Música e celebração

No cinema

19.01.12

Na pri­mei­ra vez que vi A músi­ca segun­do Tom Jobim, o docu­men­tá­rio de Dora Jobim (neta do homem) e Nelson Pereira dos Santos, embar­quei de tal manei­ra no flu­xo encan­ta­tó­rio da músi­ca que não con­se­gui pres­tar aten­ção à estru­tu­ra nar­ra­ti­va do fil­me, sua orga­ni­za­ção inter­na, suas estra­té­gi­as de edi­ção.

Tom Jobim e Vinicius de Moraes, em 1956, na épo­ca da estreia de Orfeu da Conceição (foto de José Medeiros/acervo IMS)

Foi pre­ci­so ver uma segun­da vez, em DVD, paran­do de quan­do em quan­do para fazer ano­ta­ções. Tudo isso para che­gar a uma con­clu­são que já esta­va con­ti­da no letrei­ro final do fil­me, uma fra­se do pró­prio Tom Jobim: “A lin­gua­gem musi­cal bas­ta”. Ao que pare­ce, foi esse o prin­cí­pio que nor­te­ou os dire­to­res des­se docu­men­tá­rio sem locu­ção, sem entre­vis­tas, sem tex­tos expli­ca­ti­vos.

Mas há inte­li­gên­cia e sen­si­bi­li­da­de nes­sa cola­gem apa­ren­te­men­te “natu­ral” de sons e ima­gens. Às vezes orga­ni­zam-se em sequên­cia vári­as inter­pre­ta­ções de uma mes­ma can­ção, por can­to­res e músi­cos de dife­ren­tes paí­ses. Um exem­plo: Tom can­tan­do “Desafinado” ao vio­lão, no Steve Allen Show, em 1964, é segui­do por Ella Fitzgerald inter­pre­tan­do a mes­ma músi­ca em 1963, e por fim por Sammy Davis Jr., que leva ao extre­mo o sca­ting vocal esbo­ça­do por Ella, redu­zin­do o can­to a síla­bas ono­ma­to­pai­cas.

Momentos epi­fâ­ni­cos

Ou então “Garota de Ipanema”, o tema mais repe­ti­do no docu­men­tá­rio, toca­do e can­ta­do em diver­sos idi­o­mas até desem­bo­car no anto­ló­gi­co due­to entre Tom e Frank Sinatra em 1967, um dos momen­tos epi­fâ­ni­cos do fil­me. (Há outros: Elis e Tom gra­van­do “Águas de mar­ço”; Chico Buarque e Tom Jobim ouvin­do as vai­as a “Sabiá”, can­ta­da por Cynara e Cybele no Festival Internacional da Canção de 1968; e sobre­tu­do a sequên­cia final, de que se fala­rá mais abai­xo.)

Mas essa ideia das vári­as ver­sões de uma músi­ca não se con­ver­te jamais numa cami­sa de for­ça, pois outros méto­dos de asso­ci­a­ção regem tan­to a suces­são dos núme­ros musi­cais como a jus­ta­po­si­ção entre som e ima­gem enquan­to dura cada um des­ses núme­ros (geral­men­te apre­sen­ta­dos na ínte­gra).

Um exem­plo: quan­do Agostinho dos Santos can­ta “A feli­ci­da­de”, cuja letra fala do car­na­val em con­tras­te com as agru­ras do coti­di­a­no, vemos ima­gens de bon­des e trens super­lo­ta­dos no Rio dos anos 50. Outro: ao som da “Sinfonia de Brasília”, ima­gens fixas mos­tram Tom e Vinicius, Tom e Oscar Niemeyer, a capi­tal em cons­tru­ção, a orques­tra ensai­an­do, um ras­cu­nho da par­ti­tu­ra etc.

Se nos casos cita­dos a asso­ci­a­ção da músi­ca com seu refe­ren­ci­al exter­no é dire­ta, qua­se óbvia, há cone­xões mais sutis, como a bela pas­sa­gem em que Nara Leão can­ta “Dindi” (com Menescal ao vio­lão) entre dis­cre­tas inser­ções de fotos de Tom Jobim andan­do de bote, pes­can­do, cami­nhan­do na praia com o vio­lão. De algum modo, isso tudo se har­mo­ni­za à per­fei­ção.

Há, a meu ver, um elo um tan­to frou­xo nes­sa cor­ren­te. Já per­to do final, a enfi­a­da de can­ções (qua­se um pot-pour­ri) inter­pre­ta­das pela Banda Nova, com Tom ao pia­no e suas bac­king vocals, em arran­jos mais stan­dard, soa redun­dan­te.

Mas isso é com­pen­sa­do ampla­men­te por um últi­mo ras­go de gênio dos rea­li­za­do­res: a sequên­cia do des­fi­le da Mangueira em que Tom Jobim foi home­na­ge­a­do. Em vez do som fes­ti­vo da esco­la de sam­ba, o que ouvi­mos, sal­vo enga­no, é a gran­di­o­sa e melan­có­li­ca “Saudade do Brasil”, uma com­po­si­ção sinfô­ni­ca que ates­ta a dívi­da do com­po­si­tor com seu mes­tre sobe­ra­no Villa-Lobos. 

O gran­de ausen­te

Em meio à plêi­a­de de can­to­res e músi­cos excep­ci­o­nais (de Erroll Garner a Milton Nascimento, de Dizzy Gillespie a Henri Salvador, de Sinatra a Judy Garland), o espec­ta­dor esper­to sen­ti­rá fal­ta de um, tal­vez aque­le que mais e melhor can­tou Jobim: João Gilberto.

A expli­ca­ção para essa ausên­cia gri­tan­te, segun­do cons­ta, é que está sen­do rea­li­za­do um docu­men­tá­rio sobre o can­tor, e os pro­du­to­res têm exclu­si­vi­da­de sobre as ima­gens de suas per­for­man­ces. Mesmo assim, cus­ta­va ceder uma­zi­nha para o fil­me de Dora Jobim e Nelson Pereira?

De todo modo, qua­se como numa brin­ca­dei­ra de “onde está Wally”, é pos­sí­vel ver João Gilberto na tela, logo no iní­cio do lon­ga, acom­pa­nhan­do Elizeth Cardoso dis­cre­ta­men­te ao vio­lão, numa cena do fil­me Pista de gra­ma (1958), de Haroldo Costa. Só para regis­trar, aqui vai um bre­ve frag­men­to, um pou­co fora de sin­cro­nia:

Cabe uma últi­ma infor­ma­ção. A músi­ca segun­do Tom Jobim é ape­nas meta­de de um díp­ti­co dedi­ca­do por Nelson Pereira dos Santos ao com­po­si­tor. A outra meta­de, que tra­ta da vida de Jobim, tam­bém está pron­ta, mas — absur­da­men­te — ain­da não encon­trou dis­tri­bui­dor inte­res­sa­do.

E assim, como quem não quer nada, Nelson Pereira, que já docu­men­tou Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, além de ter adap­ta­do Graciliano Ramos, Jorge Amado, Nelson Rodrigues e Guimarães Rosa, vai cons­truin­do seu gigan­tes­co pai­nel da cul­tu­ra bra­si­lei­ra do sécu­lo XX.

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