Notas sobre a linguagem jornalística no cinema de ficção

Cinema

20.07.14

O IMS está lan­çan­do A bata­lha de Argel em DVD. O fil­me terá exi­bi­ção no dia 24, no IMS-RJ, às 20h.

A estru­tu­ra de A bata­lha de Argel é clás­si­ca, em três atos.

No pri­mei­ro se dá a apre­sen­ta­ção dos per­so­na­gens e da intri­ga, puxa­da por uma sequên­cia de aber­tu­ra com carac­te­rís­ti­cas de impac­to.

No segun­do, se dão o apro­fun­da­men­to e o desen­vol­vi­men­to do con­fli­to.

Por fim, o ter­cei­ro ato leva ao des­fe­cho da ação e ofe­re­ce um epí­lo­go como fecho.

A for­ma e o esti­lo do rotei­ro refle­tem as exi­gên­ci­as da his­tó­ria nar­ra­da, e não ape­nas von­ta­de ou hábi­to do rotei­ris­ta, Franco Solinas, ou do dire­tor e coar­gu­men­tis­ta, Gillo Pontecorvo.

Apesar dos pon­tos de con­ta­to com outros fil­mes de Pontecorvo (Queimada, pos­te­ri­or, 1969, e Kapò, ante­ri­or, 1960), A bata­lha de Argel ado­ta dra­ma­tur­gia asse­me­lha­da à de linha bre­ch­ti­a­na, “dis­tan­ci­a­da”, na qual a emo­ção fica fun­da­men­tal­men­te a car­go do espec­ta­dor. Elenco, rotei­ris­ta, fotó­gra­fo e dire­tor não subs­ti­tu­em o espec­ta­dor, emo­ci­o­nan­do-se em seu lugar; não pur­gam suas dores e seus sen­ti­men­tos; não apos­tam na catar­se. Em tro­ca, ofe­re­cem ao públi­co todas as infor­ma­ções que pos­si­bi­li­tem uma toma­da de posi­ção.

Já no pri­mei­ro momen­to, somam-se os com­po­nen­tes da ima­gem (posi­ção de câme­ra, angu­la­ção, enqua­dra­men­to e com­po­si­ção) a cená­ri­os, figu­ri­nos, mise-en-scè­ne e inter­pre­ta­ção, para não dei­xar dúvi­das: esse fil­me toma o par­ti­do do homem que se liber­ta con­tra o do homem que opri­me. No cen­tro do qua­dro, cabis­bai­xo, um arge­li­no (peque­no, magro e velho) amar­ra­do a uma cadei­ra. Seu cor­po, semi­nu e exau­ri­do, e o ambi­en­te da sala nos per­mi­tem com­pre­en­der que vem de ter­mi­nar uma ses­são de tor­tu­ra. Ele ocu­pa o cen­tro do qua­dro e é vis­to num pla­no con­jun­to (apa­re­cem móveis e obje­tos, e os sol­da­dos que se movi­men­tam pela sala) em que a câme­ra alta/plon­gé, colo­ca­da em ângu­lo de apro­xi­ma­da­men­te 30 graus, mar­ca niti­da­men­te sua infe­ri­o­ri­da­de e a supre­ma­cia dos altos, for­tes e lou­ros fran­ce­ses.

Se decla­ra sua pai­xão no pri­mei­ro ges­to, o rotei­ro não se fur­ta a mos­trar ati­tu­des “con­de­ná­veis” dos revo­lu­ci­o­ná­ri­os arge­li­nos, segun­do a óti­ca da hipo­cri­sia oci­den­tal: aten­ta­dos a bom­ba viti­mam mulhe­res e cri­an­ças em points fre­quen­ta­dos por jovens euro­peus; o herói é, ori­gi­nal­men­te, um mar­gi­nal, “bato­tei­ro” e ladrão; cri­an­ças agri­dem um bêbe­do em nome da moral revo­lu­ci­o­ná­ria…

Constante é a pre­sen­ça do zoom (dis­cre­ta) e da tele­ob­je­ti­va. Ela puxa o fun­do, des­fo­ca-o e con­tri­bui para tor­nar brus­cos e rápi­dos os movi­men­tos de câme­ra. Ademais, per­mi­te que o dire­tor não se intro­me­ta nas situ­a­ções e man­tém o espec­ta­dor dis­tan­te ao negar-lhe a pseu­do­tri­di­men­si­o­na­li­da­de que a len­te “nor­mal” suge­re.

Realizado do pon­to de vis­ta de um autor onis­ci­en­te neu­tro, o fil­me res­tau­ra os prin­ci­pais fatos his­tó­ri­cos e cons­trói dra­ma­ti­ca­men­te seus bas­ti­do­res. Imprime à fri­e­za dos dados o “inte­res­se huma­no” – mar­ca da repor­ta­gem moder­na – impres­cin­dí­vel para ampli­ar seu públi­co mui­to além dos seg­men­tos inte­res­sa­dos na Guerra da Argélia e pos­si­bi­li­tar que, hoje, mais de 30 anos depois de rea­li­za­do, man­te­nha sua for­ça moti­va­do­ra de refle­xão.

Mesmo as cenas pura­men­te fic­ci­o­nais são tra­ta­das cirúr­gi­ca e fac­tu­al­men­te. O arte­sa­na­to se faz pre­sen­te todo o tem­po, pois nada é casu­al. A dra­ma­tur­gia, porém, é a do jor­na­lis­mo inves­ti­ga­ti­vo. Pontecorvo cor­ta e faz elip­ses que, man­ten­do a essen­ci­a­li­da­de do con­teú­do, garan­tem a A bata­lha de Argel um lugar nobre na cate­go­ria dos fil­mes de ação. Em duas horas, não há pra­ti­ca­men­te minu­to em que algo não acon­te­ça, em que nova infor­ma­ção não seja dada, em que o espec­ta­dor frus­tre sua ânsia de ten­são.

Por outro lado, entre­tan­to, rejei­ta a medi­o­cri­da­de dos fil­mes de ação comuns, aque­les que engol­fam o públi­co, plas­man­do-o e mas­si­fi­can­do-o na impos­si­bi­li­da­de de res­pi­rar, de dis­cor­dar, de con­de­nar. Ele pró­prio suge­re a crí­ti­ca, por exem­plo, quan­do usa a mes­ma músi­ca des­cri­ti­va, sole­ne e plan­gen­te, como fun­do para as dife­ren­tes cenas em que ára­bes e euro­peus reco­lhem os cor­pos das víti­mas dos aten­ta­dos. São situ­a­ções trá­gi­cas e cruéis, para quais­quer dos par­ti­dos. O esti­lo é o dos jor­nais da tela.

Outro ele­men­to que apro­xi­ma a dra­ma­tur­gia de A bata­lha de Argel do jor­na­lis­mo é a sen­sa­ção con­tra­di­tó­ria de que, ape­sar de nada poder ser fei­to quan­to aos acon­te­ci­men­tos refe­ri­dos (atos agi­dos), somos ins­ti­ga­dos a tomar posi­ção, em vez de pôr-nos a tor­cer pelo moci­nho con­tra o ban­di­do. Isto é, o pas­sa­do é refe­rên­cia para o futu­ro.

A abertura/introdução/impacto de A bata­lha de Argel faz real­men­te jus a essa tri­pla deno­mi­na­ção. Durando cin­co minu­tos e 39 segun­dos – da pri­mei­ra ima­gem à fusão que retro­ce­de a ação a 1954 e dá iní­cio à apre­sen­ta­ção de Ali – pode, com jus­ti­ça, rece­ber o títu­lo de aber­tu­ra. Não ape­nas abre o fil­me, con­ten­do cré­di­tos, títu­lo e pri­mei­ras ima­gens, mas abre hori­zon­tes, jane­las, por­tas e até pare­des em que as pes­so­as se encar­ce­ram para, para­do­xal­men­te, con­ser­var a liber­da­de.

 

É aqui tam­bém que se intro­duz a his­tó­ria, sem gran­des expli­ca­ções, mas lan­çan­do volu­mo­sas iscas à curi­o­si­da­de dos espec­ta­do­res: o homem tor­tu­ra­do, sem­pre man­ti­do em sua inde­fe­sa posi­ção de infe­ri­o­ri­da­de, é “naci­o­na­li­za­do” fran­cês por seus tor­tu­ra­do­res. A feliz expres­são é usa­da pelo ofi­ci­al que lhe impõe o “bico-de-pato” de para­que­dis­ta, mas áspe­ra e pron­ta­men­te con­de­na­da pelo coro­nel, que não se per­mi­te brin­ca­dei­ras com resul­ta­dos impre­vi­sí­veis. Em segui­da será intro­du­zi­da a guer­ra, com cen­te­nas de para­que­dis­tas inva­din­do a “cida­de ára­be”, a Casbah, em que os ver­da­dei­ros donos da ter­ra, os “naci­o­nais”, ficam con­fi­na­dos, só sain­do para ser­vir aos colo­ni­za­do­res, na cida­de euro­peia. A câme­ra mos­tra­rá, qua­se inva­ri­a­vel­men­te em plon­gé, os arge­li­nos dimi­nuí­dos, infe­ri­o­ri­za­dos… Os sol­da­dos, supe­ri­o­res em sua vio­lên­cia, usu­frui­rão da impo­nên­cia pro­pi­ci­a­da pela câme­ra bai­xa, em con­tre-plon­gé.

A ope­ra­ção mili­tar que se desen­ro­la a seguir é regis­tra­da de manei­ra ain­da mais docu­men­tal. A câme­ra fil­ma, dos melho­res ângu­los, como os sol­da­dos ocu­pam ter­ra­ços, arrom­bam por­tas, ater­ro­ri­zam e con­du­zem como gado seus habi­tan­tes por varan­das e esca­das inter­nas. Permitem-se dis­cre­tos des­fo­ques e titu­bei­os. O espec­ta­dor assis­te, da mes­ma for­ma como vê, na TV, um poli­ci­al exe­cu­tar um ladrão na por­ta do shop­ping Rio-Sul.

Encerrando a intro­du­ção, temos o pri­mei­ro con­ta­to com Ali la Pointe e seus três com­pa­nhei­ros. E nos sur­pre­en­de­mos a des­co­brir que os pode­ro­sos para­que­dis­tas fran­ce­ses, às cen­te­nas, mobi­li­za­ram-se para ten­tar cap­tu­rar um jovem nos pri­mei­ros anos de adul­to, um garo­to (ain­da-cri­an­ça-já-ado­les­cen­te), uma lin­da mulher e um homem vigo­ro­so – de fei­ções e olhar deci­di­do, assus­ta­do com a frus­tra­ção do des­ti­no, mas de modo nenhum teme­ro­so. Os qua­tro têm olha­res e fei­ções doces, ten­sas, com per­cep­tí­vel gene­ro­si­da­de. Essas são ima­gens que não pode­ri­am exis­tir se o rotei­ro não con­ti­ves­se sua essên­cia. No entan­to, a tele­ob­je­ti­va, tam­bém aqui, tra­ta de man­ter a dis­tân­cia.

Não são todas as aberturas/introduções que se carac­te­ri­zam como impac­tos (ape­sar de Ola Olsson, pro­fes­sor de dra­ma­tur­gia do Instituto Dramático da Suécia, dar o nome de ans­lag a essa par­te ini­ci­al da estru­tu­ra dra­má­ti­ca e iden­ti­fi­cá-la como uma divi­são da apre­sen­ta­ção). A de A bata­lha de Argel, porém, é exem­plar. Durante os cin­co minu­tos e 39 segun­dos ini­ci­ais, o espec­ta­dor qua­se não tem tem­po de rela­xar. Novas infor­ma­ções são intro­du­zi­das con­ti­nu­a­men­te; ações se suce­dem; ten­sões se somam atra­vés de angu­la­ções, movi­men­tos de câme­ra, enqua­dra­men­tos, cor­tes. Isso cor­res­pon­de a 4,8% do fil­me, mas dita­rá todo o rit­mo e todo o inte­res­se da ação. Em ter­mos jor­na­lís­ti­cos, pode­ria ser cha­ma­do de gan­cho. As per­gun­tas sal­tam: quem são essas pes­so­as que pare­cem frá­geis, encur­ra­la­das, mas impõem tal temor ao exér­ci­to colo­ni­al fran­cês – par­ti­cu­lar­men­te Ali la Pointe, a quem é diri­gi­do o ulti­ma­to dos para­que­dis­tas? O que fazem? O que está acon­te­cen­do? Que orga­ni­za­ção é essa de que falam os mili­ta­res?

A apre­sen­ta­ção, a rigor, come­ça, aos cin­co minu­tos e 40 segun­dos, com um gran­de pla­no geral em pano­râ­mi­ca de Argel, moven­do-se da cida­de euro­peia até a Casbah. Destaca o casa­rio ára­be de esti­lo medi­ter­râ­neo, tetos pla­nos comu­ni­can­tes, pare­des bran­cas, ruas estrei­tas. Em vez de pai­sa­gem, cená­rio, é um per­so­na­gem que a câme­ra nos des­cre­ve. Letreiros iden­ti­fi­cam ano (1954) e local.

De ime­di­a­to, outra per­so­na­gem, vis­ta de relan­ce na aber­tu­ra, é pro­pri­a­men­te apre­sen­ta­da: a popu­la­ção ára­be, coad­ju­van­te que, no final, terá o papel prin­ci­pal. Aqui, ain­da é obje­to. A câme­ra é “ins­tá­vel”, como se mane­ja­da por um cine­gra­fis­ta (repór­ter cine­ma­to­grá­fi­co, no qua­dro de fun­ções da lei dos jor­na­lis­tas), mas o olhar é fir­me, em pri­mei­ros pla­nos, fun­dos des­fo­ca­dos, sem pro­fun­di­da­de de cam­po. Não bus­ca cri­ar sim­pa­ti­as, e sim for­ne­cer conhe­ci­men­tos. Olhando as ima­gens, per­ce­be­mos tra­tar-se de pes­so­as pobres, labo­ri­o­sas. Falta ale­gria. Vivem, ape­nas. A mobi­li­za­ção está ausen­te do qua­dro. Em con­tra­pon­to, na tri­lha sono­ra ouve-se um comu­ni­ca­do da Frente de Libertação Nacional sobre a situ­a­ção polí­ti­ca. Somos nós que o ouvi­mos. A per­so­na­gem popu­la­ção não está dire­ta­men­te envol­vi­da, ain­da não pas­sou a povo.

Logo depois, aos seis minu­tos e 43 segun­dos, vamos reen­con­trar Ali, des­ta vez para conhe­cê-lo. Opera uma ban­ca de car­te­a­do, daque­las em que o “otá­rio” tem que adi­vi­nhar onde está a car­ta esco­lhi­da. A câme­ra des­cre­ve: ros­tos, movi­men­tos, espe­ran­ças, pobre­za, ten­são. Parece um docu­men­to espe­ci­al. Uma fran­ce­sa cha­ma o guar­da e denun­cia. O arge­li­no come­ça a cor­rer, bus­ca a liber­da­de. É per­se­gui­do. Os colo­nos gri­tam denun­ci­an­do sua rota. Interceptado pelo pé sor­ra­tei­ro de um jovem, par­te de um gru­po de fran­ce­ses, cai ao chão. Frustração e humi­lha­ção em câme­ra alta/plon­gé. Soberba e escár­nio no sor­ri­so do fran­cês, em câme­ra baixa/con­tre-plon­gé.

Ali se levan­ta, rea­ge, o sor­ri­so fan­far­rão desa­pa­re­ce. O gru­po ten­ta lin­chá-lo. Chegam os poli­ci­ais. É pre­so. Briga, espan­ca­men­to, pri­são são regis­tra­dos por uma câme­ra “inde­ci­sa”, que pare­ce bus­car os ges­tos mais sig­ni­fi­ca­ti­vos, as expres­sões mais impor­tan­tes. É como se aqui­lo não fos­se ence­na­ção. Os fora de foco e as “impre­ci­sões” garan­tem o dis­tan­ci­a­men­to. Produzem estra­nha­men­to. Passaram-se oito minu­tos. Quarenta segun­dos depois, quan­do arras­ta­do para a pri­são, o des­ti­no do espec­ta­dor já esta­rá liga­do ao do per­so­na­gem. Torna-se difí­cil não que­rer saber o que o futu­ro reser­va e como ele vai che­gar à situ­a­ção da aber­tu­ra. Confirma-se: o fil­me é sem­pre um movi­men­to em dire­ção ao futu­ro.

A apre­sen­ta­ção con­ti­nu­a­rá até os 15 minu­tos e dez segun­dos, sem­pre intro­du­zin­do novos dados e pro­ta­go­nis­tas. Aos nove minu­tos e qua­tro segun­dos, o ros­to de Ali, na cadeia, mar­ca um novo momen­to. A ten­são não é a mes­ma da fuga ou do impac­to ini­ci­al. Há deso­la­ção, per­ple­xi­da­de e algo mais, per­cep­tí­vel e inde­fi­ní­vel. É como se esse fre­quen­ta­dor de celas (o que nos foi infor­ma­do pela tri­lha sono­ra logo após sua cap­tu­ra) tives­se per­ce­bi­do estar em um mun­do dife­ren­te do habi­tu­al. Ali estão, e a câme­ra os des­cre­ve, homens cujo aspec­to não é o de “ratos de pri­são”.

É quan­do a FLN adqui­re físi­co. Só ouví­ra­mos falar dela no comu­ni­ca­do polí­ti­co ini­ci­al. Aqui, ela é gen­te e sol­ta um gri­to, Viva a Argélia!, dan­do iní­cio ao pro­tes­to que acom­pa­nha um dos pre­sos por cor­re­do­res e pátio até a gui­lho­ti­na. Assistimos a tudo, mas não somos par­te dos acon­te­ci­men­tos. Em todo o fil­me, esse é o úni­co momen­to em que Pontecorvo se uti­li­za do pon­to de vis­ta sub­je­ti­vo, com o ope­ra­dor se pos­tan­do no lugar de Ali para tes­te­mu­nhar o gui­lho­ti­na­men­to do líder da FLN. Ainda assim, não nos envol­ve­mos, pois o per­so­na­gem per­ma­ne­ce apá­ti­co e alheio aos ide­ais da luta de liber­ta­ção. Algo, porém, se que­bra. A câme­ra ain­da é apa­ren­ta­da com a do docu­men­to espe­ci­al e assim vai seguir ao lon­go do fil­me.

O rotei­ro pre­pa­ra cada nova rup­tu­ra, pavi­men­ta o cami­nho das ações que se suce­dem incan­sa­vel­men­te. A vio­lên­cia cirúr­gi­ca e nua do gui­lho­ti­na­men­to fecha uma eta­pa. Já sabe­mos o bási­co sobre Ali e encon­tra­mos a FLN como fenô­me­no cole­ti­vo, obje­to de per­se­gui­ção. No entan­to, conhe­ce­mos pou­co sobre eles. O tema de A bata­lha de Argel não é a vida nas pri­sões, mas a luta nas ruas. Uma elip­se de tem­po (cin­co meses) traz, aos 11 minu­tos e dois segun­dos, a nós e a Ali a lufa-lufa das vie­las da Casbah. O olhar é o mes­mo das ante­ri­o­res cenas de rua. Busca as situ­a­ções em meio aos fatos coti­di­a­nos e encon­tra o ex-pri­si­o­nei­ro à espe­ra. Então, che­ga a FLN con­cre­ta, pelas mãos do meni­no que víra­mos a seu lado no flash­forward da aber­tu­ra. Ela vem para tor­nar-se defi­ni­ti­va­men­te a ver­da­dei­ra pro­ta­go­nis­ta. As boas repor­ta­gens con­tam a his­tó­ria por inter­mé­dio dos homens que a vivem.

O res­to da apre­sen­ta­ção vai ser edi­ta­do, ago­ra, como em sub-retran­cas, blo­cos niti­da­men­te mar­ca­dos.

1. Ali rece­be ordens de exe­cu­tar, pelas cos­tas, um poli­ci­al fran­cês, como tes­te para ingres­sar na orga­ni­za­ção. Por fan­far­ro­ni­ce, deso­be­de­ce às ins­tru­ções e ten­ta matá-lo pela fren­te. A arma está des­car­re­ga­da. Quase é pre­so, mas con­se­gue esca­par. Levado a Kader, coman­dan­te da FLN, rece­be uma aula sobre segu­ran­ça e estra­té­gia: era pre­ci­so ter cer­te­za sobre sua sin­ce­ri­da­de, mas ain­da não é hora de matar os fran­ce­ses. Se cum­pris­se as ins­tru­ções não cor­re­ria ris­cos. Essa sequên­cia dura cin­co minu­tos e 28 segun­dos.

2. Nova elip­se. Estamos em 1956. Duas sequên­ci­as com­põem essa sub-retran­ca, que pode­mos cha­mar de FLN con­quis­ta o poder de polí­cia.

2.1. Dezesseis minu­tos e 30 segun­dos – O lead é seme­lhan­te a outros que pon­tu­am a nar­ra­ti­va: novo comu­ni­ca­do tra­ta de ques­tões éti­cas e morais que impe­dem a ade­são do povo à luta e põem em ris­co a segu­ran­ça da orga­ni­za­ção (cor­rup­ção, alco­o­lis­mo, dro­gas, pro­xe­ne­tis­mo). Enquanto o som nos diz o que pen­sa a orga­ni­za­ção, as ima­gens (um aqui e ago­ra neu­tro e éti­co) mos­tram como ela age. Um gru­po de mole­ques, coman­da­do pelo meni­no que já conhe­ce­mos, humi­lha e agri­de um bêbe­do.

2.2. Dezoito minu­tos e 13 segun­dos – A segun­da sequên­cia mos­tra Ali la Pointe per­cor­ren­do pros­tí­bu­los e caba­rés à pro­cu­ra de um cafe­tão. Adverte um homem sobre o uso de ópio. Encontra seu anti­go com­pa­nhei­ro e o avi­sa para dei­xar de explo­rar a pros­ti­tui­ção. É desa­fi­a­do e ata­ca­do. Mata o pro­xe­ne­ta.

3. Vinte minu­tos e 34 segun­dos – Na ter­cei­ra sub-retran­ca, Pontecorvo nos infor­ma como a FLN assu­miu a auto­ri­da­de civil e reli­gi­o­sa. Um diri­gen­te rea­li­za um casa­men­to.

4. Vinte e três minu­tos e seis segun­dos – Série de exe­cu­ções de poli­ci­ais, ata­ques a dele­ga­ci­as e quar­téis e com­ba­tes nas ruas mos­tram como a orga­ni­za­ção se cons­ti­tuiu em poder mili­tar, pene­tran­do o ter­ri­tó­rio do ini­mi­go, a cida­de euro­peia.

O apro­fun­da­men­to come­ça (25 minu­tos e dez segun­dos) com a intro­du­ção de novo e fugaz per­so­na­gem: um jor­na­lis­ta fran­cês que exa­mi­na fotos de mili­ta­res mor­tos pelos arge­li­nos e, por tele­fo­ne, fala com Paris. Tem posi­ção níti­da a favor da ação repres­so­ra. Os aten­ta­dos con­ti­nu­am. Pontecorvo nos infor­ma sobre a rea­ção ofi­ci­al: comu­ni­ca­do do Governo Provincial sobre os “maus arge­li­nos”, cer­co da cida­de ára­be, um cli­ma dos docu­men­tá­ri­os da ocu­pa­ção nazis­ta.

Um ofi­ci­al fran­cês é exe­cu­ta­do. Segue-se a per­se­gui­ção e deten­ção de um ino­cen­te pedrei­ro nati­vo, que fugi­ra apa­vo­ra­do com a his­te­ria dos colo­nos con­tra todo e qual­quer ára­be.

Outra vez o jor­na­lis­ta. No bole­tim que pas­sa para a matriz, inclui o ende­re­ço do pedrei­ro. Está lan­ça­do novo gan­cho. Nada é gra­tui­to. Mais ou menos aos 34 minu­tos o jor­na­lis­ta e seu gru­po entram na cida­de ára­be. Evidencia-se a pre­sen­ça da Organização do Exército Secreto (OAS / Organisation de l’Armée Secrete). Poderosa car­ga de explo­si­vos man­da pelos ares o quar­tei­rão.

A sequên­cia seguin­te repor­ta o res­ga­te de cor­pos. Música e esti­lo lem­bram, pro­po­si­tal­men­te, os jor­nais da tela. O públi­co com­pre­en­de que não há vol­ta. As víti­mas são civis. Permanecemos dis­tan­ci­a­dos, a refle­tir.

Em con­sequên­cia, Ali enca­be­ça mani­fes­ta­ção arma­da. Com seus homens, des­ce as estrei­tas ladei­ras da cida­de ára­be em bus­ca de des­for­ra. Kader os detém. Não é hora da insur­rei­ção. A FLN con­tro­la o pro­ces­so. A cru­e­za e a sim­pli­ci­da­de das ima­gens rei­te­ram as dife­ren­ças entre o estra­te­gis­ta Kader e o impul­si­vo homem de ação. Sempre, a câme­ra ins­tá­vel e os des­fo­ca­dos da repor­ta­gem.

Duas sequên­ci­as se des­ta­cam par­ti­cu­lar­men­te nes­sa fase de apro­fun­da­men­to:

1. Na Casbah, três mulhe­res se carac­te­ri­zam para mis­sões na cida­de. Talvez seja um dos momen­tos cine­ma­to­grá­fi­cos mais expres­si­vos do que Brecht cha­ma de “ges­to soci­al”:

Por Gestus não se deve enten­der a ges­ti­cu­la­ção; não se tra­ta de movi­men­tos de mão que subli­nham ou elu­ci­dam, tra­ta-se sim de pos­tu­ras gerais (Gesamthaltungen). Uma lín­gua é ges­tu­al quan­do ela des­can­sa sobre o ges­tus, quan­do mos­tra deter­mi­na­das pos­tu­ras daque­le que fala, que con­tra­põe o falan­te a outras pes­so­as (…)1. O ges­tus soci­al é o ges­tus rele­van­te para a soci­e­da­de, o ges­tus que dei­xa infe­rir con­clu­sões sobre a situ­a­ção da soci­e­da­de.”2

A sequên­cia come­ça com um des­ses: uma das mulhe­res tiran­do o véu, fren­te a um espe­lho. O espec­ta­dor oci­den­tal comum, cer­ta­men­te, toma-lo-á como algo cor­ri­quei­ro. Afinal, mar­ca o iní­cio de um pro­ces­so de trans­mu­ta­ção que vai levar as mulhe­res a rom­per o cer­co mili­tar e ser acei­tas em pointseuro­peus. Trocarão suas ves­tes ára­bes e se maqui­a­rão. A que se des­ta­ca tiran­do o véu che­ga­rá a cor­tar os cabe­los e oxi­ge­ná-los.

Cada ges­to, numa cena qua­se silen­ci­o­sa, sem pala­vras, é cheio de sig­ni­fi­ca­dos: é uma gran­de vio­lên­cia, para uma mulher ára­be, aban­do­nar os ador­nos de sua iden­ti­da­de cole­ti­va e ado­tar os padrões euro­peus. Sequência ten­sa: assis­ti­mos, em últi­ma ins­tân­cia, a algo como strip-tea­se segui­do de estu­pro, a que se sub­me­tem por uma cau­sa mai­or. Reconhecemos uma delas como a com­pa­nhei­ra de Ali la Pointe na aber­tu­ra. O tra­ta­men­to con­ti­do e as posi­ções neu­tras, mas pre­sen­tes, da câme­ra valem como um box na nar­ra­ti­va. Sem ele, per­der-se-ia boa par­te do inte­res­se huma­no.

2. As três mulhe­res colo­cam bom­bas em um bar, uma lan­cho­ne­te e uma agên­cia de via­gens. Pontecorvo con­tra­di­ta as razões da “revan­che” ára­be com infor­ma­ções essen­ci­ais sobre os luga­res do ata­que: ros­tos huma­nos ale­gres, cri­an­ças, jovens e mulhe­res feli­zes, pes­so­as gen­tis e afá­veis. O ini­mi­go é gen­te.

O res­ga­te das víti­mas euro­pei­as tem exa­ta­men­te o mes­mo tra­ta­men­to do apre­sen­ta­do na Casbah. Jornal da tela, músi­ca pun­gen­te, dis­tan­ci­a­men­to res­pei­to­so e tocan­te.

Entramos no desen­vol­vi­men­to do con­fli­to, aos 51 minu­tos e 20 segun­dos, com a che­ga­da das tro­pas de para­que­dis­tas trans­fe­ri­das das mon­ta­nhas e que havi­am luta­do na Indochina. O jogo se dese­qui­li­bra. A guer­ra é para valer. O coro­nel Phillipe Mathieu nos é apre­sen­ta­do: o úni­co pro­ta­go­nis­ta ain­da des­co­nhe­ci­do. Informam-nos, ver­bal­men­te, seus títu­los e suas gló­ri­as. Aprendemos, no desen­ro­lar da ação, suas ver­da­dei­ras vir­tu­des de com­ba­ten­te e estra­te­gis­ta temí­vel. Dono de fria e rude obje­ti­vi­da­de. Já o víra­mos, na aber­tu­ra, repre­en­der um de seus sol­da­dos pelo tra­ta­men­to humi­lhan­te ao tor­tu­ra­do, “naci­o­na­li­zan­do-o”. A par­tir de ago­ra, Mathieu intro­du­zi­rá os méto­dos cien­tí­fi­cos de guer­ra. Se, antes, o espec­ta­dor assis­tia a ope­ra­ções mili­ta­res e de infor­ma­ção, toma­rá conhe­ci­men­to do que é a con­train­for­ma­ção. Mathieu dá uma aula a seus homens sobre a estru­tu­ra da orga­ni­za­ção revo­lu­ci­o­ná­ria e como der­ru­bá-la.

Consolidados os pode­res poli­ci­al, civil e mili­tar entre a popu­la­ção ára­be, a FLN inves­te na con­quis­ta do poder polí­ti­co. Adota a luta de mas­sas. Deflagra uma gre­ve geral de oito dias. Sucesso abso­lu­to: os arge­li­nos seguem sua ori­en­ta­ção. É, no entan­to, fatal erro estra­té­gi­co, pre­vis­to por Ben M’Hidi – o diri­gen­te que só apa­re­ce para pon­tu­ar poli­ti­ca­men­te a ação e pro­vo­car a expli­ci­ta­ção ide­o­ló­gi­ca – e Mathieu. Cada um, de seu jei­to, obser­va que a FLN saiu do ano­ni­ma­to e adqui­riu for­ma. Será fácil atin­gi-la.

À impren­sa o coro­nel con­train­for­ma: a gre­ve falhou, seu obje­ti­vo era a insur­rei­ção. Mesmo sen­do men­ti­ra, isso está nos clás­si­cos e na his­tó­ria, tem coe­rên­cia. Mathieu men­ci­o­na a “fal­sa huma­ni­da­de” dos que defen­dem os arge­li­nos. Ao saber que Sartre cri­ti­cou a ação colo­ni­al em arti­go num jor­nal fran­cês, per­gun­ta: Por que os Sartre nas­cem todos do outro lado? Um repór­ter ques­ti­o­na: Gosta de Sartre, coro­nel? A res­pos­ta: Não. Mas, gos­to menos como adver­sá­rio. Está regis­tra­da a resis­tên­cia da inte­lec­tu­a­li­da­de na metró­po­le.

Inicia-se a repres­são em mas­sa. Por amos­tra­gem, os fran­ce­ses esco­lhem gre­vis­tas para ser “inter­ro­ga­dos”. Os demais são for­ça­dos ao tra­ba­lho. A estru­tu­ra da FLN come­ça a ser iden­ti­fi­ca­da, os retân­gu­los do orga­no­gra­ma rece­bem nomes. Mathieu com­pa­ra a Frente a uma tênia: há que esma­gar-lhe a cabe­ça para impe­di-la de cres­cer nova­men­te. Agora, eles já sabem quem são os qua­tro cabe­ças, têm seus retra­tos. Kader e Ali entre eles.

Por aca­so, Ben M’Hidi cai pre­so. É apre­sen­ta­do aos jor­na­lis­tas. Justifica as ações ter­ro­ris­tas: dis­põe-se a tro­car as ces­ti­nhas das mulhe­res ára­bes pelos aviões e napalm que os fran­ce­ses usam. Lança mais uma cha­ve ide­o­ló­gi­ca do fil­me ao afir­mar que, ape­sar da infe­ri­o­ri­da­de mili­tar, é mais fácil o FLN der­ro­tar o exér­ci­to fran­cês do que o exér­ci­to fran­cês mudar a his­tó­ria.

Sua pri­são moti­va a sequên­cia ide­o­lo­gi­ca­men­te mais explí­ci­ta de A bata­lha de Argel. A da con­fe­rên­cia de impren­sa em que Mathieu é obri­ga­do a dar expli­ca­ções sobre o “sui­cí­dio” do líder revo­lu­ci­o­ná­rio e a exis­tên­cia de tor­tu­ra. Vale a pena des­ta­car dois tre­chos.3

Mathieu: Os suces­sos obti­dos são resul­ta­dos des­ses méto­dos. Uns pres­su­põem os outros e vice-ver­sa.

(…)

Mathieu: A pala­vra “tor­tu­ra” não cons­ta do nos­so voca­bu­lá­rio. Temos sem­pre fala­do do inter­ro­ga­tó­rio como o úni­co méto­do váli­do em uma ope­ra­ção de polí­cia diri­gi­da con­tra um ban­do de des­co­nhe­ci­dos. Por seu lado, a FLN pede aos seus mem­bros, em caso de cap­tu­ra, para man­ter silên­cio por 24 horas. Com isso, a Organização tem o tem­po neces­sá­rio para ver inu­ti­li­za­da qual­quer infor­ma­ção obti­da. E nós… Que gêne­ro de inter­ro­ga­tó­rio deve­ría­mos fazer? O dos tri­bu­nais, que, para um cri­me de homi­cí­dio leva alguns meses?

Uma voz: A lega­li­da­de é incô­mo­da, coro­nel.

Mathieu: E quem colo­ca bom­bas res­pei­ta a lega­li­da­de? Lembram-se do que dis­se Ben M’ Hidi a esse res­pei­to? Não, senho­res, crei­am-me: é um cír­cu­lo vici­o­so. Poderíamos dis­cu­tir horas sem che­gar a uma con­clu­são, pois esse não é o pro­ble­ma. O pro­ble­ma é que a FLN nos quer fora da Argélia, e nós que­re­mos ficar. Ora, pare­ce-me que, ape­sar das con­cep­ções dife­ren­tes, todos esta­mos de acor­do que deve­mos per­ma­ne­cer. Quando come­çou a rebe­lião, nin­guém fez “espu­ma”. Todos os jor­nais, incluí­dos os de esquer­da, qui­se­ram que fos­se sufo­ca­da. Por isso fomos man­da­dos para cá. E nós, senho­res, não somos lou­cos nem sádi­cos. E os que hoje nos dizem fas­cis­tas não sabem que mui­tos de nós luta­mos na Resistência, não sabem que, entre nós, há sobre­vi­ven­tes de Dachau e Buchenwald. Nós somos sol­da­dos e temos o dever de ven­cer. Portanto, para ser­mos pre­ci­sos, eu lhes faço uma per­gun­ta: a França deve per­ma­ne­cer na Argélia? Se a res­pos­ta é sim, devem acei­tar todas as neces­sá­ri­as con­sequên­ci­as.

Nada podia ser mais cla­ro. A esco­lha de uma con­fe­rên­cia de impren­sa ner­vo­sa, como ambi­en­te para a expli­ci­ta­ção ide­o­ló­gi­ca, eli­mi­na sub­ter­fú­gi­os e o ris­co da gra­tui­da­de. Possibilita evi­den­ci­ar o tom jor­na­lís­ti­co. É tam­bém um ges­to que des­ven­da a lin­gua­gem do fil­me e anun­cia o que vem de ime­di­a­to: a exi­bi­ção da tor­tu­ra, que até esse momen­to fora mais suge­ri­da do que vis­ta.

Não pos­so dei­xar de comen­tar a bre­ve mas sig­ni­fi­ca­ti­va sequên­cia da tor­tu­ra, abrin­do, antes, parên­te­ses: só fui assis­tir a A bata­lha de Argel em 1978, na Suécia, sete anos depois de fazer, com Pedro Chaskel, Não é hora de cho­rar (No es hora de llo­rar).4 Isso é impor­tan­te, pois a tor­tu­ra é apre­sen­ta­da de manei­ra mui­to seme­lhan­te nos dois fil­mes: dis­tan­ci­a­da, didá­ti­ca, expo­si­ti­va, sim­bó­li­ca. O que faz a dife­ren­ça resul­ta, pre­ci­sa­men­te, do que é par­ti­cu­lar aos gêne­ros a que cada um per­ten­ce. Sendo Não é hora de cho­rar um docu­men­tá­rio que uti­li­za téc­ni­cas de ence­na­ção, a vio­len­ta­ção físi­ca do ser huma­no ganhou com ser esque­má­ti­ca, qua­se grá­fi­ca. O silên­cio abso­lu­to da tri­lha sono­ra res­sal­tou a for­ça das ima­gens e dei­xou o espec­ta­dor sozi­nho com seus olhos. O con­tra­pon­to entre a sono­ri­da­de das entre­vis­tas e o silên­cio da tor­tu­ra pro­vo­ca uma que­bra dra­má­ti­ca que enri­que­ce a nar­ra­ti­va.

Pontecorvo, inver­sa­men­te, rea­li­zou um fil­me de ence­na­ção com base em téc­ni­cas e lin­gua­gens jor­na­lís­ti­cas, docu­men­tais. Utilizar, em toda sua cru­e­za, o mes­mo recur­so que eu e Pedro viría­mos a empre­gar pro­vo­ca­ria outra que­bra, empo­bre­ce­do­ra. Romperia com o essen­ci­al: tra­tar-se de um fil­me de ence­na­ção. Por outro lado, o som de gri­tos, gemi­dos e impro­pé­ri­os, ao esti­lo dos melo­dra­mas ou dos fil­mes de ação, tam­bém estra­ça­lha­ri­am o tom jor­na­lís­ti­co que carac­te­ri­za A bata­lha de Argel. Assim, se a sequên­cia é muda, não é silen­ci­o­sa. Comenta-a a mes­ma músi­ca que ser­ve de fun­do ao res­ga­te dos cor­pos das víti­mas dos aten­ta­dos. Se é dis­tan­ci­a­da, didá­ti­ca, expo­si­ti­va e sim­bó­li­ca, a inter­pre­ta­ção não está ausen­te. Corpos se con­tor­cem, emi­tem gri­tos mudos. Como qua­dros da Paixão.

26 de agos­to de 1957. A nar­ra­ti­va entra no des­fe­cho (90 minu­tos e 37 segun­dos). Começa a ofen­si­va final. Os outros dois mem­bros do Estado Maior da FLN são cer­ca­dos pelos para­que­dis­tas e explo­dem seu refú­gio, matan­do alguns sol­da­dos.

Em segui­da, Mathieu con­se­gue pren­der Kader e a mulher que par­ti­ci­pa­ra dos aten­ta­dos com os cabe­los pin­ta­dos de lou­ro. O coro­nel mos­tra res­pei­to pelo adver­sá­rio, mas con­si­de­ra tudo aca­ba­do. A mulher res­pon­de que Ali está na Casbah. Enquanto exis­tir, a FLN não será der­ro­ta­da. O espec­ta­dor, con­tu­do, sabe que Ali será pego.

Aos 102 minu­tos a nar­ra­ti­va vol­ta ao pon­to em que a aber­tu­ra parou: Ali la Pointe e seus com­pa­nhei­ros, encer­ra­dos na pare­de. É o clí­max. Dura cin­co minu­tos. Os fran­ce­ses explo­dem a casa. Tudo está aca­ba­do. Mathieu mos­tra-se fri­a­men­te satis­fei­to: um espe­ci­a­lis­ta que cons­ta­ta a cor­re­ção de seus méto­dos. A cena tem mais ou menos um minu­to. Se Ali la Pointe fos­se o prin­ci­pal pro­ta­go­nis­ta, a his­tó­ria esta­ria con­ta­da, este seria o fecho. Mas a popu­la­ção se trans­for­mou em povo.

Pontecorvo não se satis­faz. O epí­lo­go come­ça aos 108 minu­tos e 40 segun­dos – 11 de dezem­bro de 1960. A lin­gua­gem, ago­ra, é desa­bri­da e exclu­si­va­men­te jor­na­lís­ti­ca. O povo da Casbah des­ce para os limi­tes com a cida­de euro­peia numa insur­rei­ção desar­ma­da e heroi­ca, na qual, pela pri­mei­ra vez apa­re­cem ban­dei­ras. A polí­cia dis­pa­ra, espan­ca, pren­de, mas os pro­tes­tos con­ti­nu­am. E os “incom­pre­en­sí­veis” gri­tos agu­dos carac­te­rís­ti­cos dos anti­gos nôma­des varam noi­te e dia. Aos 113 minu­tos, o ver­da­dei­ro fecho: a guer­ra ter­mi­na, os fran­ce­ses con­cor­dam em dei­xar a Argélia. Toda a sequên­cia tem o tra­ta­men­to de um noti­ciá­rio de TV: a voz de um jor­na­lis­ta comen­ta e infor­ma.

A câme­ra e o tom de repor­ta­gem encon­tram sua con­sa­gra­ção, para não dei­xar dúvi­das sobre a lin­gua­gem do fil­me.

Luiz Alberto Sanz é pro­fes­sor de jor­na­lis­mo na Universidade Federal Fluminense, autor de Procedimentos meto­do­ló­gi­cos: fazen­do cami­nhos, ensaio sobre o ensi­no de jor­na­lis­mo (Senac, 2006). Texto ori­gi­nal­men­te publi­ca­do em Cinemais, núme­ro 17, Rio de Janeiro, maio/junho de 1999.

 

Notas

1. Bertolt Brecht. Teatro dia­lé­ti­co. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967, p. 281.

2. Idem, ibi­dem, p. 283.

3. Todas as cita­ções de A bata­lha de Argel são tira­das do pró­prio fil­me.

4. Pedro Chasquel e Luiz Alberto Sanz, No es hora de llo­rar, Santiago, Departamento de Cine de la Universidad de Chile, 1971. Documentário sobre a tor­tu­ra no Brasil, com base no depoi­men­to de cin­co revo­lu­ci­o­ná­ri­os bani­dos. Premiado com a Pomba de Ouro em Leipzig, RDA, no mes­mo ano.

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