Nada além

Literatura

30.10.12

Como obser­va Marlene de Castro Correia, dos poe­tas moder­nis­tas, ou liga­dos ao moder­nis­mo, Carlos Drummond de Andrade é aque­le em cuja obra há o “mai­or núme­ro de alu­sões ao cinema”.1

Em seu pri­mei­ro livro, Alguma poe­sia (1930), cha­ma aten­ção o bre­ve poe­ma “Sabará”, no qual o cine­ma, mar­co defi­ni­ti­vo da moder­ni­da­de, “irrom­pe no tex­to com as cono­ta­ções de des­con­ti­nui­da­de, de movi­men­ta­ção rápi­da, de veloz subs­ti­tui­ção de ima­gens, de pro­du­ção de cho­ques e sur­pre­sas, em dis­cur­so aces­sí­vel mas suges­ti­vo da espe­ci­fi­ci­da­de da nar­ra­ti­va fil­mo­grá­fi­ca e sua téc­ni­ca de mon­ta­gem”.

O pre­sen­te vem de man­si­nho de repen­te dá um sal­to: car­taz de cine­ma com fita ame­ri­ca­na.

Do mes­mo livro, vale citar tam­bém a últi­ma estro­fe de “Balada do amor atra­vés das
ida­des”:

Hoje sou moço moder­no,
remo, pulo, dan­ço, boxo,
tenho dinhei­ro no ban­co.
Você é uma lou­ra notá­vel,
boxa, dan­ça, pula, rema.
Seu pai é que não faz gos­to.
Mas depois de mil peri­pé­ci­as,
eu, herói da Paramount,
te abra­ço, bei­jo e casa­mos.

Nos ver­sos, ali­am-se os luga­res-comuns român­ti­cos e o humour, gra­ças a uma “cons­ci­ên­cia do papel do cine­ma na cons­tru­ção de um novo ima­gi­ná­rio e de novos padrões de com­por­ta­men­to e sensibilidade”.2

Diante do espe­ta­cu­lar mural de “Nosso tem­po”, de A rosa do povo (1945), pode­mos pen­sar em Metrópolis (1927), de Fritz Lang. No fil­me, a cida­de tan­to diri­ge-se para o alto (seus pré­di­os são cru­za­dos por aviões) quan­to bai­xa ao sub­ter­râ­neo, resul­tan­do daí uma dimen­são espa­ci­al ale­gó­ri­ca das con­di­ções econô­mi­cas e soci­ais que repre­sen­tam: embai­xo, os tra­ba­lha­do­res, os pobres, rele­ga­dos à som­bra; em cima, os patrões, a rique­za de um mun­do exces­si­vo e opres­sor. A metró­po­le cri­a­da por Fritz Lang, pro­ble­má­ti­ca, labi­rín­ti­ca, monu­men­tal, avas­sa­la­do­ra, con­cen­tra todos os con­trá­ri­os, exa­ta­men­te como a cida­de de “Nosso tem­po”.

Além de tema cons­tan­te — explí­ci­to, suben­ten­di­do ou incor­po­ra­do à lei­tu­ra por aque­les que conhe­cem o lado ciné­fi­lo do poe­ta -, o cine­ma sur­ge na obra drum­mon­di­a­na como um hori­zon­te alme­ja­do pela pró­pria for­ma. Ou seja, os ver­sos não raro pro­cu­ram o efei­to cine­ma­to­grá­fi­co. É o que se pode ver, por exem­plo, no céle­bre “Poema de sete faces”, em que o poe­ta bus­ca a velo­ci­da­de e a simul­ta­nei­da­de pró­pri­as de cine­ma na sequên­cia “per­nas bran­cas pre­tas ama­re­las”.

Outro dado rele­van­te é a pai­xão de Carlos Drummond de Andrade por dois gran­des nomes da tela: Charlie Chaplin e Greta Garbo.

O pri­mei­ro apa­re­ce já em “O amor bate na aor­ta”, de Brejo das Almas (1932), numa ima­gem em que o céle­bre vaga­bun­do é pro­mes­sa de ale­gria capaz de fazer desa­pa­re­cer as dores do amor: “Meu bem, não chores/ hoje tem fil­me de Carlito!”. E gran­des home­na­gens ain­da viri­am em “Canto ao homem do povo Charlie Chaplin”, de A rosa do povo (1945) e “A Carlito”, de Lição de coi­sas (1962).

Pode-se mes­mo dizer, como o fez José Guilherme Merquior, que Carlito é “pri­mo espi­ri­tu­al do gau­che de Itabira”.3 Há cenas e ges­tos cha­pli­ni­a­nos espa­lha­dos ao lon­go da poe­sia de Drummond. Cito mais uma vez Marlene de Castro Correia, que vê no poe­ma “Sentimental”, de Alguma poe­sia, “uma ins­pi­ra­ção — cons­ci­en­te ou incons­ci­en­te — em fil­mes de Chaplin”:

Ponho-me a escre­ver
teu nome com letras de macar­rão.
No pra­to, a sopa esfria, cheia de esca­mas
e debru­ça­dos na mesa todos con­tem­plam
esse român­ti­co tra­ba­lho.

O empre­go e a mani­pu­la­ção da sopa evo­ca­ria Carlito na medi­da em que este man­tém com os obje­tos “uma rela­ção mar­ca­da pelo des­vio de sua fun­ção ori­gi­ná­ria, soci­al­men­te codificada”,4 como na for­mi­dá­vel dan­ça dos pãe­zi­nhos de Em bus­ca do ouro (The Gold Rush, 1925).

Vê-se que a rela­ção com Greta Garbo era outra. Paixão cine­ma­to­grá­fi­ca tam­bém dura­dou­ra, a atriz este­ve pre­sen­te sobre­tu­do em crô­ni­cas, uma delas ain­da de 1930, quan­do Drummond usa­va, entre outros pseudô­ni­mos, o de Antônio Crispim, com o qual assi­nou “O fenô­me­no Greta Garbo”, tex­to publi­ca­do no Minas Gerais. A atriz, porém, seria exem­plar­men­te cele­bra­da em ver­sos no livro-des­pe­di­da Farewell (1996), em “Os 27 fil­mes de Greta Garbo”. No entan­to, pode­mos “sen­tir” sua pre­sen­ça em outros momen­tos, como no extra­or­di­ná­rio “O mito”, de A rosa do povo. Ali, o sujei­to poé­ti­co nar­ra uma rela­ção per­tur­ba­do­ra e ambí­gua em tor­no de uma per­so­na­gem — desig­na­da ape­nas “Fulana” -, que ele sequer conhe­ce, mas em quem pen­sa e de quem fala obses­si­va­men­te. Em seu mul­ti­fa­ce­ta­do retra­to, ela emer­ge como uma espé­cie de mulher total, na qual se fun­dem regis­tros român­ti­cos, tra­ços da alta lite­ra­tu­ra, sig­nos da soci­e­da­de de con­su­mo e assim por dian­te. O con­jun­to, tão impre­ci­so quan­to arra­sa­dor, aca­ba por lhe con­fe­rir os dons da ubi­qui­da­de e da atem­po­ra­li­da­de, carac­te­rís­ti­cos dos mitos:

Mas Fulana será gen­te?
Estará somen­te em ópe­ra?
Será figu­ra de livro?
Será bicho? Saberei?

Greta Garbo pare­ce insi­nu­ar-se nos ver­sos. Mas se o poe­ta não a teve em men­te quan­do cons­truiu seu poe­ma, é cer­to que conhe­cia bem os meca­nis­mos de cri­a­ção e manu­ten­ção dos mitos, e a atriz encai­xa-se per­fei­ta­men­te no mode­lo que o poe­ma de A rosa do povo põe em fun­ci­o­na­men­to. E em fun­ção mes­mo de sua luci­dez, o poe­ta podia ir além do reco­nhe­ci­men­to do maqui­nis­mo ide­o­ló­gi­co pro­du­tor de mitos. Não por aca­so, Fulana, ao final do poe­ma, é huma­ni­za­da, sin­gu­la­ri­za­da e tem seu nome subs­ti­tuí­do por “Amiga” num mun­do “sem clas­se e impos­to”.

Na crô­ni­ca “O fenô­me­no Greta Garbo”, depa­ra­mo-nos com uma inde­ter­mi­na­ção mui­to pró­xi­ma daque­la do poe­ma. A atriz é con­si­de­ra­da, em pri­mei­ro lugar, como “feia”. E ain­da:

Tem um cor­po de tábua de pas­sar rou­pa, depo­si­ta­do sobre dois pés enor­mes, nº 41 (dizem que Isadora Duncan não os pos­suía meno­res). Um ros­to que não reco­men­da nem pelo bri­lho dos olhos nem pela cor­re­ção do nariz nem pela exi­gui­da­de da boca. Criatura seca, pobre de cur­vas, rica de ângu­los, e segu­ra­men­te sem nenhum des­ses pre­di­ca­dos que carac­te­ri­zam e dão pre­ço às nos­sas bele­zas de tró­pi­co. Beleza, tal­vez, para os esqui­mós, si o belo para o esqui­mó não fos­se uma autên­ti­ca esqui­mó, e não uma cava­lhei­ra com­pri­da e trá­gi­ca, mór­bi­da, anti­pá­ti­ca e arti­fi­ci­al (…).5

O cro­nis­ta, a seguir, afir­ma, no entan­to, que não per­de um fil­me da sue­ca, con­cluin­do que, como todos, tem a sua “máqui­na sen­ti­men­tal” desar­ran­ja­da por ela.

A par­tir daí, a inde­ci­são desa­pa­re­ce. Ainda que deci­di­da­men­te des­con­fi­a­do dos sig­nos pro­du­zi­dos em série pela indús­tria cul­tu­ral, Drummond man­te­ve Greta Garbo res­guar­da­da da iro­nia de seus ver­sos. Foi uma exce­ção. De cer­to modo, a atriz tal­vez lhe pare­ces­se sin­gu­lar e huma­na ape­sar da más­ca­ra, ou exa­ta­men­te por ela, como se o ros­to guar­das­se, quan­to mais se expu­nha, a mulher e não a más­ca­ra. Extrapolava a mera pro­du­ção? Projetava para além da tela uma ver­da­de e um mis­té­rio que eram uma mes­ma coi­sa e ela mes­ma? Por fim, a atriz-mito aca­bou por assu­mir um cer­to gau­chis­mo quan­do se reti­rou da vida públi­ca, fugin­do dos olhos de todos, pas­san­do a viver “de capo­te com­pri­do, cha­pe­lão e ócu­los escu­ros”. O poe­ta não pode­ria dei­xar de admi­rar tal ges­to, que lhe pare­ce­ra con­fir­mar o cará­ter sin­gu­lar, huma­no, daque­la mulher que nun­ca dei­xa­ra de ser, à luz da admi­ra­ção, mui­to mais que sub­je­ti­vi­da­de inven­ta­da para o entre­te­ni­men­to:

Greta Garbo é mui­to mais do que Greta Garbo, e nada tem a ver com o mito publi­ci­tá­rio, que de res­to ela abo­mi­na­va, e de que sou­be se des­pe­dir com o mais seve­ro pudor, pas­san­do a ser a mulher feia, de capo­te com­pri­do, cha­pe­lão e ócu­los escu­ros, erran­te pelas ruas de Nova York, indi­fe­ren­te ao que digam ou pen­sem das ruí­nas de sua glória.6

Numa revi­são últi­ma e de total lim­pi­dez, o mito se des­faz em favor de sua huma­ni­za­ção defi­ni­ti­va. Tudo acon­te­ce como se a atriz dei­xas­se de ser “Fulana” para se tor­nar “Amiga”. É o fim do mito — ou a com­pre­en­são de que ele nun­ca exis­ti­ra — a que assis­ti­mos em “Os 27 fil­mes de Greta Garbo”:

Como pos­so acre­di­tar em Greta Garbo
nas peles que ele­geu
sem nun­ca se ofe­re­cer de todo para mim,
para nin­guém?
Enganou-me todo o tem­po. Não era mito
como eu pedia.

O poe­ta che­gou a inven­tar uma visi­ta da atriz a Belo Horizonte; con­fes­sou, a seguir, sua “men­ti­ra”. E, assim, pelas crô­ni­cas e poe­mas, nós, lei­to­res, fomos acom­pa­nhan­do, mes­mo que frag­men­ta­ri­a­men­te, os mati­zes de um enre­do no qual o poe­ta se man­te­ve como ciné­fi­lo pelo menos na per­ma­nen­te admi­ra­ção por sua musa abso­lu­ta.

Os frag­men­tos estão reu­ni­dos aqui, nes­te bre­ve cader­no, a que acres­cen­ta­mos um sabo­ro­so epi­só­dio — regis­tra­do por Elvia Bezerra -, envol­ven­do uma gran­de ami­ga do poe­ta, Lya Cavalcanti.

Neste dia D, ani­ver­sá­rio de Carlos Drummond de Andrade, nós o home­na­ge­a­mos fazen­do nos­sos os seus ges­tos de ima­gi­nar, maqui­nar, ves­tir, amar Greta Garbo.

* Eucanaã Ferraz é poe­ta, pro­fes­sor e ensaís­ta.

* O tex­to aci­ma faz par­te cader­no da mos­tra de fil­mes “Drummond home­na­geia Greta Garbo”, que acon­te­ce­rá no Dia D, em 31/10/2012.

NOTAS:
1 Poesia de dois Andrades (e outros temas). Rio de Janeiro: Azougue, 2010, p. 18.
2 Ibidem. p. 17.
3 Verso uni­ver­so em Drummond. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1976, p. 106.
4 CORREIA, Marlene de Castro. Op. cit., p. 19.
5 Cf. aqui, pp. 11–12.
6 “Aniversário”, cf. aqui, pp. 13–14.

, , , , , , , , ,