Nebraska, onde a América não acaba

No cinema

21.02.14

Se as rela­ções fami­li­a­res esgar­ça­das e os per­so­na­gens meio per­di­dos são o tema pre­fe­ri­do do dire­tor e rotei­ris­ta Alexander Payne (Ruth em ques­tão, As con­fis­sões de Schmidt, Sideways), e se o road movie é seu gêne­ro por exce­lên­cia, em Nebraska ele está em seu ele­men­to. É, pro­va­vel­men­te, seu melhor fil­me.

http://www.youtube.com/watch?v=a1aC4zpGZt4

O pon­to de par­ti­da des­sa jor­na­da geo­grá­fi­co-exis­ten­ci­al é ao mes­mo tem­po cômi­co e como­ven­te: em Billings, Montana, Woody Grant (Bruce Dern), um tei­mo­so e alcoó­la­tra octo­ge­ná­rio à bei­ra do Alzheimer rece­be um des­ses folhe­tos de pro­pa­gan­da que dizem “Você ganhou US$ 1 milhão”. Só que ele acre­di­ta — e resol­ve bus­car pes­so­al­men­te seu prê­mio em Lincoln, Nebraska, a 1.100 km de dis­tân­cia.

Depois de ten­tar con­ven­cê-lo do enga­no e demo­vê-lo do insa­no pro­je­to, o filho mais novo de Woody, David (Will Forte), aca­ba via­jan­do jun­to com o pai, como modo de con­vi­ve­rem um pou­co antes de o velho per­der total­men­te o juí­zo.

Sátira e melan­co­lia

O que vem a seguir é uma bela via­gem, em que Payne equi­li­bra com notá­vel segu­ran­ça a sáti­ra da estu­pi­dez da América pro­fun­da (à manei­ra dos irmãos Coen) e uma melan­có­li­ca refle­xão sobre a velhi­ce, a soli­dão e a pas­sa­gem do tem­po. No coun­try for old men seria um bom títu­lo, se já não tives­se sido usa­do.

Não con­vém ante­ci­par aqui os inci­den­tes e aci­den­tes des­se per­cur­so, mas ape­nas indi­car que, a par da con­tra­di­tó­ria rela­ção pai-filho, Payne retra­ta em rápi­das e sutis pin­ce­la­das a estag­na­ção da eco­no­mia — e da men­ta­li­da­de — dos EUA, em que os cida­dãos de vári­as gera­ções pare­cem estar sem­pre sen­ta­dos dian­te da tele­vi­são ou de uma gar­ra­fa de cer­ve­ja (ou de ambos) enquan­to falam sobre mode­los de auto­mó­vel e sua potên­cia pas­sa­da ou pre­sen­te.

Mas não se tra­ta de uma cari­ca­tu­ra cha­pa­da: cada per­so­na­gem, dos pro­ta­go­nis­tas ao mais efê­me­ro coad­ju­van­te, tem rele­vo, som­bras e des­vãos insus­pei­ta­dos.

Horizonte sem fim

Tudo se har­mo­ni­za à per­fei­ção nes­se dra­ma tem­pe­ra­do com humor, mas duas coi­sas se des­ta­cam. Uma delas, que cha­ma a aten­ção des­de o pri­mei­ro foto­gra­ma, é a mati­za­da foto­gra­fia em pre­to e bran­co e de foco pro­fun­do, em Panavision, num for­ma­to mais hori­zon­tal que o de cos­tu­me, bem apro­pri­a­do ao fil­me de estra­da e con­di­zen­te com a melan­co­lia pre­do­mi­nan­te. As cida­de­zi­nhas do inte­ri­or, com suas cons­tru­ções de no máxi­mo dois pavi­men­tos e suas lar­gas ave­ni­das empo­ei­ra­das e qua­se deser­tas, pra­ti­ca­men­te pedem essa hori­zon­ta­li­da­de da ima­gem, lem­bran­do a atmos­fe­ra de deca­dên­cia da Anarene de A últi­ma ses­são de cine­ma (Peter Bogdanovich, 1971).

Outra vir­tu­de notá­vel de Nebraska é o elen­co, em espe­ci­al os ato­res vete­ra­nos: Bruce Dern, excep­ci­o­nal na rabu­gi­ce de seu per­so­na­gem; June Squib, atriz até hoje pou­co valo­ri­za­da que rou­ba todas as cenas em que apa­re­ce, no papel de mulher do pro­ta­go­nis­ta; e Stacy Keach, pro­ta­go­nis­ta da obra-pri­ma Cidade das ilu­sões (John Huston, 1972), aqui defen­den­do com rique­za de nuan­ces o papel do ex-sócio trai­ço­ei­ro de Woody Grant. Só por eles já vale­ria essa via­gem a Nebraska.

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