Música do acaso

Literatura

24.04.12

Sunset Park, o livro de Paul Auster que sai ago­ra no Brasil, é a his­tó­ria de uma casa no Brooklyn — uma casa aban­do­na­da, ocu­pa­da ile­gal­men­te por qua­tro ami­gos. Ao redor da his­tó­ria des­sa casa gra­vi­ta uma série de per­so­na­gens que, mais cedo ou mais tar­de, entra­rão em con­ta­to.

Auster, como de hábi­to, ten­ta recu­pe­rar na fic­ção o rit­mo da vida coti­di­a­na, orga­ni­zan­do a arbi­tra­ri­e­da­de dos encon­tros entre as pes­so­as, tra­du­zin­do aqui­lo que uma vez cha­mou de “músi­ca do aca­so”.

Há pelo menos duas linhas de ação que orga­ni­zam a obra de Auster: os livros mul­ti-focais, nos quais as his­tó­ri­as se arti­cu­lam e se inter­pe­ne­tram, e os livros de foco res­tri­to, que con­tam geral­men­te com um per­so­na­gem prin­ci­pal que guia a his­tó­ria. Dentro des­se segun­do cam­po, há o des­do­bra­men­to dos livros mais ima­gi­na­ti­vos de Auster, aque­les com os quais fler­ta com o fan­tás­ti­co, com o dis­tó­pi­co e com o ale­gó­ri­co — como vemos em Timbuktu, No país das últi­mas coi­sas e Viagens no scrip­to­rium.

Sunset Park, no entan­to, ofe­re­ce uma cena que ser­ve como uma espé­cie de cris­tal de memó­ria para a obra de Auster, na medi­da em que reú­ne em si uma den­si­da­de inau­di­ta de ima­gens e lem­bran­ças, ope­ran­do como uma suma, um aleph.

Uma cri­an­ça mos­tra ao seu pai um tra­ba­lho de lite­ra­tu­ra que aca­bou de fazer para a esco­la. É um exer­cí­cio de crí­ti­ca lite­rá­ria sobre o livro de Harper Lee, O sol é para todos. Depois de ler, o pai fica assom­bra­do com a sen­si­bi­li­da­de do tex­to, a rique­za de deta­lhes que o meni­no con­se­guiu apre­en­der e a suti­le­za que con­se­guiu empre­gar na jun­ção de tudo que obser­vou. O pai, como escre­ve Auster, “esta­va impres­si­o­na­do com o cora­ção que era capaz de pro­por uma con­clu­são tão pro­fun­da”.

Tanto a ação da cri­an­ça quan­to o assom­bro do pai se repe­tem con­ti­nu­a­men­te nos livros de Auster, dis­far­ça­dos nos mais vari­a­dos ava­ta­res. A aten­ção, con­tu­do, está sem­pre nes­se momen­to de reve­la­ção dos lia­mes que ligam pes­so­as e even­tos, livros e cida­des, homens e mulhe­res, tem­pos e espa­ços.

A ima­gem da pes­soa que ofe­re­ce uma lei­tu­ra, uma inter­pre­ta­ção, um pou­co de si que encon­trou em um tex­to lite­rá­rio (ou uma ima­gem, um fil­me, uma can­ção): essa é a tôni­ca que mar­ca a pro­du­ção de Auster. E, depois do encon­tro, há sem­pre a ten­ta­ti­va de expres­sar esse con­ta­to em pala­vras, de comu­ni­car, ain­da que de for­ma falha e bre­ve, esse con­ta­to trans­for­ma­dor.

Mais do que o resul­ta­do, impor­ta o ges­to de cap­tu­ra dos ele­men­tos. Mais do que a ima­gem final, impor­ta a mon­ta­gem que se faz daqui­lo que se sepa­ra, pois é aí que se reve­la a sub­je­ti­vi­da­de, a indi­vi­du­a­li­da­de.

Na Trilogia de Nova York, há um homem que pas­seia pelas ruas e o tra­je­to de seu cor­po for­ma letras no mapa da cida­de, e o dete­ti­ve que o segue, depois de dias pen­san­do sobre a apa­ren­te fal­ta de sen­ti­do des­se tra­je­to, des­co­bre que há, ali, naque­le apa­ren­te des­ca­so, uma men­sa­gem que lhe diz res­pei­to dire­ta­men­te.

Em O livro das ilu­sões, um homem deses­pe­ra­do encon­tra um futu­ro para si ao ten­tar elu­ci­dar os mis­té­ri­os da vida de um ator cômi­co do cine­ma mudo — e assis­te seus fil­mes incon­tá­veis vezes, até que o fil­me lhe fale algu­ma coi­sa, até que algu­ma men­sa­gem pos­sa ser extraí­da daqui­lo que, ini­ci­al­men­te, era uma estra­nhe­za.

A apa­ren­te faci­li­da­de da escri­ta de Auster, sua flui­dez, mas­ca­ra e ao mes­mo tem­po con­vi­da ao mer­gu­lho nas cama­das pro­fun­das, nos ele­men­tos que se repe­tem, para que a lei­tu­ra seja sem­pre uma des­co­ber­ta, como acon­te­ce com aque­la cri­an­ça que mos­tra seu tra­ba­lho para o pai.

Para Auster, a lei­tu­ra é uma des­co­ber­ta de si, o cam­po do auto-conhe­ci­men­to por exce­lên­cia. Os ele­men­tos que se repe­tem, que dão coe­são a uma vida que se colo­ca dian­te da lite­ra­tu­ra, dizem res­pei­to dire­ta­men­te ao lei­tor — que depois se trans­for­ma em escri­tor.

Por con­ta da sen­si­bi­li­da­de des­sa poé­ti­ca, fica evi­den­te que seus melho­res livros são aque­les que, em algu­ma medi­da, leva­ram adi­an­te o cru­za­men­to entre auto­bi­o­gra­fia e fic­ção — A inven­ção da soli­dão, Da mão para a boca, e tam­bém A tri­lo­gia de Nova York e Leviatã.

Há tam­bém o pro­je­to que Auster desen­vol­veu quan­do foi con­vi­da­do a fazer um pro­gra­ma de rádio nos Estados Unidos: ao invés de escre­ver, propôs aos ouvin­tes que envi­as­sem as suas his­tó­ri­as de vida. Recebeu milha­res de tex­tos, leu cen­te­nas deles em seu pro­gra­ma e, no fim, publi­cou uma cole­tâ­nea com as melho­res his­tó­ri­as, Achei que meu pai fos­se Deus. O escri­tor ope­ra como um cata­li­sa­dor de vozes anô­ni­mas — uma espé­cie de ante­na poun­di­a­na res­sig­ni­fi­ca­da, pro­gra­ma­da para rece­ber as bai­xas frequên­ci­as e não aque­las das altas esfe­ras da cul­tu­ra.

É por isso que, nos agra­de­ci­men­tos de Sunset Park, está o nome de sua filha, Sophie Auster, res­pon­sá­vel pelo tex­to sobre o livro de Harper Lee, um tex­to escri­to anos atrás, quan­do ain­da esta­va na esco­la, um tex­to que reve­lou ao seu pai, o escri­tor, quea lite­ra­tu­ra, mais do cir­cu­lar pelas esco­las de per­ten­ci­men­to, pelos moder­nos, pós-moder­nos ou hiper-moder­nos, cir­cu­la pelo teci­do que for­ma as vidas comuns.

Uma espé­cie de espa­ço utó­pi­co no qual bas­ta con­tar uma his­tó­ria, pen­sar sobre as pes­so­as e suas rela­ções, sobre o aca­so dos encon­tros, sobre o absur­do das idas e vin­das, em uma sor­te de pen­sa­men­to mági­co, de orga­ni­za­ção do caos, de luta cons­tan­te com a ale­a­to­ri­e­da­de da exis­tên­cia.

Lendo seus livros, fica evi­den­te que o pro­je­to de Auster não é dar con­ta de uma esco­la, ou dar con­ta de uma série de esco­lhas que pos­sam deter­mi­nar ou não seu per­ten­ci­men­to à ver­ten­te pós-moder­na do roman­ce nor­te-ame­ri­ca­no con­tem­po­râ­neo. Lendo seus livros, fica cla­ro que seu pro­je­to é con­tar (cap­tu­rar, mon­tar) his­tó­ri­as, refle­tir sobre a natu­re­za huma­na em seus momen­tos extre­mos, obser­var a pas­sa­gem do tem­po e suas mar­cas sobre os sujei­tos e suas esco­lhas.

Almas ava­ri­a­das”, como escre­ve Auster em Sunset Park. Almas ava­ri­a­das que se encon­tram den­tro do espa­ço e do tem­po da fic­ção. Leitor e escri­tor, como afir­mou Auster em entre­vis­ta recen­te, escre­vem jun­tos o livro e, a par­tir dis­so, cons­tro­em uma inti­mi­da­de que pode durar anos. Algum lei­tor insis­ten­te de Auster cer­ta­men­te pode afir­mar que o conhe­ce, pode afir­mar que lhe dá imen­sa satis­fa­ção ler seus livros, par­ti­ci­par das his­tó­ri­as que ele colo­ca em seus livros (que colo­cam jun­tos em seus livros, afi­nal).

Essa cos­tu­ra entre vida e fic­ção está prin­ci­pal­men­te na for­ma de seus livros: a mon­ta­gem que faz dos tre­chos, a con­ca­te­na­ção das reve­la­ções, todos esses ele­men­tos for­mais garan­tem, sem dúvi­da, a flui­dez de suas tra­mas, mas tam­bém garan­tem esse difí­cil pon­to de co-exis­tên­cia entre lei­tor e escri­tor.

* Kelvin Falcão Klein é autor de Conversas apó­cri­fas com Enrique Vila-Matas (Ed. Modelo de Nuvem, 2011).

* Na ima­gem que ilus­tra esse post: o escri­tor nor­te-ame­ri­ca­no Paul Auster.

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