No brega, o Brasil profundo

No cinema

03.08.12

O docu­men­tá­rio Vou rifar meu cora­ção, de Ana Rieper, abre com a câme­ra per­cor­ren­do uma estra­da do nor­des­te bra­si­lei­ro, ao cre­pús­cu­lo. Na tri­lha, a voz de Nelson Ned pare­ce se diri­gir dire­ta­men­te à pla­teia quan­do can­ta: “Quem é que não teve na vida um pro­ble­ma de amor, uma desi­lu­são?” A câme­ra se detém então num pos­to de gaso­li­na, onde um fren­tis­ta con­ta seu dra­ma amo­ro­so: ao che­gar em casa uma noi­te, não encon­trou a mulher ama­da, que “foi embo­ra com outro rapaz”.

É um come­ço mag­ní­fi­co de um fil­me idem. Daí para a fren­te, o docu­men­tá­rio desen­vol­ve­rá gene­ro­sa­men­te as linhas con­ti­das em potên­cia nes­sa aber­tu­ra: imer­são na pai­sa­gem físi­ca e huma­na; res­pei­to e cari­nho pelos per­so­na­gens e curi­o­si­da­de por sua his­tó­ria; ten­ta­ti­va de encon­trar o uni­ver­sal na expe­ri­ên­cia par­ti­cu­lar. E o veí­cu­lo dis­so tudo é, evi­den­te­men­te, a músi­ca. A músi­ca popu­lar român­ti­ca, geral­men­te cha­ma­da de bre­ga — e não sem razão.

Brega, no nor­des­te bra­si­lei­ro, é o bor­del, o putei­ro, a “zona”. No fil­me de Ana Rieper, o ambi­en­te é mos­tra­do como ori­gem e local de difu­são de gran­de par­te des­se tipo de músi­ca, e tam­bém como um de seus temas recor­ren­tes, sin­te­ti­za­do no clás­si­co “Vou Tirar Você des­te Lugar”, de Odair José. O pró­prio can­tor e com­po­si­tor apa­re­ce con­tan­do a difi­cul­da­de que teve para con­se­guir gra­var a can­ção. “Muitos homens bem casa­dos fre­quen­tam a zona, mas no domin­go vão à mis­sa, man­têm uma facha­da res­pei­tá­vel, e não admi­tem que um cara diga numa músi­ca que casou com uma puta.”

O bor­del, o bar de bei­ra de estra­da, o salão de bar­bei­ro, o cir­co, o kara­o­kê, mas tam­bém as casas de famí­lia e os locais de tra­ba­lho — esses são os cená­ri­os onde essa nar­ra­ti­va múl­ti­pla se desen­ro­la.

Dor de cor­no

O assun­to cen­tral, como não pode­ria dei­xar de ser, é a “dor de cor­no”, com vári­os per­so­na­gens nar­ran­do suas his­tó­ri­as de trai­ção e aban­do­no. A músi­ca não se limi­ta a “ilus­trar” esses peque­nos dra­mas e comé­di­as, mas aju­da a con­tá-los. Como dizem vári­os entre­vis­ta­dos ao lon­go do docu­men­tá­rio: “Essa músi­ca é a his­tó­ria da minha vida”.

A iden­ti­da­de entre o que é can­ta­do e o que é vivi­do aca­ba sen­do o gran­de trun­fo do fil­me, aqui­lo que o move do iní­cio ao fim. E isso vale tan­to para os entre­vis­ta­dos anô­ni­mos como para os astros des­se tipo de músi­ca: Amado Batista, Wando, Lindomar Castilho, Agnaldo Timóteo, além dos cita­dos Nelson Ned e Odair José. Todos — até mes­mo o ego­cên­tri­co e res­sen­ti­do Timóteo (“Sou mui­to mai­or do que Roberto Carlos”) — dão depoi­men­tos tocan­tes e escla­re­ce­do­res, reve­lan­do o quan­to estão pró­xi­mos do uni­ver­so sen­ti­men­tal de seus ouvin­tes.

Impossível ficar indi­fe­ren­te a uma fala como a de Nelson Ned: “Eu tinha tudo para dar erra­do. Feio, bai­xi­nho e pobre. Mas Deus me levan­tou do pó. Literalmente: do pó da cocaí­na e do pó da ter­ra. Eu sou um mila­gre.”

O jogo entre os depoi­men­tos tem uma argú­cia, diga­mos, sub­ter­râ­nea. Lindomar Castilho fala sobre o “ciú­me exa­cer­ba­do” que leva um homem à lou­cu­ra. O depoi­men­to seguin­te é o de Amado Batista. Este dis­cor­re sobre uma can­ção sua em que um homem expli­ca, em pri­mei­ra pes­soa, por que matou a mulher. A can­ção ganha mais for­ça e sen­ti­do quan­do sabe­mos que Lindomar pas­sou sete anos na cadeia depois de matar a tiros a ex-mulher, a can­to­ra Eliane de Gramond.

Sem fol­clo­re ou pater­na­lis­mo

Na con­du­ção e na edi­ção das entre­vis­tas, seja dos anô­ni­mos, seja dos famo­sos, há um res­pei­to igual. A dire­to­ra não fol­clo­ri­za nem pater­na­li­za nin­guém. Simplesmente nos dá a ouvir e ver o que eles têm a dizer.

Outra vir­tu­de rara do fil­me é o equi­lí­brio entre humor e dra­ma, que mui­tas vezes con­vi­vem na mes­ma cena. É o caso, por exem­plo, da his­tó­ria de Osmar Farias, ex-pre­fei­to de Monte Alegre (SE), que vive qua­tro dias da sema­na com uma espo­sa e três dias com outra. Com as duas tem um punha­do de filhos cha­ma­dos Osmarino, Osmarilda e por aí afo­ra. “Quando eu come­cei com isso, uns trin­ta anos atrás, não era comum um homem ter duas mulhe­res. Não é fácil, não. Elas nun­ca estão con­ten­tes. É um infer­no em vida, vis­se?”, diz o homem. A câme­ra se des­lo­ca para o lado e enqua­dra sua espo­sa pri­mei­ra e “ofi­ci­al”, que diz para a dire­to­ra: “Se é ruim pra ele que é homem, ima­gi­na pra mim. Você é mulher, você sabe”. Uma cena sin­ge­la que diz mais que qual­quer dis­cur­so sobre nos­sa arrai­ga­da cul­tu­ra patri­ar­cal.

Vejo que me esten­di, mas acre­di­te: o fil­me mere­ce. E pra­ti­ca­men­te só falei de seu “con­teú­do”, des­cui­dan­do de suas suti­le­zas pro­pri­a­men­te cine­ma­to­grá­fi­cas. Um exem­plo: enquan­to alguém con­ta ou can­ta algum amor que aca­bou, a câme­ra, como quem não quer nada, apro­xi­ma-se de uma árvo­re e per­cor­re um galho em cuja exten­são estão enta­lha­das as pala­vras “Fabrício e Andressa”. Isso não é jor­na­lis­mo, isso não é (só) regis­tro docu­men­tal. Isso é cine­ma.

* Na ima­gem que ilus­tra o post: cena do fil­me Vou rifar o meu cora­ção.

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