Notas secretas

Cinema

23.10.13

No pró­xi­mo dia 25 de outu­bro, o IMS lan­ça o nono títu­lo de sua cole­ção de DVDs: Cerimônia Secreta (1968), do dire­tor nor­te-ame­ri­ca­no Joseph Losey. Para mar­car o lan­ça­men­to, o fil­me será exi­bi­do entre 25 e 27 de outu­bro, às 20h, no IMS do Rio de Janeiro, e tam­bém será rea­li­za­da a Mostra Joseph Losey até 7 de novem­bro.

Cerimônia secre­ta é um dos fil­mes menos cita­dos e reco­nhe­ci­dos na obra do atu­al­men­te tam­bém pou­co lem­bra­do Joseph Losey. Para ele, “o assun­to do fil­me é a ter­rí­vel neces­si­da­de que os seres huma­nos têm de outros seres huma­nos” (como regis­tra Christien Ledieu em Joseph Losey, livro da cole­ção “Grandes cine­as­tas”, Record, Rio de Janeiro, 1974) e a “difi­cul­da­de em satis­fa­zer este dese­jo  quan­do sua neces­si­da­de se mani­fes­ta em nos­so mun­do hos­til”.

Losey diri­giu a pri­mei­ra mon­ta­gem tea­tral da peça de Brecht sobre A vida de Galileu em 1947 e dizia que seu cine­ma rece­beu influên­ci­as do tea­tro bre­ch­ti­a­no, men­ci­o­nan­do as em vári­os itens que cul­mi­nam no últi­mo:

1º) A impor­tân­cia do ges­to pre­ci­so.

2º) A eco­no­mia de movi­men­tos, tan­to dos ato­res quan­to da câme­ra; nada se mexen­do sem um obje­ti­vo.

3º) Fluidez na com­po­si­ção.

4º) A jus­ta­po­si­ção dos con­tras­tes gra­ças à mon­ta­gem como for­ma mais sim­ples de obter o céle­bre “efei­to de dis­tan­ci­a­men­to”.

5º) A exal­ta­ção da rea­li­da­de para com­pre­en­dê-la.

Tudo isto para atin­gir:

6º) A ampli­a­ção da visão do olhar indi­vi­du­al.

A bus­ca de pro­pi­ci­ar o olhar indi­vi­du­al é coe­ren­te com outra decla­ra­ção sua, em que comen­tou (para Michel Ciment, em Le livre de Losey, Stock, Paris, 1985) que “se exis­te um talen­to tea­tral ou cine­ma­to­grá­fi­co, ele deve com­por­tar um enga­ja­men­to soci­al; mas hoje em dia isso não é mais tão sim­ples, pois não há mais res­pos­tas pron­tas, fáceis ou com­ple­tas a serem dadas: quer se tra­te dos pais aos filhos, dos pro­fes­so­res aos alu­nos ou dos teó­lo­gos aos ini­ci­a­dos. Pode-se ape­nas dar um estí­mu­lo. E creio que o melhor estí­mu­lo é uma cri­a­ção artís­ti­ca com­ple­ta, vale dizer, for­ma e emo­ção que con­du­zi­rão os que veem e enten­dem a uma refle­xão mais apro­fun­da­da — eis por­que as vári­as inter­pre­ta­ções de um fil­me são per­fei­ta­men­te ade­qua­das se são boas, mes­mo que sejam estra­nhas às inten­ções do autor”.

Posteriormente decep­ci­o­na­do e “pro­fun­da­men­te enver­go­nha­do” com o sta­li­nis­mo, não aban­do­nou as crí­ti­cas às dife­ren­ças soci­ais, ten­do abor­da­do este pro­ble­ma em vári­os dos seus fil­mes sem dog­ma­tis­mo nem sec­ta­ris­mo, pro­mo­ven­do apro­xi­ma­ções sutis da ques­tão — sem dei­xar de lado a pes­qui­sa for­mal exi­gen­te e a inves­ti­ga­ção de áre­as obs­cu­ras do psi­quis­mo dos per­so­na­gens, embo­ra sem­pre pon­tu­an­do os deter­mi­nan­tes soci­ais que tam­bém par­ti­ci­pa­ram na estru­tu­ra­ção de suas per­so­na­li­da­des.

Em uma entre­vis­ta a pro­pó­si­to de Cerimônia secre­ta (para o cita­do livro de Michel Ciment), con­cor­da­va que Cenci (Mia Farrow) fazia par­te de uma aris­to­cra­cia deca­den­te e acres­cen­ta­va: “O con­fli­to entre a clas­se média e as eli­tes é bem mais  com­ple­xo que o con­fli­to entre a clas­se ope­rá­ria e a clas­se média. A clas­se ope­rá­ria  não tem mais ilu­sões: sabe que jamais terá o lugar dos senho­res e sabe que mor­re  por fome. Mas a clas­se média tem o seu con­for­to e pros­pe­ri­da­de medi­dos pelos  padrões das eli­tes”.

Em vári­os de seus fil­mes encon­tra­mos a situ­a­ção de um per­so­na­gem que, para sobre­vi­ver, acha que deve morar numa casa pro­te­gi­da e se colo­car lá den­tro para fugir à vio­lên­cia do mun­do — até o dia em que um per­so­na­gem de fora se intro­duz, ultra­pas­sa as pare­des e que­bra com a supos­ta pro­te­ção intra­mu­ros. Esta ale­go­ria se repe­tiu em O homem que veio de lon­ge (Boom, 1968) e até na polê­mi­ca ver­são de O assas­si­na­to de Trotsky (The assas­si­na­ti­on of Trotsky, 1973). Em O cri­a­do (The ser­vant, 1963), a mor­te psí­qui­ca e a deca­dên­cia moral, tal como em Eva (1962).

Com a exce­ção óbvia do per­so­na­gem Trotsky, os encas­te­la­dos eram de uma eli­te ali­e­na­da tan­to soci­al como psi­qui­ca­men­te, cujo exem­plo mais inten­so e mais típi­co é Cenci. Sobre ela, dis­se Losey: “Eu e Mia Farrow a con­ce­be­mos como uma esqui­zo­frê­ni­ca his­té­ri­ca que pare­ces­se nor­mal em alguns momen­tos. Leonora (Elizabeth Taylor) não é cer­ta­men­te sadia nem nor­mal por acei­tar uma vida esqui­zo­frê­ni­ca em que deve ado­tar outra per­so­na­li­da­de. Sendo assim, é uma his­tó­ria de esque­mas que se repe­tem como par­te de um ritu­al, já que o ritu­al é, em si, uma repe­ti­ção”.

Enquanto repe­ti­ção obses­si­va de um ritu­al atra­vés do qual uma filha quer reen­con­trar a mãe mor­ta e uma mãe pre­ten­de reen­con­trar a filha que se afo­ga­ra, a folie à deux as pro­te­ge — tem­po­ra­ri­a­men­te — de se defron­ta­rem com suas per­das e com uma fal­ta ain­da mai­or do que a per­da de uma pes­soa sig­ni­fi­ca­ti­va emo­ci­o­nal­men­te: a fal­ta de uma estru­tu­ra de per­so­na­li­da­de pró­pria. Uma se uti­li­za da outra como pró­te­se, num espa­ço ambí­guo entre o jogo de faz-de-con­ta e o faz-de-con­ta que não é um jogo.

O retor­no de uma figu­ra mas­cu­li­na como a do padras­to (Robert Mitchum) pode reor­ga­ni­zar as trans­fe­rên­ci­as psi­có­ti­cas para uma con­fi­gu­ra­ção edí­pi­ca em vez de sim­bió­ti­ca; mas ele é per­ver­ti­do, tão ou mais exci­ta­do do que a ente­a­da pela pos­si­bi­li­da­de do inces­to. De qual­quer for­ma, ele vai des­fa­zer a sim­bi­o­se entre Cenci e suas mães: tan­to a subs­ti­tu­ta quan­to a ori­gi­nal, cuja mor­te ela pare­ce acei­tar ao ir visi­tar seu túmu­lo. Ao mes­mo tem­po, a dis­so­lu­ção da sim­bi­o­se vai lan­çá-la no abis­mo em que sua vida já vinha mer­gu­lhan­do.

A rup­tu­ra pro­mo­vi­da pela “mãe” Leonora, ao des­fa­zer uma gra­vi­dez ima­gi­ná­ria de Cenci, induz a jovem a tro­car o jogo his­té­ri­co de sedu­ção pela bus­ca do coi­to nces­tu­o­so. Leonora falha em sua pro­mes­sa de não per­der uma filha pela segun­da ez, con­de­nan­do-se a ser irre­me­di­a­vel­men­te só. Como um dos ratos da fábu­la que ela men­ci­o­na: ambos caí­ram em uma tina de lei­te, e o que se deba­teu per­to do afo­ga­men­to a pon­to de trans­for­mar o lei­te em man­tei­ga, para vir a cami­nhar sobre ela,  sobre­vi­veu sozi­nho — enquan­to o outro rati­nho que gri­ta­va por socor­ro se dei­xou  afo­gar…

P.S.: A foto­gra­fia admi­rá­vel de Garry Fisher — com quem Losey tra­ba­lhou em Casa de bone­cas (A doll’s hou­se, 1973), Acidente (Accident, 1967), Mr. Klein (1976) e O men­sa­gei­ro (The go betwe­en, 1971) — uti­li­za a ambi­en­ta­ção insó­li­ta de uma casa que de fato exis­tia na Londres da épo­ca. O rotei­ro é de George Tabori (de A tor­tu­ra do silên­cio, de Hitchcock), base­a­do em um obs­cu­ro con­to de ori­gem argen­ti­na que lem­bra um mis­to de Bioy Casares e Cortázar. Cabe lem­brar que Losey ficou natu­ral­men­te mui­to indig­na­do com o que os pro­du­to­res do fil­me fize­ram ao exi­bi-lo na TV ame­ri­ca­na, enxer­tan­do cenas em que dois ato­res em papéis de um psi­qui­a­tra e de um advo­ga­do dis­cu­ti­am a his­tó­ria, como que “expli­can­do” o com­por­ta­men­to dos per­so­na­gens.

Notas escri­tas como intro­du­ção a um deba­te sobre Cerimônia secre­ta rea­li­za­do em maio de 1998 na Sociedade Brasileira de Psicanálise, no Rio de Janeiro

* Luiz Fernando Gallego é crí­ti­co de cine­ma.

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