No espelho de Angela Davis

Cinema

24.10.14

Às vezes a melhor legen­da sobre o que temos dian­te de nos­sos nari­zes vem lá de trás, de um lugar per­di­do no tem­po. A lição está em Ezra Pound (que resu­miu no moto “make it new” a neces­si­da­de de recu­ar em outras épo­cas e tra­di­ções para melhor pro­je­tar-se para a fren­te), em Paulinho da Viola (“quan­do pen­so no futuro/não esque­ço meu pas­sa­do”) e na obra e na vida de qual­quer um que não tenha com­pra­do a gran­de pata­co­a­da filo­só­fi­ca dos anos 1990, a con­for­tá­vel ideia do fim da his­tó­ria. Francis Fukuyama, o cre­ti­no que a for­mu­lou, des­fru­ta, aliás, de uma mere­ci­da obs­cu­ri­da­de gra­ças à incon­sis­tên­cia opor­tu­nis­ta de sua pró­pria tese.

Assistir a Libertem Angela Davis (em exi­bi­ção no IMS-RJ) no calor da cor­ri­da pre­si­den­ci­al bra­si­lei­ra é, por isso, melhor do que todo o noti­ciá­rio jun­to. O docu­men­tá­rio de Shola Lynch sobre o pro­ces­so movi­do con­tra a ati­vis­ta negra ame­ri­ca­na nos Estados Unidos dos anos 1970 mos­tra abun­dan­te­men­te o que nos fal­ta hoje, no Brasil dos 2000: polí­ti­ca. Não se tra­ta de polí­ti­ca nova ou velha, mas de polí­ti­ca em seu sen­ti­do reno­va­dor, incô­mo­do e polê­mi­co. Para usar a for­mu­la­ção lapi­dar de Jacques Rancière, a polí­ti­ca só acon­te­ce quan­do há desen­ten­di­men­to, quan­do aque­le que não pode falar em deter­mi­na­do momen­to ou lugar toma a pala­vra para dizer o que não se quer ou espe­ra que diga.

Nos EUA dos anos 1970, Angela Davis era o desen­ten­di­men­to em pes­soa, lite­ral­men­te. Negra, jovem, bela, olhar alti­vo e sere­no, havia estu­da­do filo­so­fia na Alemanha e ini­ci­a­va uma car­rei­ra de pro­fes­so­ra na Universidade da Califórnia, esta­do então gover­na­do por um cer­to Ronald Reagan. Feminista radi­cal, era fili­a­da ao Partido Comunista e apoi­a­va osten­si­va­men­te o gru­po arma­do Panteras Negras. Exercendo um direi­to líqui­do e cer­to para os bran­cos (mas não para os negros), com­prou uma arma, já que não eram raras as ame­a­ças de mor­te que rece­bia, eco­an­do os tiros em Martin Luther King e Malcolm X.

Essa arma foi parar na mão de um jovem mili­tan­te, que a usou para seques­trar um juiz e três jura­das de um tri­bu­nal no con­da­do de Marin. Cercado pela poli­cia, Jonathan Jackson, este o seu nome, ter­mi­nou matan­do o juiz. Era o que Reagan e Mr. Richard Nixon, o pre­si­den­te, pre­ci­sa­vam para deter Angela, cuja expul­são da uni­ver­si­da­de era aca­len­ta­da pelo gover­no: se a arma esta­va em seu nome, ela era cul­pa­da. Depois de figu­rar no top ten da lis­ta das pes­so­as pro­cu­ra­das pelo FBI, Angela foi pre­sa e, por qua­se dois anos, sofreu um ardi­lo­so pro­ces­so cujo obje­ti­vo era levá-la à câma­ra de gás. É essa luta, puxa­da por uma cam­pa­nha mun­di­al e encer­ra­da com sua absol­vi­ção por um júri for­ma­do por bran­cos, que o docu­men­tá­rio mos­tra de for­ma emo­ci­o­nan­te.

O cená­rio de radi­ca­li­za­ção viva­men­te expos­to pelo fil­me é, sem dúvi­da, tri­bu­tá­rio da épo­ca. Mas é atem­po­ral (e não nos­tál­gi­co) por mos­trar como a fir­me defe­sa de posi­ções e con­vic­ções, fei­ta de enfren­ta­men­tos e incan­sá­veis dis­cus­sões, é (ou deve­ria ser) uma obri­ga­ção moral de quem faz polí­ti­ca, como can­di­da­to ou elei­tor. Uma obri­ga­ção ain­da mais pre­men­te depois que, com o supos­to fim da pola­ri­za­ção ide­o­ló­gi­ca da cha­ma­da Guerra Fria, todos os dis­cur­sos de mudan­ça tenham sido esva­zi­a­dos de sua con­tun­dên­cia. Nos anos 1980, virou moda dizer que esquer­da e direi­ta não exis­ti­am, que era absur­do acu­sar alguém de, por exem­plo, rea­ci­o­na­ris­mo. A metá­fo­ra espa­ci­al des­te pen­sa­men­to era o Centro, lugar tão real quan­to a Cocanha ou Pasárgada.

Foi esse mun­do, pro­du­to de um acor­do cós­mi­co con­tra o emba­te para valer de idei­as e posi­ções, que se ree­di­tou este ano nas elei­ções bra­si­lei­ras. E o que mais se ouviu nos últi­mos meses foram ape­los a um qui­mé­ri­co “con­sen­so”, a uma “união pelo país”, pelo país “aci­ma de tudo” que dá até arre­pio. Mas o pior mes­mo, o mais dano­so, é que esse con­sen­so vem acom­pa­nha­do da con­de­na­ção vee­men­te das fric­ções. De todo o espec­tro polí­ti­co, sem exce­ção, saí­ram do armá­rio hor­das de ves­tais escan­da­li­za­das com refre­gas de cam­pa­nha, em cho­rorô mago­a­do com o “bai­xo nível” dos can­di­da­tos ou adver­tên­ci­as sotur­nas sobre o “ris­co” de se aumen­tar o voto nulo – que, diga-se logo, é posi­ção polí­ti­ca mais do que legí­ti­ma. A retó­ri­ca de padre­co, desen­xa­bi­da, cri­ou um plan­tel de “razoá­veis”, “impar­ci­ais” e “equi­li­bra­dos”. Um plan­tel que, na prá­ti­ca, ter­mi­nou por des­mo­ra­li­zar a indig­na­ção, tra­ves­ti­da como dis­cur­so gené­ri­co sobre mora­li­da­de públi­ca e o bem comum.

Georges Didi-Huberman, que é filó­so­fo, fran­cês e, como Angela Davis, não vai votar no Brasil, lem­bra o quão difí­cil é tomar posi­ção: “Não há nada de sim­ples em tal ges­to. Tomar posi­ção é se situ­ar pelo menos duas vezes em pelo menos duas fren­tes impli­ca­das em toda posi­ção, já que toda posi­ção é, fatal­men­te, rela­ti­va. Trata-se, por exem­plo, de se con­fron­tar com algu­ma coi­sa; mas, dian­te des­sa coi­sa, deve­mos ain­da levar em con­ta tudo que dei­xa­mos de lado, o fora-de-qua­dro que exis­te por trás de nós, que tal­vez recu­se­mos mas que, em gran­de par­te, con­di­ci­o­na nos­so pró­prio movi­men­to e, por­tan­to, nos­sa posi­ção. Trata-se, da mes­ma for­ma, de se situ­ar no tem­po. Tomar posi­ção é dese­jar, é exi­gir algu­ma coi­sa, é se situ­ar no pre­sen­te e vis­lum­brar um futu­ro”.

Desejar, exi­gir, se situ­ar no pre­sen­te, vis­lum­brar o futu­ro. Foi isso que Angela Davis, os Panteras Negras e sim­pa­ti­zan­tes de todo o mun­do fize­ram à cus­ta de um desen­ten­di­men­to tão pro­fun­do que envol­veu mor­te, pri­são, pro­ces­so, rom­pi­men­tos e dis­cus­são. Mas, em nos­so pecu­li­ar dici­o­ná­rio polí­ti­co, dese­jar, exi­gir e se situ­ar (para vis­lum­brar o futu­ro) vira­ram sinô­ni­mos de acor­dos e con­sen­sos. São ver­bos cuja con­ju­ga­ção supos­ta­men­te exclui as refre­gas, ine­vi­tá­veis quan­do eles são usa­dos de for­ma hones­ta e con­se­quen­te.

Política para valer, que vale a pena, lem­bra a História, não se faz com a tepi­dez dos bons modos. Pois eles sem­pre favo­re­cem aque­les que não que­rem sair do lugar.

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