O belo e o feio na mostra de SP

No cinema

22.10.13

O grande mestre, de Wong Kar Wai

Segue a ple­no vapor a 37ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e os fil­mes vão se acu­mu­lan­do nas telas e na memó­ria. Já que não dá para falar de todos, vou comen­tar aqui, de modo qua­se tele­grá­fi­co, alguns que se des­ta­cam por um ou outro moti­vo.

De mara­vi­lhas bem conhe­ci­das (os clás­si­cos de Ozu, Kubrick, Resnais…) nem é pre­ci­so falar. Todos valem a pena. Vamos aos “outros”. Já que todo fil­tro é sub­je­ti­vo, come­ço pelos que mais me toca­ram.

O docu­men­tá­rio A Fuller life, sobre o gran­de Samuel Fuller, rea­li­za­do por sua filha Samantha (pre­sen­te à mos­tra), é uma joia de pri­mei­ra gran­de­za, sobre­tu­do por tra­zer à luz um rico mate­ri­al iné­di­to encon­tra­do pela dire­to­ra em meio aos obje­tos de seu pai: fil­mes rea­li­za­dos por ele no front da Segunda Guerra, quan­do ser­viu no pelo­tão Big Red One, cele­bri­za­do em uma de suas obras-pri­mas. Nunca ficou tão cla­ra a fra­se de Fuller sobre o cine­ma como um cam­po de bata­lha.

http://youtu.be/f41vkreGttc

A guer­ra e a fes­ta

Se em Fuller (qual­quer que seja o tema ou o gêne­ro) o cine­ma é guer­ra, em Ivan Cardoso ele é fes­ta. O baca­nal do dia­bo e outras fitas proi­bi­das de Ivan Cardoso tes­te­mu­nha esse car­na­val per­ma­nen­te do espí­ri­to e da inte­li­gên­cia ao jun­tar vin­te e qua­tro cur­tas rea­li­za­dos entre 1971 e 2013 pelo cri­a­dor do “ter­rir”. Cinema de bai­xo orça­men­to e alta inven­ção, que une a arte de van­guar­da (Cage, Joyce, Oiticica, Bataille) à tra­di­ção da chan­cha­da e à cul­tu­ra popu­lar bra­si­lei­ra, num des­ca­ra­do cur­to-cir­cui­to trash.

Parodiando o poli­ci­al, o melo­dra­ma, o ter­ror, o fil­me de aven­tu­ras e até o docu­men­tá­rio patrió­ti­co, Cardoso mis­tu­ra Egito com Copacabana, trans­for­ma Bob Dylan num gara­nhão entre nin­fe­tas cari­o­cas, ultra­pas­sa as fron­tei­ras do por­no­grá­fi­co expon­do o cor­po femi­ni­no num paro­xis­mo cafa­jes­te que aca­ba por fazer sua pró­pria crí­ti­ca. Tudo é faz-de-con­ta nes­se com­pên­dio cri­a­ti­vo de um de nos­sos cine­as­tas mais inde­pen­den­tes e talen­to­sos.

Outra vete­ra­na das bata­lhas “mar­gi­nais”, a atriz-dire­to­ra Helena Ignez, traz à mos­tra duas obras mar­ca­das pelo sig­no da urgên­cia, o lon­ga semi­do­cu­men­tal Feio, eu? e o cur­ta fic­ci­o­nal Poder dos afe­tos. O pri­mei­ro, fei­to a par­tir de uma ofi­ci­na de ato­res rea­li­za­da no Rio, é, na defi­ni­ção da pró­pria rea­li­za­do­ra, um “fil­me-mani­fes­to”, a afirmação/celebração dos mar­gi­na­li­za­dos em nos­sa soci­e­da­de (o negro, o índio, o pobre, o lou­co), em tor­no de dois eixos explí­ci­tos: a des­cons­tru­ção da bele­za con­ven­ci­o­nal ope­ra­da por Rimbaud em Uma tem­po­ra­da no infer­no e a gene­ro­si­da­de da visão antro­po­ló­gi­ca de Eduardo Viveiros de Castro.

http://youtu.be/uxPWH3r8u0E

Poder dos afe­tos, apre­sen­ta­do como um esbo­ço de per­so­na­gens e situ­a­ções para o pró­xi­mo lon­ga de Helena, Ralé, traz uma série de situ­a­ções para­le­las: a rela­ção entre uma bel­da­de (Djin Sganzerla) e um ladrão, a ati­vi­da­de mís­ti­ca de um ex-con­de (Ney Matogrosso) con­ver­ti­do à ayahu­as­ca, um fil­me den­tro do fil­me, rea­li­za­do por um meni­no-pro­dí­gio que reme­te paro­di­ca­men­te a Orson Welles e a Rogério Sganzerla. Cinema de pai­xão, inven­ção e humor.

Beleza em exces­so

No polo opos­to — e um dos encan­tos da mos­tra é jus­ta­men­te reve­lar a ampli­dão e vari­e­da­de do espec­tro do cine­ma — che­ga­mos à esté­ti­ca extre­ma­men­te rebus­ca­da de Wong Kar Wai e seu O gran­de mes­tre. Para quem conhe­ce um pou­co da obra do dire­tor de Amor à flor da pele, 2046 e Um bei­jo rou­ba­do, a novi­da­de aqui é a mudan­ça de tema: sai o amor, entra o kung fu. É a his­tó­ria roman­ce­a­da de Yip Man (Tony Leung), mes­tre, entre outros, de Bruce Lee.

No mais, é o mes­mo manei­ris­mo for­mal. Não há pra­ti­ca­men­te nenhu­ma ima­gem “crua”, pois todas são sub­me­ti­das a algu­ma dis­tor­ção em sua com­po­si­ção (pela con­tra­luz, pelas névo­as, fil­tros, refle­xos, fusões) e em seu rit­mo (pela câme­ra len­ta ou ace­le­ra­da, pelos fre­e­zings etc.). Uma sim­ples gota de água — ou de san­gue -, fil­ma­da em hiper­clo­se, em câme­ra len­ta, sob um ruí­do estron­do­so, con­ver­te-se numa apo­te­o­se audi­o­vi­su­al. Os fãs não se decep­ci­o­na­rão, até por­que o amor não rea­li­za­do, recor­ren­te na fil­mo­gra­fia do cine­as­ta, tam­bém com­pa­re­ce. Mas é um fil­me boni­to demais — com toda a for­ça nega­ti­va (exces­so, dema­sia) que o advér­bio com­por­ta.

http://youtu.be/81YTj-y74Pc

No depar­ta­men­to das boas des­co­ber­tas, des­ta­ca-se o vene­zu­e­la­no Pelo malo (“Cabelo ruim”), de Mariana Rondón, pre­mi­a­do como melhor fil­me no recen­te Festival de San Sebastián. Situado numa peri­fe­ria bra­ba de Caracas (seme­lhan­te em qua­se tudo à das gran­des cida­des bra­si­lei­ras), con­ta a his­tó­ria de um meni­no mula­to cuja obses­são é ali­sar o cabe­lo e se tor­nar um can­tor de suces­so. Uma nar­ra­ti­va aten­ta às suti­le­zas do olhar e à cons­tru­ção da iden­ti­da­de de cada per­so­na­gem e, ao mes­mo tem­po, poro­sa à vida soci­al e polí­ti­ca, ten­do como dis­cre­to pano de fun­do o mes­si­a­nis­mo em tor­no do então ago­ni­zan­te pre­si­den­te Hugo Chávez.

http://youtu.be/CoaGhgJXAMs

Meninos infra­to­res

Outra sen­sí­vel mira­da femi­ni­na ao uni­ver­so dos meni­nos desa­jus­ta­dos é De menor, da estre­an­te Caru Alves de Souza. O fil­me, que ven­ceu o recen­te Festival do Rio, toca no tema atu­a­lís­si­mo da redu­ção da mai­o­ri­da­de penal ao nar­rar a his­tó­ria de uma jovem defen­so­ra públi­ca de ado­les­cen­tes infra­to­res. Um dos pon­tos de inte­res­se do fil­me é o fato de ser ambi­en­ta­do em Santos, cida­de pou­co explo­ra­da em nos­so cine­ma.

Outros fil­mes de des­ta­que pro­gra­ma­dos para os pró­xi­mos dias: o docu­men­tá­rio Outro ser­tão, de Adriana Jacobsen e Soraia Vilela, sobre a pre­sen­ça de Guimarães Rosa na Alemanha nazis­ta; Avanti popo­lo, de Michael Wahrmann, que traz Carlos Reichenbach como ator; Bertolucci por Bertolucci, docu­men­tá­rio de Luca Guadagnino e Walter Fasano; 3x3D, de Jean-Luc Godard, Peter Greenaway e Edgar Pêra; Educação sen­ti­men­tal, o novo de Julio Bressane; e, para quem dis­põe de tem­po e paci­ên­cia, O sécu­lo do nas­ci­men­to, de seis horas de dura­ção, do fili­pi­no Lav Diaz, home­na­ge­a­do da mos­tra.

Ainda sobre a Mostra de São Paulo, leia tam­bém:
A melan­co­lia dos Coen e a mos­tra de SP

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