Não pare na pista, hagiografia ao quadrado

No cinema

15.08.14

As cine­bi­o­gra­fi­as fic­ci­o­nais de figu­ras famo­sas e con­tro­ver­sas da nos­sa cul­tu­ra já for­mam um pro­lí­fi­co filão: Cazuza, Luiz Gonzaga, Chico Xavier, Renato Russo e, ago­ra, Paulo Coelho. A dife­ren­ça, aqui, é que o bio­gra­fa­do está vivo, o que tal­vez tenha con­sequên­cia para o que se lerá a seguir.

Se o mai­or peri­go dos fil­mes do gêne­ro é cair na hagi­o­gra­fia, Não pare na pis­ta poten­ci­a­li­za o ris­co, tal­vez deli­be­ra­da­men­te: é uma hagi­o­gra­fia ao qua­dra­do, pois se cons­trói como a his­tó­ria de uma ilu­mi­na­ção, de uma ele­va­ção espi­ri­tu­al. Do mago ao san­to é ape­nas um pas­so.

Como se sabe, Paulo Coelho teve uma tra­je­tó­ria rica e aci­den­ta­da, e tudo isso, bem ou mal, está no fil­me: ado­les­cên­cia repri­mi­da e revol­ta­da, ten­ta­ti­va de sui­cí­dio, inter­na­ção em sana­tó­rio, orgia de sexo, dro­gas e rock’n’roll, pri­são pela dita­du­ra, par­ce­ria com Raul Seixas, ini­ci­a­ção numa sei­ta satâ­ni­ca, o tra­ba­lho de exe­cu­ti­vo numa gra­va­do­ra, o êxi­to inter­na­ci­o­nal como autor de best-sel­lers mís­ti­cos.

Tudo esta­va escri­to?

Todo esse mag­ma de fatos e face­tas pode­ria ser orga­ni­za­do em inú­me­ras nar­ra­ti­vas fíl­mi­cas dis­tin­tas. Apesar de sua estru­tu­ra des­con­tí­nua, alter­nan­do três perío­dos da vida do bio­gra­fa­do (ado­les­cên­cia, ida­de adul­ta, atu­a­li­da­de), o fil­me não escon­de sua opção pela tele­o­lo­gia, isto é: des­de a fra­se rei­te­ra­da obs­ti­na­da­men­te pelo Paulo Coelho ado­les­cen­te (Ravel Andrade), “Eu que­ro ser escri­tor”, tudo se suce­de como pas­sos neces­sá­ri­os para che­gar à con­sa­gra­ção final. Tudo esta­va escri­to. Maktub.

Do pon­to de vis­ta da cons­tru­ção audi­o­vi­su­al e da mise-en-scè­ne, é como se os rea­li­za­do­res tives­sem assu­mi­do na pró­pria for­ma os luga­res-comuns mís­ti­cos do escri­tor: mui­ta con­tra­luz, câme­ra len­ta, pre­do­mi­nân­cia de clo­ses e por­me­no­res, ruí­dos exa­cer­ba­dos de modo antir­re­a­lis­ta, remis­são à ico­no­gra­fia reli­gi­o­sa (não por aca­so o Paulo Coelho adul­to, encar­na­do por Julio Andrade, lem­bra o Cristo em vári­os momen­tos), a voz toni­tru­an­te do “mes­tre” Jay (Nancho Novo). Ao que pare­ce, ao acei­tar o convite/encomenda para diri­gir o fil­me, o jovem e talen­to­so Daniel Augusto, autor do exce­len­te docu­men­tá­rio Fordlândia e da fun­da­men­tal série tele­vi­si­va Mapas urba­nos, resol­veu com­prar o paco­te todo, isto é, a óti­ca ado­ta­da pela rotei­ris­ta e copro­du­to­ra Carolina Kotscho.

Malandragem omi­ti­da

Talvez por con­ta dis­so, algu­mas coi­sas rele­van­tes fica­ram de fora, ou são tra­ta­das de modo mui­to super­fi­ci­al no fil­me. Por exem­plo: omi­te-se o fato de que foi Paulo Coelho quem intro­du­ziu Raul Seixas às dro­gas pesa­das, coi­sa que o pró­prio escri­tor afir­ma no docu­men­tá­rio Raul – O iní­cio, o fim e o meio, de Walter Carvalho. Aliás, no depoi­men­to de Paulo Coelho no docu­men­tá­rio, impe­ca­vel­men­te ves­ti­do em sua man­são suí­ça, fica paten­te uma carac­te­rís­ti­ca do per­so­na­gem que está ausen­te de Não pare na pis­ta: seu humor autoirô­ni­co, seu assu­mi­do grão de malan­dra­gem, que é um dos ele­men­tos de seu char­me pes­so­al.

Uma das pas­sa­gens mais curi­o­sas da vida de Coelho e Raul – seu envol­vi­men­to com a orga­ni­za­ção ocul­tis­ta Ordo Templi Orientis (O.T.O.) – se reduz no fil­me a uma cerimô­nia de ini­ci­a­ção fil­ma­da como um cli­chê de aven­tu­ra juve­nil.

Liquidificador de refe­rên­ci­as

Há, por outro lado, bons acha­dos, que pode­ri­am ter sido mais desen­vol­vi­dos e quem sabe até ser­vir de eixo a uma lei­tu­ra do per­so­na­gem. Refiro-me espe­ci­al­men­te à cena em que, ao assis­tir a um epi­só­dio de Star Trek na TV, Paulo Coelho tem um esta­lo ao ouvir uma fala de Spock, uma des­sas fra­ses-fei­tas que pas­sam por filo­so­fia pro­fun­da.

Aí é que está. Se Paulo Coelho tem uma carac­te­rís­ti­ca cen­tral, que uni­fi­ca suas mui­tas vidas, a meu ver é esta: a de ser­vir como um liqui­di­fi­ca­dor de refe­rên­ci­as, de Shakespeare aos qua­dri­nhos, das reli­giões anti­gas à cul­tu­ra pop. Ele sou­be como pou­cos diluir tudo isso em nar­ra­ti­vas e men­sa­gens aces­sí­veis e (para mui­tos) agra­dá­veis, numa espé­cie de auto­a­ju­da espi­ri­tu­al prêt-à-por­ter que o trans­for­mou numa das figu­ras mais conhe­ci­das e bem-suce­di­das da lite­ra­tu­ra mun­di­al.

O ator Julio Andrade usando maquiagem pesada no papel de Paulo Coelho nos dias de hoje

Uma últi­ma pala­vra sobre os ato­res que encar­nam o bio­gra­fa­do: o nova­to Ravel, irmão de Julio Andrade, sus­ten­ta mui­to bem o pro­ble­má­ti­co Paulo Coelho ado­les­cen­te, às tur­ras com o pai (Enrique Diaz, sem­pre óti­mo). Julio Andrade, que foi o Gonzaguinha de Gonzaga – De pai para filho, tam­bém mol­da com a com­pe­tên­cia habi­tu­al o per­so­na­gem adul­to, antes da explo­são da fama. Mas, ao repre­sen­tar, sob uma más­ca­ra de maqui­a­gem, o Paulo Coelho atu­al, sexa­ge­ná­rio, ele pare­ce um tan­to mumi­fi­ca­do, o que acen­tua a arti­fi­ci­a­li­da­de da redenção/consagração final.

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