Não corrijo, se arranje”

Colunistas

24.06.15

Nunca havia para­do pra pen­sar na influên­cia que Mário de Andrade teve sobre mim, até que uma equi­pe de TV me pediu um depoi­men­to por oca­sião da home­na­gem pres­ta­da pela FLIP ao autor de Macunaíma. Mário de Andrade me veio pelo cine­ma, não pela lite­ra­tu­ra. Primeiro, como uma espé­cie de mito, quan­do na minha infân­cia os adul­tos não para­vam de falar de um fil­me (Macunaíma) que eles não enten­di­am e que eu, por cau­sa da ida­de, não podia ver. E depois, quan­do che­guei final­men­te à ida­de de ver o que bem enten­des­se, por um fil­me dia­me­tral­men­te opos­to a Macunaíma (na con­cep­ção e na for­ma), sobre a des­co­ber­ta do sexo, e que coin­ci­diu com a minha pró­pria des­co­ber­ta do sexo.

Cena de Lição de amor, de Eduardo Escorel

Assisti a Lição de Amor, de Eduardo Escorel, base­a­do no roman­ce Amar, Verbo Intransitivo, quan­do eu tinha 15 anos. Ao con­trá­rio da car­na­va­li­za­ção geni­al que Joaquim Pedro de Andrade fize­ra de Macunaíma (que eu só fui ver anos mais tar­de), Lição de Amor era um fil­me con­ti­do, cir­cuns­pec­to e enges­sa­do, que tra­ta­va da edu­ca­ção sexu­al de um filho da arcai­ca bur­gue­sia pau­lis­ta nas mãos de uma pre­cep­to­ra ale­mã. Era o opos­to da ima­gem do cine­ma bra­si­lei­ro pro­mo­vi­da pelo Cinema Novo. Escorel tinha toma­do a deci­são teme­rá­ria de repro­du­zir os diá­lo­gos do livro ao pé da letra, o que não só que­bra­va o rea­lis­mo da inter­pre­ta­ção, mas a leva­va aos limi­tes do canhes­tro. Eu ado­rei aqui­lo. Parecia cine­ma novo ale­mão (do qual eu era fã) fei­to no Brasil.

Nesse meio-tem­po (e antes de ver o fil­me de Joaquim Pedro), li Macunaíma. E foi a par­tir daí que Mário de Andrade se tor­nou uma espé­cie de par­cei­ro invo­lun­tá­rio con­tra a obses­são por uma iden­ti­da­de naci­o­nal que infor­ma­va tudo o que se que­ria fazer res­pei­tar na cul­tu­ra bra­si­lei­ra da minha juven­tu­de. Todo mun­do evo­ca­va e eco­a­va Oswald de Andrade como o gênio da raça. E eu batia pal­mas, encan­ta­do com a geni­a­li­da­de publi­ci­tá­ria de fra­ses de efei­to como “só a antro­po­fa­gia nos une”. Até come­çar a des­con­fi­ar daqui­lo tudo, daque­la ale­gria, e de que tal­vez a antro­po­fa­gia não me unis­se a nin­guém.

Ainda que se leia o “Manifesto Antropófago” como chis­te ou iro­nia, ele con­ti­nua dan­do as bases para um mito posi­ti­vo de naci­o­na­li­da­de. E, de fato, a ambi­gui­da­de e a abran­gên­cia do con­cei­to de antro­po­fa­gia (onde cabe tudo, uma vez que o prin­cí­pio é devo­rar e deglu­tir o outro, as cul­tu­ras estran­gei­ras) per­mi­ti­ram que se pas­sas­se a repe­tir que somos todos antro­pó­fa­gos como um refrão da natu­re­za. E que se ergues­se a par­tir daí uma iden­ti­da­de naci­o­nal mais sofis­ti­ca­da, mais moder­na, mais humo­ra­da e mais radi­cal do que a frá­gil ide­a­li­za­ção român­ti­ca do índio como mito de ori­gem, mas que nem por isso era menos ques­ti­o­ná­vel. Embora reci­cla­da pela inte­li­gên­cia moder­nis­ta, a antro­po­fa­gia repro­duz o mito da iden­ti­da­de naci­o­nal. Parece de brin­ca­dei­ra, mas é a sério. Escarnece da iden­ti­da­de român­ti­ca, ape­nas para encon­trar outra menos vul­ne­rá­vel ao con­fron­to com a rea­li­da­de.

Em con­tra­par­ti­da, há um aspec­to bem mais pro­ble­má­ti­co e trá­gi­co na ideia de “herói sem nenhum cará­ter”, que defi­ne Macunaíma. Não é pos­sí­vel cons­truir a iden­ti­da­de de um país sobre um mito nega­ti­vo. A antro­po­fa­gia é posi­ti­va, ela nos trans­for­ma a todos em devo­ra­do­res do que nos é impos­to de fora, pelo estran­gei­ro. No final das con­tas, é um mito de resis­tên­cia. E é mui­to dife­ren­te da fal­ta repre­sen­ta­da por um herói sem nenhum cará­ter. Não duvi­do de que a homos­se­xu­a­li­da­de de Mário de Andrade o tenha pre­dis­pos­to a des­con­fi­ar das iden­ti­da­des fáceis. Por mais que esti­ves­se à pro­cu­ra de uma iden­ti­da­de naci­o­nal (e que, ao con­trá­rio de Oswald, pre­ci­sas­se fazer via­gens, ir a cam­po, recor­rer à etno­gra­fia na sua bus­ca deses­pe­ra­da), era como se a bus­ca já denun­ci­as­se a sua impos­si­bi­li­da­de.

Quando lê Macunaíma, Manuel Bandeira repro­va as inco­e­rên­ci­as do per­so­na­gem: “Macunaíma é um herói do fol­clo­re indí­ge­na do Amazonas. (…) Macunaíma, com a vai­da­de de escre­ver com sabor clás­si­co, é um dis­pa­ra­te, uma que­bra vio­len­ta da uni­da­de da per­so­na­gem”. Mário de Andrade retru­ca: “É jus­to nis­so que está a lógi­ca de Macunaíma: em não ter lógi­ca. Não ima­gi­ne que estou sofis­man­do, não. É fácil de pro­var que esta­be­le­ci bem den­tro de todo o livro que Macunaíma é uma con­tra­di­ção de si mes­mo. O cará­ter que demons­tra num capí­tu­lo, ele des­faz nou­tro. (…) Não cor­ri­jo, se arran­je”.

Ao con­trá­rio do amál­ga­ma ide­a­lis­ta da antro­po­fa­gia, Mário de Andrade vai bus­car o mito amazô­ni­co para tor­ná-lo dis­pa­ra­te. Em vez de recri­ar o mito da iden­ti­da­de naci­o­nal, Macunaíma o tor­na inco­e­ren­te. Em Amar, Verbo Intransitivo, quem come o bra­si­lei­ri­nho é a ale­mã. Ela o come e o dei­xa cho­ran­do de amor, para que um dia ele se case com uma moci­nha de sua pró­pria clas­se, her­de as ter­ras e a indús­tria do pai e con­ti­nue fazen­do do Brasil o que o Brasil de fato é. 

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