia (Rin Takanashi) e um velho tra­du­tor e pro­fes­sor apo­sen­ta­do (Tadahi Okino). Cópia fiel, o lon­ga ante­ri­or do dire­tor, era ambi­en­ta­do na Itália, como se sabe. Depois de déca­das fil­man­do na soci­e­da­de teo­crá­ti­ca e patri­ar­cal do Irã, Kiarostami pare­ce dis­pos­to a levar seu uni­ver­so temá­ti­co, esté­ti­co e moral aos qua­tro can­tos do mun­do, como a demons­trar que suas pre­o­cu­pa­ções cen­trais — em espe­ci­al, o jogo entre a iden­ti­da­de pes­so­al e as más­ca­ras soci­ais — não res­pei­tam fron­tei­ras.

Mas o curi­o­so, e mes­mo pro­di­gi­o­so, é que o cine­as­ta ira­ni­a­no atin­ge essa uni­ver­sa­li­da­de mer­gu­lhan­do nas par­ti­cu­la­ri­da­des con­cre­tas de cada cul­tu­ra, de cada cida­de (ou aldeia), de cada indi­ví­duo. Não exis­te no mun­do um cine­ma mais físi­co, subs­tan­ti­vo, ima­nen­te, do que o seu. Aqui, como em todos os seus fil­mes, res­pi­ra­mos a atmos­fe­ra, sen­ti­mos a tex­tu­ra e a vibra­ção dos ambi­en­tes: um bar, um apar­ta­men­to atu­lha­do de livros, um auto­mó­vel em movi­men­to, uma ofi­ci­na mecâ­ni­ca.

Cada per­so­na­gem tem tem­po e espa­ço para se mos­trar como é e como se apre­sen­ta para o mun­do. Na dura­ção de uma noi­te e um dia, ins­tau­ram-se novos laços entre os seres, novos papéis, novas pos­si­bi­li­da­des. Basta um ligei­ro des­lo­ca­men­to, pro­pi­ci­a­do pelo rotei­ro e pelas len­tes do cine­as­ta. As cri­a­tu­ras de Kiarostami pare­cem se rebe­lar, seja de modo vio­len­to ou silen­ci­o­so, con­tra as pri­sões da con­ven­ção soci­al, da ori­gem fami­li­ar, do des­ti­no. É esse seu impul­so liber­tá­rio que move o cine­ma do dire­tor, seja no Irã, na Itália ou no Japão. Não por aca­so, a ima­gem que mais se repe­te em seus fil­mes é a de um auto­mó­vel em movi­men­to, com pes­so­as inqui­e­tas den­tro.

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