Negacionistas

Colunistas

02.03.16

No final dos anos 80, quan­do eu tinha aca­ba­do de ser con­tra­ta­do como repór­ter pela Folha de S. Paulo, a edi­to­ra de ciên­cia deci­diu publi­car um gran­de arti­go com o viro­lo­gis­ta Peter Duesberg, que defen­dia que a cau­sa da aids não era o HIV e sim o com­por­ta­men­to dos doen­tes. Um ami­go fran­cês, de pas­sa­gem pelo Brasil, ficou de quei­xo caí­do que um jor­nal daque­le por­te publi­cas­se um arti­go daque­les, com tama­nho des­ta­que, o que, no melhor dos casos (e com bas­tan­te bene­vo­lên­cia), podia ser lido como uma pro­vo­ca­ção infan­til e irres­pon­sá­vel. Não era pre­ci­so ser nenhum cien­tis­ta para enten­der o mora­lis­mo e a pre­ca­ri­e­da­de cien­tí­fi­ca da lógi­ca de Duesberg. Imagine se você fos­se por­ta­dor do HIV e depois de ler o arti­go pas­sas­se a acre­di­tar, ali­vi­a­do, que bas­ta­va se com­por­tar bem (seja lá o que isso quei­ra dizer do pon­to de vis­ta cien­tí­fi­co) para não desen­vol­ver a doen­ça.

Penguins e meio a geleiras derretidas (AP/N. Pisarenko)

Lembrei do caso por con­ta de uma ami­ga que, ape­sar de mui­to inte­li­gen­te, acre­di­ta em qua­se tudo o que lê na inter­net, aliás como a mai­o­ria das pes­so­as. Como não uso Facebook nem Twitter, só pos­so supor, pelo que ela de vez em quan­do não resis­te em me repas­sar, as bar­ba­ri­da­des das quais tenho sido pou­pa­do. A últi­ma que rece­bi da minha ami­ga foi a de uma inter­nau­ta que, apoi­a­da em um supos­to rela­tó­rio médi­co, garan­tia não só que o sur­to de micro­ce­fa­lia nada tinha a ver com o vírus zika (a rela­ção entre uma coi­sa e outra, de fato, ain­da não está cien­ti­fi­ca­men­te pro­va­da, embo­ra seja bas­tan­te pro­vá­vel), mas que era antes con­sequên­cia de mais uma polí­ti­ca desas­tra­da do gover­no, uma vaci­na bicha­da dis­tri­buí­da à popu­la­ção de grá­vi­das etc.

Meses antes, alguém me repas­sou um tex­to pos­ta­do no Facebook por uma mulher indig­na­da depois de o The New York Times ter publi­ca­do, em edi­to­ri­al, que era melhor para o Brasil ten­tar ven­cer a cri­se com Dilma do que se ato­lar no loda­çal de um pro­ces­so de impe­a­ch­ment que se esten­de­ria pelo res­to de seu man­da­to. “Gente!”, escre­via a inter­nau­ta, “Vocês não estão ven­do que a maté­ria não é assi­na­da? É maté­ria paga com o nos­so dinhei­ro!”

Há uma linha mui­to tênue entre a má fé e a bur­ri­ce no nega­ci­o­nis­mo. Mas há casos em que as con­sequên­ci­as são irre­pa­rá­veis, como na pro­pa­ga­ção irres­pon­sá­vel de teses como a de Duesberg, que aca­bou sen­do inves­ti­ga­do por má con­du­ta e con­fli­to de inte­res­se. Quem paga pela pro­vo­ca­ção infan­til (ou inte­res­sa­da) de pôr fogo na casa? Se o argu­men­to dos céti­cos nega­ci­o­nis­tas é se suble­var con­tra a hege­mo­nia da men­ti­ra, por que aca­bam se calan­do e desa­pa­re­cen­do quan­do o con­sen­so se tor­na mais irre­fu­tá­vel? Não seria o momen­to de gri­tar ain­da mais alto con­tra a ceguei­ra gene­ra­li­za­da? Não é essa a cora­gem pró­pria da dis­si­dên­cia? Não luta­vam pela ver­da­de? Ou será que enten­di erra­do?

O nega­ci­o­nis­ta cos­tu­ma negar os fatos enquan­to ain­da pode con­tar com a igno­rân­cia a seu favor. Quando nega a exis­tên­cia das câma­ras de gás nos cam­pos de con­cen­tra­ção, por exem­plo, é por­que con­ta com a sobre­vi­vên­cia do antis­se­mi­tis­mo entre seus lei­to­res e ouvin­tes. Ao con­trá­rio do lou­co, é um cal­cu­lis­ta. E quan­do não é ape­nas bur­ro, é basi­ca­men­te um covar­de que só age enquan­to vê algu­ma chan­ce de mani­pu­lar a opi­nião públi­ca e de tirar algum pro­vei­to dis­so.

Quando eu era cor­res­pon­den­te em Nova York, às vés­pe­ras da guer­ra capi­ta­ne­a­da pelos Estados Unidos con­tra o cigar­ro, come­cei a ser con­vi­da­do de modo insis­ten­te por gran­des fabri­can­tes da indús­tria do taba­co, pri­mei­ro para jan­tar nos melho­res res­tau­ran­tes da cida­de, depois para visi­tar, em pri­mei­ra mão, expo­si­ções e outras ati­vi­da­des cul­tu­rais patro­ci­na­das por eles e por fim para assis­tir a pales­tras de médi­cos e bió­lo­gos que pro­va­vam por A mais B que fumar não fazia mal à saú­de. Onde foram parar esses cien­tis­tas?

E onde foram parar os céti­cos do aque­ci­men­to glo­bal? Os que garan­ti­am até outro dia que a asso­ci­a­ção entre quei­ma de com­bus­tí­vel fós­sil e efei­to estu­fa era uma frau­de? Calaram-se? Cansaram de gri­tar tan­ta ver­da­de? Gente! Vamos unir essa for­ça! Não esmo­re­çam, con­ti­nu­em a dar a cara a tapa! É essa a hora! Ou não é? Onde estão os que dizi­am que o HIV era ape­nas um deta­lhe da aids? Sumiram? Mas logo ago­ra, depois de o coque­tel de anti­vi­rais ter sal­va­do tan­tas vidas? Será que o pre­ço da má fé e da bur­ri­ce é só o esque­ci­men­to?

Pois eu acho que não se deve esque­cer essa gen­te nun­ca. Quem acha (ou achou) que o HIV não tem nada que ver com a aids e quem acha (ou achou) que a quei­ma de com­bus­tí­vel fós­sil não tem nada que ver com o aque­ci­men­to glo­bal devia con­ti­nu­ar achan­do e dizen­do o que acha em alto e bom som, até o fim, nem que fos­se para pro­var sua cora­gem e que acre­di­ta mes­mo no que diz. É fácil gri­tar incon­sequên­ci­as por mero opor­tu­nis­mo, quan­do ain­da se pode con­tar com o res­pal­do da igno­rân­cia ambi­en­te, e depois sair de fini­nho. Difícil é inves­tir con­tra os fatos com a for­ça dos lou­cos. Para quem cul­ti­va o espí­ri­to desin­te­res­sa­do da con­tra­di­ção, o opor­tu­nis­mo dos nega­ci­o­nis­tas che­ga a ser avil­tan­te. Afinal, se o dis­sen­so era mes­mo tão ínte­gro, por que abrir mão dele tão rápi­do? Só para pas­sar a gri­tar a pró­xi­ma bar­ba­ri­da­de na lis­ta? 

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