Na fome de leitura, o apreço à ciência

Literatura

10.01.12

Dedicado ao jor­na­lis­ta Daniel Piza (1970–2011) e escri­to por Flávio Pinheiro, dire­tor supe­rin­ten­den­te do Instituto Moreira Salles, o tex­to abai­xo foi publi­ca­do no Caderno 2 — Domingo, do jor­nal O Estado de S. Paulo, de 8/1/12. Clique aqui para ler o arti­go no site do jor­nal O Estado de S.Paulo e os comen­tá­ri­os. Clique aqui para ler tex­to de Marcelo Rezende tam­bém sobre Daniel Piza publi­ca­do no blog.

 

Daniel Piza foi ati­la­do lei­tor. Na topo­gra­fia natu­ral de sua sala havia per­ma­nen­te cor­di­lhei­ra de livros, como Edmundo Leite fla­grou para o site do Estadão no dia seguin­te de sua inve­ros­sí­mil ausên­cia. De tem­pos em tem­pos Daniel remo­via para a reda­ção mon­ta­nhas de livros, avi­da­men­te dis­pu­ta­dos. Aquela bara­fun­da con­ti­nha a ampla lati­tu­de de sua curi­o­si­da­de inte­lec­tu­al, ser­vi­da no que ela tinha de melhor e pior em sua colu­na domi­ni­cal.

A mesa de tra­ba­lho de Daniel Piza. Foto de Alex Silva/AE

 
As lis­tas de melho­res do ano são o melhor lega­do des­sa fome de lei­tu­ra. Nelas há mais livros do que se pode ler numa vida intei­ra que não se esgo­tas­se em 41 anos. Na lis­ta de 2009 ele dis­se: “Tratei de mais de 80 livros nes­te ano”. O ver­bo é “tra­tei”, melhor e mais apro­pri­a­do do que “li”. É isso mes­mo que se espe­ra de uma ante­na, que per­ce­ba mais do que deli­mi­te (ele detes­ta­ria ser des­cri­to como ante­na, embo­ra Ezra Pound achas­se subli­me ser ante­na).

Sua ante­na era dota­da de pers­pi­cá­cia com alto grau de acer­tos. Falava de pre­ci­o­si­da­des per­di­das no mar de lan­ça­men­tos. De Marca d’água, de Joseph Brodsky, em 2006. De O últi­mo lei­tor, de Ricardo Piglia, no mes­mo ano. Da notá­vel anto­lo­gia The Oxford book of modern sci­en­ce, orga­ni­za­da por Richard Dawkins, de 2008. Do livro de memó­ri­as do arqui­te­to japo­nês Tadao Ando em 2010. De A lebre com olhos de âmbar, de Edmund de Waal, em 2011. Livros na con­tra­mão do suces­so de ven­das, da bito­la do sen­so comum.

As lis­tas, impreg­na­das por ben­di­tas e mal­di­tas idi­os­sin­cra­si­as, exi­bi­am algu­mas carac­te­rís­ti­cas mar­can­tes. Driblavam a pro­pen­são autár­qui­ca que às vezes sitia o Brasil fazen­do pes­ca­ri­as fora. Em 2009 falou de The age of won­der, monu­men­to de Richard Holmes sobre o fler­te do roman­tis­mo anglo-saxão do sécu­lo 18 com as des­co­ber­tas cien­tí­fi­cas. No mes­mo ano, men­ci­o­nou Viaje de la fic­ción, que Vargas Llosa dedi­cou à for­mi­dá­vel lite­ra­tu­ra do uru­guaio Juan Carlos Onetti. Nem um, nem outro ain­da foram publi­ca­dos no Brasil.

O aves­so des­sa moe­da era o des­lum­bra­men­to. Por exem­plo, com tudo que Philip Roth escre­veu. O olhar cos­mo­po­li­ta estu­fa­va cer­ta pre­ten­são — “Muita gen­te des­co­briu só ago­ra os con­tos de John Cheever e Rodolfo Walsh”, dis­se em 2010, igno­ran­do des­co­ber­tas bem ante­ri­o­res. O mes­mo olhar ser­via a jul­ga­men­tos sumá­ri­os. “Não há nada na fic­ção bra­si­lei­ra dos últi­mos 30 anos com­pa­rá­vel a Roth, Sebald, Bolaño, McEwan ou mes­mo Saer”, escre­veu em 2008. Fazia ques­tão de remar con­tra câno­nes às vezes ape­nas para exi­bir mus­cu­la­tu­ra. Isso está nas esto­ca­das a 2666, de Roberto Bolaño, ou na neces­si­da­de de dizer que Filho eter­no não era o melhor livro de Cristóvão Tezza, embo­ra ain­da seja.

É lou­vá­vel que em todas as suas lis­tas a ciên­cia e a divul­ga­ção cien­tí­fi­ca sejam equi­pa­ra­das ao melhor da pro­du­ção dita huma­nis­ta. Em todas elas há sem­pre um Eric R. Kandel, falan­do de memó­ria, ou um António Damásio, rede­se­nhan­do facul­da­des cere­brais.

Há exa­ge­ros e omis­sões nas lis­tas, como há em todas as lis­tas. Em 2009 igno­rou Monodrama, do poe­ta Carlito Azevedo. Em 2011 arro­lou entre os livros do ano a bio­gra­fia de Jorge Luis Borges, escri­ta por Edwin Williamsom, que num jul­ga­men­to para lá de con­des­cen­den­te não pas­sa de um livro medi­a­no, asso­la­do por alto teor de cha­tu­ra.

Não era o últi­mo lei­tor, mas fará fal­ta. Era um radar com ambi­ção de farol, um guia com pre­sun­ção de orá­cu­lo. Precisaria dobrar sécu­los como uma tar­ta­ru­ga para ler tudo o que deu a impres­são de ter lido de cabo a rabo na sua cur­ta vida. Deixa bibli­o­te­cas por devo­rar. Quem as lerá por nós?

A sala de tra­ba­lho de Daniel Piza. Foto de Alex Silva/AE

 

 

 

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