Ninfomaníaca contra a normatização do desejo

No cinema

14.03.14

Com a exi­bi­ção do “segun­do volu­me” de Ninfomaníaca, é pos­sí­vel ter uma ideia mais cla­ra da ambi­ção de Lars von Trier. E ela não é peque­na. Visto em seu con­jun­to, em suas qua­tro horas de dura­ção, o fil­me, mais que um inven­tá­rio de per­ver­sões sexu­ais, pode ser vis­to como uma tra­gi­co­mé­dia feroz sobre (ou con­tra) a nor­ma­ti­za­ção do dese­jo em nos­sa épo­ca.

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A pro­ta­go­nis­ta Joe (Stacy Martin/ Charlotte Gainsbourg) é uma aber­ra­ção por­que não se enqua­dra nas nor­mas. Ao não saber onde colo­car o dese­jo, ela o dis­se­mi­na por toda par­te, como uma cri­an­ça às vol­tas com sua sexu­a­li­da­de poli­mor­fa.

A segun­da par­te dá con­ti­nui­da­de ao mes­mo esque­ma nar­ra­ti­vo da pri­mei­ra: Joe, já madu­ra, cas­ti­ga­da pela vida, reme­mo­ra sua aci­den­ta­da tra­je­tó­ria para o soli­tá­rio e cas­to homem que a reco­lheu na rua, Seligman (Stellan Skarsgard). Ao jor­ro de expe­ri­ên­ci­as dela, mos­tra­das em flash­backs, ele ten­ta con­tra­por ensai­os de orde­na­men­to e cons­tru­ção de sen­ti­do, con­for­me escre­vi aqui a pro­pó­si­to do “pri­mei­ro volu­me”.

Acúmulo e depu­ra­ção

Nesta segun­da meta­de, além de apre­sen­tar momen­tos impor­tan­tes do per­cur­so de Joe (a mater­ni­da­de, o expe­ri­men­to maso­quis­ta, a tor­tu­ra), von Trier pas­sa em revis­ta — ou melhor, arra­sa — pra­gas de nos­sa épo­ca como o poli­ti­ca­men­te cor­re­to, as tera­pi­as para curar o “vício do sexo”, a para­noia com a pedo­fi­lia.

A par des­se acú­mu­lo (de his­tó­ri­as, de assun­tos, de situ­a­ções), há para­do­xal­men­te uma depu­ra­ção: fica mais cla­ro do que nun­ca que Joe e Seligman são duas faces da mes­ma moe­da — o exces­so e o come­di­men­to, pul­são e a subli­ma­ção -, ao mes­mo tem­po opos­tos e com­ple­men­ta­res em sua soli­dão irre­du­tí­vel. Dois enjei­ta­dos que não encon­tram lugar na soci­e­da­de “nor­mal”. (Millôr Fernandes dis­se cer­ta vez que, de todas as per­ver­sões sexu­ais, a mais esqui­si­ta é a abs­ti­nên­cia. Seligman tal­vez seja a pro­va dis­so.)

Do pon­to de vis­ta da lin­gua­gem cine­ma­to­grá­fi­ca, o que sal­ta aos olhos é uma espé­cie de hibri­dis­mo sis­te­má­ti­co, um jogo de con­tras­tes per­se­gui­do cons­ci­en­te­men­te pelo dire­tor, como se ele qui­ses­se a todo momen­to des­mon­tar o que aca­bou de cons­truir. Por exem­plo: o tom de pará­bo­la, que des­pre­za a veros­si­mi­lhan­ça e o natu­ra­lis­mo das situ­a­ções, pare­ce estar em con­tra­di­ção com a câme­ra ins­tá­vel, de docu­men­tá­rio ou home movie, que muti­la os seres e obje­tos e per­de a todo momen­to o foco.

Alusões ao cine­ma

Outra anti­no­mia fre­quen­te é a que se obser­va entre a gra­vi­da­de e o humor, ou antes entre a inten­si­da­de dra­má­ti­ca e o dis­tan­ci­a­men­to irô­ni­co. Isso se evi­den­cia, nes­ta segun­da par­te, nas inú­me­ras alu­sões ao pró­prio cine­ma.

Por exem­plo: quan­do diz que seu conhe­ci­men­to do sexo se deu uni­ca­men­te pela lite­ra­tu­ra, Seligman cita três livros — Decameron, Os can­tos de Canterbury e As mil e uma noi­tes — que são jus­ta­men­te os que com­põem a céle­bre “tri­lo­gia da vida” de Pasolini, cujo ero­tis­mo jubi­lo­so é o con­trá­rio do cal­vá­rio de Joe.

Em outra pas­sa­gem, von Trier che­ga ao requin­te ou des­fa­ça­tez de glo­sar um fil­me dele pró­prio, O anti­cris­to, ao repe­tir a mes­ma cena do meni­no que se levan­ta do ber­ço à noi­te para ver a neve, tre­pa na mure­ta do ter­ra­ço e… O des­fe­cho dife­ren­te é uma der­ri­só­ria pis­ca­de­la ao espec­ta­dor.

E quan­do a pro­ta­go­nis­ta, na reu­nião das “vici­a­das em sexo”, se apre­sen­ta dizen­do “My name is Joe”, é impos­sí­vel não pen­sar no fil­me homô­ni­mo de Ken Loach, sobre um alcoó­la­tra em recu­pe­ra­ção.

Em meio a essa teia de refe­rên­ci­as (que inclu­em a músi­ca e as artes plás­ti­cas), von Trier encon­tra espa­ço para pro­du­zir momen­tos de poten­te poe­sia, dos quais o mais sig­ni­fi­ca­ti­vo tal­vez seja a cena em que Joe encon­tra a “sua árvo­re”, uma árvo­re “bela, áspe­ra e intra­tá­vel” como o cac­to do poe­ma de Manuel Bandeira. Ou como a sexu­a­li­da­de de Joe.

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