O Brasil possível de Brincante

No cinema

05.12.14

Um dos mais lamen­tá­veis sub­pro­du­tos da pola­ri­za­ção exa­cer­ba­da das últi­mas elei­ções no Brasil foi o rea­vi­va­men­to de um odi­o­so e bur­ro pre­con­cei­to con­tra o Nordeste e seu povo. Brincante, de Walter Carvalho, é o melhor antí­do­to a essa estu­pi­dez. Pois boa par­te da rique­za e diver­si­da­de da cul­tu­ra nor­des­ti­na encon­tra-se ali, con­den­sa­da e cata­li­sa­da na figu­ra de um artis­ta ímpar, o músi­co, dan­ça­ri­no, coreó­gra­fo, can­tor, com­po­si­tor, ator e mala­ba­ris­ta per­nam­bu­ca­no Antônio Nóbrega.

Não se tra­ta pro­pri­a­men­te de um docu­men­tá­rio, no sen­ti­do con­ven­ci­o­nal do ter­mo, mas de uma via­gem poé­ti­ca pelo uni­ver­so de Nóbrega, ten­do como eixo a tra­je­tó­ria de seu per­so­na­gem mais emble­má­ti­co, o pica­res­co Tonheta.

A nar­ra­ti­va, hete­ro­gê­nea e epi­só­di­ca, acom­pa­nha peri­pé­ci­as de Tonheta – qua­se sem­pre con­tra­ce­nan­do com Rosane Almeida, par­cei­ra artís­ti­ca e amo­ro­sa de Nóbrega – e, para­le­la­men­te, o des­lo­ca­men­to geo­grá­fi­co do casal, dos con­fins do ser­tão até a gran­de metró­po­le, São Paulo.

Fábula e docu­men­to

O tom de fábu­la, em que a lin­gua­gem dra­ma­túr­gi­ca e visu­al é a do cir­co, ou antes a do tra­di­ci­o­nal tea­tro de mamu­len­go, alter­na-se com o regis­tro mais pro­pri­a­men­te docu­men­tal de ensai­os e apre­sen­ta­ções de rua dos espe­tá­cu­los de Nóbrega. São vasos comu­ni­can­tes, que se com­ple­tam e se trans­fun­dem.

É nas ruas de São Paulo que o fil­me, a meu ver, ganha seu ple­no sen­ti­do, diz a que veio, mar­ca uma posi­ção esté­ti­ca e polí­ti­ca. Ao inva­dir com sua tru­pe luga­res como o Minhocão, o vão livre do Masp, vagões e pla­ta­for­mas do metrô, o par­que Trianon ou os fer­vi­lhan­tes cal­ça­dões do cen­tro velho, Nóbrega efe­tua uma res­sig­ni­fi­ca­ção dos espa­ços, fazen­do impe­rar por um momen­to no rei­no do tra­ba­lho e do auto­mó­vel o homo ludens. (Não por aca­so, o livro de Johan Huizinga com esse títu­lo apa­re­ce bre­ve­men­te nas mãos do artis­ta.)

Pois não se tra­ta de “pre­ser­var mani­fes­ta­ções fol­cló­ri­cas” como se fos­sem peças de museu ou de turis­mo, mas de cap­tar sua potên­cia e infun­dir sua vita­li­da­de no pre­sen­te e no futu­ro. Para isso é pre­ci­so cri­ar, trans­for­mar, dia­lo­gar com outras refe­rên­ci­as. Com Nóbrega e seus par­cei­ros-dis­cí­pu­los, o fre­vo, o mara­ca­tu, o sam­ba de roda, a capo­ei­ra e o for­ró apa­re­cem trans­fi­gu­ra­dos e esti­li­za­dos como dan­ça moder­na e uni­ver­sal. A raiz em comu­ni­ca­ção com o cos­mo, o regi­o­nal com o pla­ne­tá­rio.

Contraste e estra­nha­men­to

Senhores abso­lu­tos do enqua­dra­men­to e da luz, Walter Carvalho e seu dire­tor de foto­gra­fia Jacques Cheuiche usam sua arte para poten­ci­a­li­zar a arte de Antônio Nóbrega, sem sobre­por-se a ela, sem “per­fu­mar a flor”, como diria João Cabral de Melo Neto. O mes­mo se pode dizer da ceno­gra­fia e dos figu­ri­nos.

As cores exu­be­ran­tes, o for­te con­tras­te, a luz notur­na irre­al das cenas de Tonheta estão em per­fei­to acor­do com o tom fabu­lar da nar­ra­ti­va, bem como, no outro extre­mo, o mono­cro­ma­tis­mo da extra­or­di­ná­ria sequên­cia de dan­ça em que homens nas­cem dra­ma­ti­ca­men­te da ter­ra sob os acor­des pun­gen­tes da Bachiana nº 4 de Villa-Lobos. Se a arqui­te­tu­ra nie­meye­ri­a­na do Auditório Ibirapuera é abs­tra­ta, assép­ti­ca e bicro­má­ti­ca (bran­ca e ver­me­lha), os dan­ça­ri­nos que a inva­dem ves­tem-se com rou­pas pro­sai­cas e coti­di­a­nas de tex­tu­ras e cores diver­sas. Há sem­pre um ele­men­to de con­tras­te e estra­nha­men­to, uma faís­ca de inqui­e­ta­ção.

Num fil­me reple­to de momen­tos lumi­no­sos, em que a decu­pa­gem e a mon­ta­gem real­çam a vibra­ção poé­ti­ca de Nóbrega, tal­vez o mais anto­ló­gi­co e sig­ni­fi­ca­ti­vo seja aque­le em que o artis­ta, cami­nhan­do e dan­çan­do na con­tra­mão de um mar de gen­te numa rua do cen­tro pau­lis­ta­no, can­ta os ver­sos de sua can­ção “Chegança”, em que um índio, ao ser sur­pre­en­di­do em sua rede pelos homens arma­dos de uma esqua­dra por­tu­gue­sa, levan­ta-se de bor­du­na na mão e diz: “O Brasil vai come­çar”. Está come­çan­do até ago­ra.

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