O capital: tema atual, cinema velho

No cinema

11.10.13

Aos 80 anos, Costa-Gavras segue fiel ao seu cine­ma de temá­ti­ca e moti­va­ção polí­ti­ca. Em meio sécu­lo de car­rei­ra, denun­ci­ou ou fus­ti­gou a dita­du­ra dos coro­néis da Grécia (Z), o tota­li­ta­ris­mo sta­li­nis­ta (A con­fis­são), as dita­du­ras lati­no-ame­ri­ca­nas (Estado de sítio, Missing), o rea­ci­o­na­ris­mo da Igreja (Amen) e o sen­sa­ci­o­na­lis­mo da impren­sa (O quar­to poder). Agora che­gou a vez de exa­mi­nar, em O capi­tal, o poder finan­cei­ro trans­na­ci­o­nal que sufo­ca paí­ses, empre­sas e indi­ví­du­os.

http://www.youtube.com/watch?v=NpVEo-naSXY

Se o sen­so de opor­tu­ni­da­de do cine­as­ta é indis­cu­tí­vel, o mes­mo não se pode dizer da efi­cá­cia polí­ti­ca e do alcan­ce esté­ti­co de seus fil­mes. Mesmo os mais bem cons­truí­dos e ence­na­dos, como Z e A con­fis­são, não ocul­tam uma sim­pli­fi­ca­ção mani­queís­ta que, ao fim e ao cabo, pro­duz no espec­ta­dor medi­a­na­men­te escla­re­ci­do uma sen­sa­ção catár­ti­ca e apa­zi­gua­do­ra: esta­mos do lado do bem, afi­nal. A par dis­so, são obras qua­se abso­lu­ta­men­te con­ven­ci­o­nais em ter­mos nar­ra­ti­vos, ade­rin­do aos códi­gos dos gêne­ros tra­di­ci­o­nais, em espe­ci­al o thril­ler, o poli­ci­al e o melo­dra­ma.

Finanças nebu­lo­sas, dra­ma banal

O capi­tal não foge à regra. Por trás (ou à fren­te) de uma tra­ma finan­cei­ra nebu­lo­sa, em que um fun­do de inves­ti­men­to nor­te-ame­ri­ca­no ten­ta tomar o con­tro­le de um gran­de ban­co fran­cês, desen­ro­la-se um dra­ma huma­no bas­tan­te banal, cen­tra­do em Marc Tourneuil (Gad Elmaleh), um jovem exe­cu­ti­vo que bus­ca esca­par das puxa­das de tape­te de seus pares a fim de se man­ter na pre­si­dên­cia do ban­co e con­se­guir cada vez mais dinhei­ro e poder “para ser res­pei­ta­do”. Ele não tem tem­po para a mulher (que con­ser­va um resquí­cio de cons­ci­ên­cia soci­al e fun­ci­o­na como um parâ­me­tro éti­co cada vez mais esma­e­ci­do e dis­tan­te) e para o filho, um pré-ado­les­cen­te mes­me­ri­za­do por apa­re­lhos ele­trô­ni­cos, como 99% de sua gera­ção.

Há outros dois con­tra­pon­tos morais ao alpi­nis­mo voraz de Tourneuil: um tio de esquer­da e uma exe­cu­ti­va boni­ta e bri­lhan­te, espe­ci­a­lis­ta em mer­ca­dos asiá­ti­cos. É para eles que Costa-Gavras diri­ge nos­sa sim­pa­tia, fazen­do-nos tor­cer para que rege­ne­rem o pro­ta­go­nis­ta e o sal­vem de si mes­mo. De res­to, é uma bri­ga de foi­ce para ver quem é mais esper­to e ines­cru­pu­lo­so, ain­da que o fil­me ten­te dife­ren­ci­ar um modo ame­ri­ca­no, mais “sel­va­gem”, e outro euro­peu, mais “huma­no”, de fazer dinhei­ro.

Não é mui­to dife­ren­te, no fun­do, de Wall Street, o melo­dra­ma de Oliver Stone que con­tra­pu­nha espe­cu­la­do­res mal­va­dos e espe­cu­la­do­res bon­zi­nhos.

O fas­cí­nio do supér­fluo

Há pelo menos dois pro­ble­mas cen­trais em O capi­tal, mes­mo den­tro do qua­dro do cine­ma habi­tu­al de Costa-Gavras. O pri­mei­ro é que ele pare­ce inde­ci­so quan­to ao enfo­que nar­ra­ti­vo. Há um esbo­ço de dis­tan­ci­a­men­to irô­ni­co, bre­ch­ti­a­no, quan­do o pro­ta­go­nis­ta se diri­ge dire­ta­men­te ao espec­ta­dor, mas isso acon­te­ce ape­nas na pri­mei­ra e na últi­ma cena. Entre uma e outra, tra­ta-se de uma nar­ra­ti­va rea­lis­ta con­ven­ci­o­nal e não mui­to rigo­ro­sa, já que o pon­to de vis­ta de Tourneuil (a “pri­mei­ra pes­soa”) é aban­do­na­do em vári­os momen­tos para mos­trar (em “ter­cei­ra pes­soa”) o que os outros per­so­na­gens fazem às suas cos­tas.

Outro pon­to pro­ble­má­ti­co é o modo como o fil­me retra­ta o esti­lo de vida do pro­ta­go­nis­ta, numa suces­são fre­né­ti­ca de ambi­en­tes e cená­ri­os que pare­cem saí­dos de um best-sel­ler de Harold Robbins: jati­nhos, iates, palá­ci­os, bel­da­des exó­ti­cas, fes­tas naba­bes­cas. Há um indis­far­çá­vel fas­cí­nio pelos sig­nos (ou antes, cli­chês) des­se mun­do de des­per­dí­cio que Costa-Gavras pre­ten­de cri­ti­car. Alguém pode­rá dizer que essa mes­ma ambi­gui­da­de apa­re­ce num fil­me como A doce vida, mas é como se Fellini tives­se cons­ci­ên­cia de suas pró­pri­as con­tra­di­ções a pon­to de virá-las do aves­so, sem falar da inven­ção nar­ra­ti­va e visu­al que con­tras­ta com o pro­saís­mo de O capi­tal.

O ciné­fi­lo que está à pro­cu­ra de uma expres­são esté­ti­ca do poder abso­lu­to do deus dinhei­ro em nos­sa épo­ca encon­tra­rá mais ali­men­to na sín­te­se bru­tal de Cosmópolis, de Cronenberg, ou na cola­gem pro­vo­ca­do­ra de Filme soci­a­lis­mo, de Godard, do que na pro­fu­são de cenas, ambi­en­tes e situ­a­ções redun­dan­tes des­te O capi­tal. Pois, afi­nal de con­tas, esta­mos falan­do de cine­ma.

http://www.youtube.com/watch?v=U_Oc6tpITi4

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