O Alemão que perdeu a mão

No cinema

21.03.14

Mais que atu­al, Alemão, de José Eduardo Belmonte, é um fil­me urgen­te. Nisso resi­de sua for­ça, mas decer­to é tam­bém dis­so que resul­tam suas fra­gi­li­da­des.

Seu “assun­to” — a implan­ta­ção da UPP no mor­ro do Alemão e, de modo mais geral, a guer­ra entre polí­cia e tra­fi­can­tes pelo con­tro­le das fave­las cari­o­cas — segue fre­quen­tan­do as man­che­tes e os tele­jor­nais. Alguns per­so­na­gens reais que apa­re­cem no fil­me — como o gover­na­dor Sergio Cabral e o ex-pre­si­den­te Lula (este só em áudio) — ain­da são figu­ras-cha­ve da polí­ti­ca bra­si­lei­ra.

https://www.youtube.com/watch?v=ugEvUysEmGw

O ângu­lo esco­lhi­do para entrar nes­se ver­da­dei­ro cipo­al não pode­ria ser mais inte­res­san­te: um gru­po de poli­ci­ais infil­tra­dos no mor­ro para colher infor­ma­ções e faci­li­tar a inva­são “paci­fi­ca­do­ra”. Em vez do qua­dro geral, épi­co, do ban­gue-ban­gue, a ten­são claus­tro­fó­bi­ca de um punha­do de homens encur­ra­la­dos no ter­ri­tó­rio do ini­mi­go. Concentração espa­ci­al e tem­po­ral de tra­gé­dia, situ­a­ção explo­ra­da em inú­me­ros poli­ci­ais, thril­lers e fil­mes de guer­ra.

Ao desen­vol­ver esse belo argu­men­to, porém, Alemão pati­na, redun­da e per­de o gume em vári­os momen­tos, como se não tives­se se pre­pa­ra­do ade­qua­da­men­te para resol­ver as mui­tas equa­ções que ele mes­mo pro­põe.

Enxugando gelo

A pri­mei­ra e cru­ci­al des­sas equa­ções, a meu ver, é a que bus­ca con­ci­li­ar o fil­me de gêne­ro (no caso, “de ação”) e uma pro­pos­ta auto­ral, isto é, uma lei­tu­ra pes­so­al, em ter­mos de esté­ti­ca e inter­ven­ção polí­ti­ca, do uni­ver­so abor­da­do.

A pers­pec­ti­va polí­ti­ca está dada já na pri­mei­ra fra­se pro­fe­ri­da no fil­me, “enxu­gan­do gelo”, do rap homô­ni­mo de BNegão que faz par­te da óti­ma (mas uti­li­za­da em exces­so) tri­lha sono­ra. Ao con­trá­rio da mito­lo­gia mani­queís­ta pro­pa­ga­da inces­san­te­men­te pela mídia, Alemão não vê a vio­lên­cia nos mor­ros como uma guer­ra san­ta entre poli­ci­ais bons e tra­fi­can­tes mal­va­dos, mas como uma luta suja, fra­tri­ci­da e sem sen­ti­do, em que os dois lados se mis­tu­ram, se ali­men­tam reci­pro­ca­men­te e não saem do lugar. É nes­sa engre­na­gem per­ver­sa que os per­so­na­gens se deba­tem, como para­fu­sos tor­tos, mal encai­xa­dos.

A par­tir des­sa pre­mis­sa, cabia desen­vol­ver uma nar­ra­ti­va que inte­gras­se orga­ni­ca­men­te ao con­tex­to geral o sus­pen­se par­ti­cu­lar da situ­a­ção e o dra­ma de cada um dos per­so­na­gens cen­trais. É aqui que, a meu ver, Belmonte e seus rotei­ris­tas per­dem a mão.

Dramas em pro­fu­são

Há um núme­ro tal­vez exces­si­vo de focos dra­má­ti­cos. Há, entre outras coi­sas: o infil­tra­do (Marcelo Melo Jr.) que namo­ra a irmã (Aisha Jambo) de um tra­fi­can­te (Marco Sorriso); a ex-namo­ra­da (Mariana Nunes) do che­fão do trá­fi­co (Cauã Reymond) que está em poder dos poli­ci­ais; a rela­ção com­ple­xa de um poli­ci­al (Caio Blat) com o pai dele­ga­do (Antonio Fagundes); o con­fli­to entre dois infil­tra­dos (Milhem Cortaz e Gabriel Braga Nunes).

Articular esses vári­os dra­mas sobre­pos­tos exi­gi­ria um rotei­ro cer­ra­do e uma dire­ção segu­ra dig­nos de um Howard Hawks, um Billy Wilder, um Samuel Fuller ou, mais modes­ta­men­te, um Roberto Farias. Citei cine­as­tas tão dís­pa­res por­que são auto­res que tra­fe­gam pelo cine­ma de gêne­ro sem per­der a pega­da pes­so­al.

Aparentemente inse­gu­ro ou tate­an­te quan­to às regras do gêne­ro, e sem con­tar com um rotei­ro con­sis­ten­te, Belmonte per­de o equi­lí­brio entre as vári­as his­tó­ri­as e, para man­ter a ten­são, for­ça a mão aqui e ali: na tor­tu­ra explí­ci­ta a um poli­ci­al deti­do pelo trá­fi­co; na rei­te­ra­ção inces­san­te de pala­vrões gri­ta­dos, res­pi­ra­ção ofe­gan­te e pis­to­las em ris­te (um cli­chê popu­la­ri­za­do por Cidade de Deus e Tropa de eli­te); no melo­dra­ma pesa­do da rela­ção pai-filho etc.

Tão foras­tei­ro ao cine­ma de ação como seus per­so­na­gens são foras­tei­ros à fave­la, o cine­as­ta pare­ce ter fica­do mais com os caco­e­tes exte­ri­o­res do que com a sei­va do gêne­ro. Alguém dis­se mal­do­sa­men­te, mas não sem um fun­do de razão, que os ato­res pare­cem estar brin­can­do de moci­nho e ban­di­do.

Um dos pou­cos res­pi­ros do fil­me, no meio des­sa cris­pa­ção um tan­to arti­fi­ci­al, é o per­so­na­gem Doca (Otávio Muller, cada vez melhor), poli­ci­al infil­tra­do que se pas­sa por dono de piz­za­ria. É ele que intro­duz o humor, o rit­mo mais pau­sa­do, o sabor de vida coti­di­a­na neces­sá­rio para que os momen­tos de clí­max tenham efi­cá­cia e façam sen­ti­do. E é dele tam­bém a fra­se mais memo­rá­vel, pro­fe­ri­da qua­se no final.

Gênero e auto­ria

É mui­to sau­dá­vel a ten­ta­ti­va de cer­tos cine­as­tas bra­si­lei­ros de supe­rar a dico­to­mia cine­ma de arte x cine­ma de entre­te­ni­men­to, ou fil­me auto­ral x fil­me de gêne­ro. O pró­prio Belmonte, depois de qua­tro lon­gas radi­cal­men­te pes­so­ais e sem con­ces­sões (Subterrâneos, A con­cep­ção, Meu mun­do em peri­go e Se nada mais der cer­to), expe­ri­men­tou a comé­dia malu­ca com o irre­gu­lar Billi Pig.

Trabalhando com o thril­ler de hor­ror, em Quando eu era vivo o dire­tor Marco Dutra con­se­guiu mani­pu­lar de for­ma ori­gi­nal as regras e cli­chês do gêne­ro. Por inú­me­ras razões que não cabe dis­cu­tir aqui, não teve mui­to públi­co. Com Alemão, o resul­ta­do cine­ma­to­grá­fi­co é menos satis­fa­tó­rio, mas ao que pare­ce a bilhe­te­ria vai mui­to bem, obri­ga­do.

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