Novas razões para comemorar o Dia Internacional da Mulher

Colunistas

08.03.16

Há ain­da um sen­ti­do em come­mo­rar o Dia Internacional da Mulher? A pri­mei­ra vez que ouvi esta per­gun­ta está­va­mos em ple­no bac­klash – ter­mo inglês cuja tra­du­ção por retro­ces­so põe a per­der a dimen­são de “rea­ção for­te, nega­ti­va e fre­quen­te­men­te rai­vo­sa a algo que acon­te­ceu, espe­ci­al­men­te uma mudan­ça soci­al ou polí­ti­ca”. Backlash é o títu­lo do livro que a femi­nis­ta nor­te-ame­ri­ca­na Susan Faludi publi­cou em 1991 com uma pes­qui­sa que iden­ti­fi­ca­va inú­me­ros exem­plos de rea­ção nega­ti­va às con­quis­tas das mulhe­res na vida públi­ca. A onda rea­ti­va che­gou ao Brasil no iní­cio dos anos 2000, quan­do os dis­cur­sos mais con­ser­va­do­res come­ça­ram a fazer algum tipo de ruí­do por aqui. Foi tam­bém quan­do mui­tas mulhe­res – femi­nis­tas ou não – come­ça­ram a negar a neces­si­da­de de haver um Dia Internacional da Mulher, data que pode­ria ser extin­ta como mar­ca de uma igual­da­de recém-con­quis­ta­da.

Hoje, no que tal­vez seja o auge da ter­cei­ra onda femi­nis­ta, a per­gun­ta sobre a vali­da­de do Dia Internacional da Mulher não vem neces­sa­ri­a­men­te do ini­mi­go con­ser­va­dor – embo­ra até pos­sa vir tam­bém –, mas está ins­ta­la­da den­tro daqui­lo que pos­so cha­mar, eco­an­do Judith Butler, de “pro­ble­mas de gêne­ro”. Até que pon­to faz sen­ti­do, em um con­tex­to de ques­ti­o­na­men­to de clas­si­fi­ca­ções de gêne­ro, a come­mo­ra­ção do Dia Internacional da Mulher, afir­ma­ção máxi­ma da iden­ti­da­de femi­ni­na? Para res­pon­der, é pre­ci­so retro­ce­der um pou­co – ape­nas no tem­po, é cla­ro – a fim de pen­sar sobre esse con­tex­to.

Quando, em 1990, a filó­so­fa Judith Butler publi­cou seu Problemas de gêne­ro, esta­va refle­tin­do sobre um pro­ble­ma her­da­do da segun­da onda femi­nis­ta, ergui­da nos anos 1960/1970: “a” mulher como uni­da­de abso­lu­ta repre­sen­ta­da, com carac­te­rís­ti­cas uni­ver­sais tal qual des­cri­tas por Simone de Beauvoir em “O segun­do sexo” e fun­da­men­to das pri­mei­ras rei­vin­di­ca­ções dos movi­men­tos femi­nis­tas. Nos anos 1980, uma ten­ta­ti­va de plu­ra­li­zar “as mulhe­res” pre­ten­dia dar con­ta da emer­gên­cia de dife­ren­tes con­tex­tos de opres­são femi­ni­na. Mulheres negras, bran­cas, ricas, pobres, oci­den­tais, ori­en­tais, tra­ba­lha­do­ras, mães, esco­la­ri­za­das ou anal­fa­be­tas não podi­am ser esta­bi­li­za­das na cate­go­ria “mulher”, sob pena des­ta cate­go­ria tor­nar-se para­do­xal­men­te aqui­lo que pre­ten­dia com­ba­ter. Ou o refe­ren­te “mulher” abria-se a pos­si­bi­li­da­des plu­rais, ou repre­sen­ta­ria ape­nas um gru­po mui­to res­tri­to de mulhe­res bran­cas, de clas­se média, de alta esco­la­ri­da­de, cujos ansei­os de eman­ci­pa­ção não eram coe­ren­tes com as con­di­ções pre­cá­ri­as e subal­ter­na da vida de inú­me­ras outras mulhe­res.

Dois exem­plos bem sim­ples: enquan­to a essas pare­cia fun­da­men­tal poder tra­ba­lhar, evi­den­te­men­te em pos­tos qua­li­fi­ca­dos con­quis­ta­dos a par­tir de for­ma­ção uni­ver­si­tá­ria, para mulhe­res pobres o tra­ba­lho nun­ca foi uma rei­vin­di­ca­ção, mas antes uma exi­gên­cia para sobre­vi­ver. O segun­do exem­plo diz res­pei­to à deman­da pelo direi­to ao orgas­mo, que mui­to mobi­li­zou donas de casa ame­ri­ca­nas bran­cas nos anos 1960/1970, no emba­lo da con­tra­cul­tu­ra. Para mulhe­res negra, o estig­ma da hiper­se­xu­a­li­za­ção de seus cor­pos exi­gia que a pau­ta sexu­al cami­nhas­se na dire­ção do fim da vio­lên­cia sexu­al.

Há um sen­ti­do polí­ti­co em ques­ti­o­nar que “a mulher” con­ti­nue a ser o sujei­to do femi­nis­mo, ain­da que naque­le momen­to ini­ci­al pare­ces­se uma injus­ti­ça fazer essa per­gun­ta. Meu inte­res­se pela filo­so­fia de Butler nas­ce jus­ta­men­te da per­cep­ção des­te para­do­xo: “Parece injus­to que logo ago­ra, que as mulhe­res estão alcan­çan­do a posi­ção de sujei­tos, venham as cor­ren­tes pós-moder­nas e digam que o sujei­to aca­bou”.

Dado esse con­tex­to de ques­ti­o­na­men­to em tor­no da cate­go­ria iden­ti­tá­ria mulher, me pare­ce que cabe hoje de novo per­gun­tar se ain­da faz sen­ti­do come­mo­rar o Dia Internacional da Mulher. Pergunta que ago­ra não é mais ori­gi­na­da num fal­so dis­cur­so de igual­da­de já con­quis­ta­da, mas que vem do reco­nhe­ci­men­to de outros pro­ble­mas de gêne­ros a enfren­tar. Um dos pro­ble­mas da ênfa­se polí­ti­ca na cate­go­ria “mulher” era sua defi­ni­ção por opo­si­ção a “homem”, res­trin­gin­do o uni­ver­so sexu­al e soci­al em dois gêne­ros, mas­cu­li­no e femi­ni­no, mar­ca­dos por uma divi­são bio­ló­gi­ca, natu­ral, e por­tan­to imu­tá­vel.

Se há gêne­ro, pas­sa a ser pre­ci­so então que haja mais de dois, aqui enten­den­do gêne­ro como um des­co­la­men­to que se dá a par­tir do movi­men­to de “tor­nar-se”, ver­bo refle­xi­vo que supõe, na sua defi­ni­ção, uma trans­for­ma­ção, pro­mo­ve uma mudan­ça e faz com que algo ou alguém dei­xe um esta­do e pas­se a outro.  A gran­de con­tri­bui­ção de Butler à filo­so­fia de Simone de Beauvoir é ampli­ar as pos­si­bi­li­da­des do tor­nar-se para além da fêmea que se tor­na mulher, do macho que se tor­na homem. Com isso, pas­sa a ser pos­sí­vel tra­ba­lhar com a ideia de gêne­ros como mais de dois, a fim de inter­ro­gar a fun­ção nor­ma­ti­va de pares como masculino/feminino ou homossexual/heterossexual.

Abaladas essas cate­go­ri­as, as for­mas de fazer polí­ti­ca dei­xa­ri­am de cir­cu­lar em tor­no de iden­ti­da­des para se apoi­ar em “fun­da­men­tos con­tin­gen­tes”. Quem diz con­tin­gên­cia diz posi­ções, evo­ca sig­ni­fi­can­tes como aci­den­tal, for­tui­to, ale­a­tó­rio, impre­vi­sí­vel, inde­ter­mi­na­do. Co-liga­ções são liga­ções sem estru­tu­ras hie­rár­qui­cas, rizo­má­ti­cas para ficar com o ter­mo con­sa­gra­do por Deleuze e tão em voga em tem­pos de ati­vis­mo nas redes soci­ais. A par­tir des­sas co-liga­ções, o Dia Internacional da Mulher pode ser res­sig­ni­fi­ca­do não ape­nas como uma data que afir­ma os direi­tos das mulhe­res, mas prin­ci­pal­men­te um dia de luta con­tra os pro­ble­mas de gêne­ros que nos ame­a­çam em retro­ces­sos mui­to mais gra­ves do que aque­les que Faludi iden­ti­fi­cou quan­do escre­veu seu Backlash, no iní­cio dos anos 1990. Os retro­ces­sos hoje são ain­da mais vio­len­tos, por­que não são ape­nas con­tra “nós, mulhe­res”, mas tam­bém con­tra todas as vozes que se insur­gi­ram: negras, putas, pobres, tran­se­xu­ais, tra­ves­tis, gays, que­ers, jovens das peri­fe­ri­as etc etc etc. Se o 8 de mar­ço puder ser não só das mulhe­res, pode­mos encon­trar novos moti­vos para come­mo­rar o Dia Internacional da Mulher.

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