O casamento e outras cerimônias

Cinema

15.04.13

De 16 a 27 de abril o IMS-RJ pro­mo­ve a mos­tra Robert Altman: o casa­men­to e outras cerimô­ni­as, reu­nin­do nove lon­gas do cine­as­ta ame­ri­ca­no. Durante a mos­tra, no dia 20, acon­te­ce­rá o lan­ça­men­to do DVD de Cerimônia de casa­men­to pela cole­ção IMS, com exi­bi­ção do fil­me segui­da de deba­te aber­to ao públi­co.

"Cerimônia de casamento", de Robert Altman

Uma intro­mis­são sub­ver­si­va na tra­di­ção cri­a­da em Hollywood, os fil­mes de Robert Altman são uma espé­cie de casa­men­to entre a tra­di­ção do cine­ma nor­te-ame­ri­ca­no e uma recu­sa des­sa tra­di­ção, entre uma ordem e uma desor­dem nar­ra­ti­va, entre con­cen­tra­ção e dis­per­são, impro­vi­sa­ção e pla­ne­ja­men­to. Ao lado da noi­va, mas inca­paz de man­ter o foco na cerimô­nia, o noi­vo pare­ce ter um pé no altar e outro na por­ta da igre­ja, com von­ta­de de estar ao mes­mo tem­po nos dois luga­res.

Estamos em Hollywood e simul­ta­ne­a­men­te fora de lá: a câme­ra não vê a cena daque­le ângu­lo cen­tral, pri­vi­le­gi­a­do, nem con­se­gue impe­dir que um ges­to secun­dá­rio sal­te ao pri­mei­ro pla­no e des­vie a aten­ção. No cine­ma de Altman, nem a ação se vol­ta espe­ci­al­men­te para a câme­ra, nem a câme­ra pare­ce vol­ta­da espe­ci­al­men­te para a ação cen­tral. Perde-se em ano­ta­ções que pare­cem irre­le­van­tes, des­via o olhar para um ges­to e logo o aban­do­na no ar em bus­ca de outro. E, prin­ci­pal­men­te: come­ça a ouvir algo e em segui­da esti­ca o ouvi­do para todo e qual­quer ruí­do, todo e qual­quer peda­ço de con­ver­sa. Atropela as falas, cor­ta o sen­ti­do dos diá­lo­gos — ou suge­re um outro pos­sí­vel sig­ni­fi­ca­do para o dis­cur­so por meio de um sem núme­ro de pala­vras cru­za­das.

Como este ges­to nar­ra­ti­vo é uma pre­sen­ça cons­tan­te nos fil­mes do dire­tor, que se impõe como orga­ni­za­dor do pro­ces­so nar­ra­ti­vo, tal­vez seja pos­sí­vel dizer que a ver­da­dei­ra ques­tão do cine­ma de Robert Altman este­ja nes­te con­vi­te a apre­en­der a ima­gem como uma for­ma aber­ta, sem pare­des, e não ape­nas sem a quar­ta pare­de do tea­tro. Aberta para todos os lados, a ima­gem exi­ge um olhar pron­to a ver simul­ta­ne­a­men­te o que pare­ce ser o cen­tro da cena, o que está fora do cen­tro e aqui­lo que nem mes­mo está mate­ri­al­men­te visí­vel na cena mas faz par­te dela: fora de qua­dro, mas sua pró­pria essên­cia.

"Cerimônia de casamento", de Robert Altman

Talvez se tra­te de uma ten­ta­ti­va de com­por uma dra­ma­tur­gia cine­ma­to­grá­fi­ca a par­tir da infor­ma­ção simul­tâ­nea que o espec­ta­dor rece­be da par­te ima­gem visu­al, a do cine­ma, a da pin­tu­ra, a do dese­nho, a da foto­gra­fia. Talvez se tra­te de uma ques­tão à qual a pro­du­ção cine­ma­to­grá­fi­ca dedi­cou espe­ci­al aten­ção entre o final da déca­da de 1960 e o come­ço da déca­da de 1970. Dois exem­plos para recu­pe­rar a memó­ria: uma comé­dia fei­ta qua­se somen­te de ima­gens sem pala­vras, Tempo de diver­são (Playtime, 1967), de Jacques Tati, onde três, qua­tro ou mais ações ocor­rem simul­ta­ne­a­men­te den­tro de cada pla­no, e uma comé­dia fei­ta qua­se ape­nas de diá­lo­gos, que se super­põem na fai­xa sono­ra como os ges­tos se super­põem em Tati, o fil­me que cha­mou a aten­ção de todos para o cine­ma de Altman: MASH (1970).

Tudo se move, e ao mes­mo tem­po. É como se o cine­ma  — não os fil­mes, os modos de pro­du­ção ou qual­quer par­ti­cu­la­ri­da­de do meio artís­ti­co, téc­ni­co e econô­mi­co da ati­vi­da­de cine­ma­to­grá­fi­ca, mas o cine­ma enquan­to um ins­tru­men­to sen­sí­vel para melhor com­pre­en­são do mun­do em que vive­mos, fos­se o ver­da­dei­ro tema dos fil­mes de Robert Altman. Se assim for, tal­vez o pla­no de aber­tu­ra de O joga­dor (The player, 1992) ocu­pe uma posi­ção de des­ta­que entre seus qua­se 90 fil­mes e pos­sa ser vis­to como uma espé­cie de reto­ma­da, sín­te­se, reor­ga­ni­za­ção, refil­ma­gem da cons­tru­ção dra­má­ti­ca de Cerimônia de um casa­men­to (A Wedding, 1978).

Desse modo, para melhor se diver­tir com Cerimônia de casa­men­to, que o Instituto Moreira Salles dis­tri­bui ago­ra em DVD, con­vém tal­vez pegar na memó­ria a aber­tu­ra de O joga­dor como algo entre trai­ler e pos­fá­cio a esse fil­me, nas­ci­do segun­do Altman da von­ta­de de “usar duas câme­ras e dis­pa­rar 500 mil pés de fil­me em tor­no de 48 per­so­na­gens numa fes­ta de casa­men­to”.

"Cerimônia de casamento", de Robert Altman

Imaginemos, a cami­nho da cerimô­nia de casa­men­to de Muffin Brenner e Dino Corelli, um pas­seio lon­go, com pou­co mais de oito minu­tos, como o da câme­ra de O joga­dor em tor­no de per­so­na­gens que cru­zam o pátio de entra­da de um estú­dio de cine­ma. O pas­seio come­ça num qua­dro (uma cena de fil­ma­gem do tem­po do cine­ma mudo) na antes­sa­la do dire­tor do estú­dio (na ver­da­de come­ça na adver­tên­cia: “silên­cio no estú­dio!” e na cla­que­te que anun­cia “sequên­cia 1, toma­da 10”). A recep­ci­o­nis­ta entra em cena para aten­der o tele­fo­ne (depois que uma voz fora de qua­dro orde­na: “ação!”) e é logo adver­ti­da para jamais dizer que Joel Levison ain­da não che­gou (“ele está sem­pre aqui; diga que está em reu­nião, mas ele está sem­pre aqui”) enquan­to a ima­gem, após recu­ar do qua­dro para ver a recep­ci­o­nis­ta e a secre­tá­ria, sai para a rua que liga os vári­os escri­tó­ri­os do estú­dio (a recep­ci­o­nis­ta deve sair cor­ren­do, orde­na a secre­tá­ria, para pegar os jor­nais e a cor­res­pon­dên­cia antes da che­ga­da do che­fe). Já no espa­ço aber­ta, a ima­gem sobe, acom­pa­nha a secre­tá­ria, muda de dire­ção ao des­co­brir um car­ro que che­ga veloz e vem com ele até um outro escri­tó­rio, o do pro­du­tor Griffin Mill, que a duras penas con­se­gue se livrar de um rotei­ris­ta ansi­o­so, ten­tan­do ante­ci­par uma reu­nião mar­ca­da para a sema­na seguin­te.

O pas­seio não se inter­rom­pe aí. Entre mui­tos outros inci­den­tes e obser­va­ções dis­per­sas, a câme­ra pas­sa por japo­ne­ses em visi­ta ao estú­dio, por uma jovem de ver­me­lho pare­ci­da com Rebecca de Mornay, pelo comen­tá­rio de dois pro­du­to­res sobre a ven­da do estú­dio, pelo atro­pe­la­men­to de um ciclis­ta, por uma con­ver­sa sobre a opo­si­ção entre fil­mes de pla­nos lon­gos e aque­les outros fei­tos como cli­pes musi­cais (cor­ta! cor­ta! cor­ta!), por um visi­tan­te pare­ci­do com Scorsese, por um rotei­ris­ta com um pro­je­to ins­pi­ra­do numa mis­tu­ra de Uma lin­da mulher e Os deu­ses devem estar lou­cos. Assim, enquan­to pare­ce falar de tudo ao mes­mo tem­po e de nada em par­ti­cu­lar, como um bate-papo dis­per­so e sem rumo cer­to, o fil­me colo­ca o espec­ta­dor den­tro da his­tó­ria que vai con­tar adi­an­te, pou­co antes de efe­ti­va­men­te come­çar a con­tá-la.

http://www.youtube.com/watch?v=0epB5Z6ijpk

Lembremos a cena como um pos­fá­cio a Cerimônia de casa­men­to, entre outros moti­vos por­que o ritu­al do casa­men­to entre a her­dei­ra dos Brenner e o her­dei­ro dos Corelli é uma his­tó­ria con­ta­da nes­se mes­mo tom de múl­ti­pla cerimô­nia (a do nar­ra­dor, a dos noi­vos, a dos con­vi­da­dos e a dos intér­pre­tes, sem esque­cer a do espec­ta­dor no cine­ma) e com um espe­ci­al sabor de um post-scrip­tum: todas as mui­tas coi­sas que ocor­rem pare­cem um fim de fes­ta, o resul­ta­do de coi­sas vivi­das antes — umas tan­tas his­tó­ri­as entre o noi­vo e a irmã da noi­va, entre o irmão da noi­va e os com­pri­mi­dos para epi­lep­sia, entre os paren­tes do noi­vo e a máfia. Um pan­demô­nio: antes de come­çar, a fes­ta já aca­bou.

* José Carlos Avellar é coor­de­na­dor de cine­ma do IMS.

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