No lugar do outro

Colunistas

16.03.16

O sacri­fí­cio é uma for­ma extre­ma de repre­sen­ta­ção: alguém mor­re no lugar do outro; alguém assu­me o lugar do outro, para sal­var o outro. Muitas vezes, o sacri­fí­cio toma a for­ma de um ritu­al, o que o apro­xi­ma do tea­tro. É o tema da peça (A)polônia, do polo­nês Kryzstof Warlikowski, que encer­rou a Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, MITsp, no domin­go.

Num peque­no mani­fes­to dis­po­ní­vel no site do gru­po Nowy Teatr, do qual é dire­tor, Warlikowski diz que “os ver­da­dei­ros mes­tres do tea­tro são mais facil­men­te encon­tra­dos lon­ge dos pal­cos”. A fra­se ecoa o dese­jo, no tea­tro con­tem­po­râ­neo, de reen­con­trar seu gra­al: a ver­da­de da for­ça ritu­a­lís­ti­ca da repre­sen­ta­ção. O tea­tro se tor­nou um ritu­al domes­ti­ca­do, uma repre­sen­ta­ção páli­da des­sa potên­cia per­di­da.

(A)polônia é uma com­po­si­ção de frag­men­tos de tra­gé­di­as (de Eurípedes e Ésquilo) e tex­tos con­tem­po­râ­ne­os (de Jonathan Littell, da polo­ne­sa Hanna Krall e do sul-afri­ca­no J.M. Coetzee, que Warlikowski inclui entre os que “des­cre­ve­ram pro­fe­ti­ca­men­te a que­da dos deu­ses euro­peus”). O tom é do mais com­ple­to desen­can­to. E se é que há algu­ma nos­tal­gia, ela tem a ver com a gran­de­za e o heroís­mo per­di­dos num mun­do onde a repre­sen­ta­ção pas­sou a ser sinô­ni­mo de men­ti­ra, dis­si­mu­la­ção e impos­tu­ra (tan­to no tea­tro como na polí­ti­ca).

Na tra­gé­dia de Eurípedes, Alceste se sacri­fi­ca por amor, para sal­var Admeto, seu mari­do. Quando se casa com Alceste, ele se esque­ce de fazer um sacri­fí­cio em home­na­gem a Ártemis, que se enfu­re­ce e o con­de­na à mor­te. Apolo inter­ce­de a favor de Admeto e con­se­gue con­ven­cer as Moiras a acei­tar um subs­ti­tu­to. Na hora da mor­te, entre­tan­to, Admeto não tem nenhum subs­ti­tu­to e é Alceste quem se ofe­re­ce para mor­rer em seu lugar. Apolônia, de Hanna Krall, base­a­da em uma his­tó­ria real, mor­re nas mãos dos nazis­tas, ten­tan­do sal­var a vida de judeus.

São sacri­fí­ci­os heroi­cos. Mas o sacri­fí­cio tam­bém pode ser cri­me e hor­ror. (“A len­da pro­cu­ra expli­car o que não pode ser expli­ca­do. Por estar fun­da­da na ver­da­de, tem que aca­bar no inex­pli­cá­vel”, Warlikowski expli­ca no peque­no mani­fes­to sobre o tea­tro). Agamênon sacri­fi­ca a filha Ifigênia para agra­dar a deu­sa Ártemis e ganhar a guer­ra. Clitemnestra, sua mulher, o mata para vin­gar a filha. Orestes, irmão de Ifigênia, mata a mãe para vin­gar o pai. O sacri­fí­cio ins­ta­la o caos e expõe a vai­da­de e a lou­cu­ra dos deu­ses e dos homens.

A denún­cia do sacri­fí­cio como cri­me e bar­bá­rie fica mais cla­ra na segun­da par­te da peça, com o dis­cur­so A Vida dos Animais, pro­fe­ri­do por Elizabeth Costello, alter ego de Coetzee, e com o tex­to de Hanna Krall sobre uma mulher que ten­ta sal­var cri­an­ças judi­as, na Polônia da Segunda Guerra. No tex­to de Coetzee, Costello faz um para­le­lo poten­te e des­con­for­tá­vel entre os judeus e os ani­mais. Quer nos fazer com­pre­en­der os direi­tos des­tes últi­mos. E para isso tem que nos pôr na pele dos ani­mais. “Hoje, me leva­ram para pas­se­ar por São Paulo. Me pare­ceu uma cida­de sim­pá­ti­ca, mas tenho cer­te­za de que tam­bém exis­tem aqui, por­que estão em toda par­te, fora do alcan­ce do olhar.” Está se refe­rin­do aos mata­dou­ros. Em segui­da, sua men­ção aos polo­ne­ses, sur­pre­sos ao serem con­fron­ta­dos, depois da guer­ra, com a rea­li­da­de dos cam­pos de exter­mí­nio, como se não sou­bes­sem de nada, como se não os tives­sem vis­to, como se não pudes­sem asso­ci­ar a fuma­ça das cha­mi­nés à che­ga­da dos com­boi­os de pri­si­o­nei­ros, faz a pon­te com o tex­to de Hanna Krall.

Os cris­tãos acre­di­tam que Jesus veio ao mun­do para se sacri­fi­car no lugar dos homens, para sal­vá-los. É um sacri­fí­cio mai­or, cujo exem­plo e potên­cia sim­bó­li­ca deve­ri­am ser sufi­ci­en­tes para aca­bar com todos os outros sacri­fí­ci­os. E é o que tor­na ain­da mais espan­to­so que um dos povos mais cató­li­cos do mun­do não tenha se dado con­ta do hor­ror do sacri­fí­cio que ocor­ria ao seu lado, em seu pró­prio país, duran­te a guer­ra. E que hoje esse mes­mo povo cris­tão, sobre­vi­ven­te de guer­ra, se mos­tre tão refra­tá­rio a sacri­fi­car o que quer que seja para sal­var alguns milha­res de estran­gei­ros, refu­gi­a­dos de guer­ra.

A peça de Warlikowski fala do sen­ti­do ambi­va­len­te do sacri­fí­cio, do hor­ror mas tam­bém da inca­pa­ci­da­de de se pôr no lugar do outro, por quem sabe do que está falan­do.

, , ,