Nada é simples

Colunistas

13.07.16

Viver no Rio de Janeiro é des­sas expe­ri­ên­ci­as que con­fir­ma a fra­se “Nada é sim­ples”, com a qual a pro­fes­so­ra Katerina Bilova, per­so­na­gem de Fale com ela vivi­da por Charlote Hampling, fecha as cor­ti­nas, encer­ra um espe­tá­cu­lo de balé e dá fim a com­ple­xa tra­ma de amor do fil­me de  Pedro Almodóvar. A capi­tal flu­mi­nen­se não vale o pre­ço que se paga pelo metro cúbi­co de oxi­gê­nio res­pi­ra­do, como me dis­se um ami­go pau­lis­ta recém-che­ga­do por aqui. O tema das nos­sas con­di­ções urba­nas me pare­ce par­ti­cu­lar­men­te com­ple­xo nes­te momen­to em que cada um dos cari­o­cas pode expe­ri­men­tar, depen­den­do do lugar onde mora e da situ­a­ção em que se encon­tra, a con­di­ção per­ver­sa em que vive­mos, sis­te­ma­ti­ca­men­te expul­sos, real ou sim­bo­li­ca­men­te.

Daqui a bem pou­co tem­po, a cida­de será pal­co dos Jogos Olímpicos, e aqui me pare­ce par­ti­cu­lar­men­te ade­qua­do o uso da pala­vra – é um tea­tro para o públi­co inter­na­ci­o­nal, fes­ta que acon­te­ce em meio a imen­sas incer­te­zas sobre o tal lega­do olím­pi­co (O metrô vai vol­tar a fun­ci­o­nar? O VLT vai ser com­ple­ta­do? A Baía de Guanabara vai ficar lim­pa?).  As dúvi­das sobre o futu­ro se sobre­põem às difi­cul­da­des do pre­sen­te, em que patrimô­ni­os esta­du­ais como a UERJ estão ame­a­ça­dos por fal­ta de recur­sos, hos­pi­tais públi­cos estão fechan­do as por­tas e até a nos­sa inde­fen­sá­vel polí­cia faz pro­tes­to con­tra as pés­si­mas con­di­ções de tra­ba­lho. Pouco impor­ta, dian­te des­te qua­dro, a velha dis­tin­ção entre as três esfe­ras de poder, fede­ral, esta­du­al ou muni­ci­pal. Importa que a face do Estado apre­sen­ta­da ao cari­o­ca – e tam­bém ao flu­mi­nen­se – é agu­da­men­te desi­gual.

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Lixo flu­tu­an­te na Baía de Guanabara (foto: Cristiano Trad Soares de Nazaré)

Diante de qual­quer ati­tu­de crí­ti­ca, ufa­nis­tas cos­tu­mam res­pon­der evo­can­do as imen­sas bele­zas natu­rais que nos cer­cam. De fato, tal­vez o Rio de Janeiro seja mes­mo a úni­ca metró­po­le urba­na com carac­te­rís­ti­cas de bal­neá­rio. Se há dúvi­das sobre o acen­to em fazer do Rio uma cida­de de vera­neio, vol­ta­da para a indús­tria do turis­mo que se impõe em detri­men­to das neces­si­da­des coti­di­a­nas de quem mora aqui, a mim pare­ce que há ain­da mais dúvi­das sobre a expres­são “metró­po­le urba­na”.

Basta olhar para a vizi­nha São Paulo para per­ce­ber o quão lon­ge esta­mos da cate­go­ria metró­po­le. Temos os pro­ble­mas urba­nos de metró­po­le, é ver­da­de, mas esta­mos mui­to lon­ge de ter esbo­ço de solu­ções. Aqui, his­to­ri­ca­men­te a cate­go­ria cida­de se sobre­põe à res­tri­ti­va – cul­tu­ral e soci­al­men­te – cate­go­ria Zona Sul, um peque­no e dis­pu­ta­do peda­ço de ter­ra onde a con­cen­tra­ção de bens e ser­vi­ços faz supor que somos mais um bal­neá­rio do que de fato uma metró­po­le. Se na capi­tal pau­lis­ta­na é pos­sí­vel se espa­lhar por dife­ren­tes bair­ros que, cada um a seu modo, ofe­re­ce a pos­si­bi­li­da­de de auto­no­mia do mora­dor em rela­ção a outros bair­ros, no bal­neá­rio cari­o­ca tudo acon­te­ce da Praça Mauá ao Pontal, já toman­do uma per­cep­ção mais bene­vo­len­te, inclu­si­va, que con­si­de­ra como con­so­li­da­das as trans­for­ma­ções urba­nas na área do por­to.

São áre­as de for­te espe­cu­la­ção imo­bi­liá­ria onde, mes­mo que você tenha lido nos jor­nais sobre a que­da dos pre­ços, os pro­pri­e­tá­ri­os de imó­veis con­ti­nu­am fazen­do exi­gên­ci­as absur­das para alu­guel e os pre­ços de ven­da resis­tem em con­fir­mar o noti­ciá­rio mais oti­mis­ta. Se o mar ain­da pau­ta o valor de cada peda­ço de ter­ra no Rio de Janeiro, tal­vez seja jus­ta­men­te no mar que este­ja nos­sa mai­or con­tra­di­ção. Visto de lon­ge, oce­a­no, baía e lago­as são de uma bele­za ímpar e com­ple­tam a geo­gra­fia da cida­de cra­va­da entre mon­ta­nhas. Vistos de per­to, estão cober­tos de lixo de super­fí­cie e deje­tos, poluí­dos por esgo­tos lan­ça­dos dire­ta ou indi­re­ta­men­te,  fazen­do das prai­as pal­co – aqui tam­bém no sen­ti­do tea­tral – de uma fes­ta far­ses­ca.

Mas se tudo isso pare­ce poder ser supe­ra­do duran­te a tem­po­ra­da olím­pi­ca, nada dis­so me pare­ce poder ser supe­ra­do nos dias, sema­nas e meses que se segui­rão. Que os mora­do­res do Flamengo ou de Botafogo não pos­sam usar a praia que banha suas arei­as, que a bucó­li­ca Paquetá tenha se tor­na­do uma extra­va­gân­cia de jovens alter­na­ti­vos, que bair­ros como a Ilha do Governador ou Ramos tenham per­di­do suas prai­as para o esgo­to, e que cida­des como Niterói, Araruama e São Pedro da Aldeia este­jam ten­tan­do dri­blar a polui­ção de suas prai­as e lago­as ain­da é par­te de uma tra­gé­dia urba­na escon­di­da sob as cor­ti­nas da nos­sa tra­gé­dia, invi­sí­vel aos visi­tan­tes e igno­ra­da por gover­nan­tes.

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