O cérebro na ficção

Literatura

18.09.12

É pos­sí­vel cons­ta­tar que o cére­bro anda ganhan­do mais aten­ção dos escri­to­res de fic­ção nas últi­mas déca­das. Faz todo sen­ti­do que isso acon­te­ça, já que a fic­ção sem­pre lida com as ima­gens que o homem faz de si mes­mo, as metá­fo­ras de iden­ti­da­de mais cor­ren­tes e con­vin­cen­tes de cada épo­ca, e a neu­ro­lo­gia vem nos dizen­do há algum tem­po que todo o espe­tá­cu­lo assom­bro­so da nos­sa cons­ci­ên­cia acon­te­ce, ao que tudo indi­ca, den­tro do nos­so cére­bro.

Toda a dis­cus­são mile­nar sobre dua­lis­mo, sobre men­te e cor­po, toda a espe­cu­la­ção se a nos­sa alma se loca­li­za no cora­ção ou nos pés, tudo isso pare­ce per­der a rele­vân­cia dian­te des­sa equi­va­lên­cia cla­ra e inequí­vo­ca: nós somos os nos­sos cére­bros. Como se a neu­ro­ci­ên­cia esti­ves­se dizen­do: tome isso, alma e sub­je­ti­vi­da­de! Joguem fora esses pneu­mas aí, esses fan­tas­mi­nhas cama­ra­das, esses apa­ra­tos psí­qui­cos chei­os de nomes em latim e ale­mão. Nós final­men­te encon­tra­mos o que impor­ta, e ele fica aqui pipo­can­do de for­ma mam­bem­be e des­con­tí­nua, even­tos bioquí­mi­cos num ban­do de car­ne enro­di­lha­da que ago­ra vamos recor­tar, cutu­car e obser­var o fun­ci­o­na­men­to com a res­so­nân­cia mag­né­ti­ca. Logo mais cha­ma­re­mos vocês das huma­ni­da­des moles para con­tar o que é que faz o quê.

Consenso cien­tí­fi­co ou não, o sen­so comum ain­da não mas­ti­gou e engo­liu mui­to bem a ideia de que nos­sa cons­ci­ên­cia acon­te­ce no cére­bro. Do con­trá­rio, fala­ría­mos mui­to mais do nos­so cór­tex, hipo­tá­la­mo, ter­mi­na­ções ner­vo­sas e neurô­ni­os do que de nos­sa alma, dos nos­sos sen­ti­men­tos e da nos­sa sub­je­ti­vi­da­de.

Talvez por isso o cére­bro, por enquan­to, cos­tu­ma dar as caras na fic­ção jus­ta­men­te nas fis­su­ras, nos dis­túr­bi­os, nos momen­tos onde o cére­bro falha e pode­mos ver as câme­ras e micro­fo­nes por trás do espe­tá­cu­lo da cons­ci­ên­cia. Os exem­plos se acu­mu­lam: temos o pai com Parkinson em As Correções, de Jonathan Franzen; o pai com Alzheimer no Diário da Queda, de Michel Laub; delí­rio de Capgras, no  The Echo Maker, de Richard Powers; doen­ca de Huntington no Sábado, de Ian McEwan. Essas enfer­mi­da­des cos­tu­mam apa­re­cer nos roman­ces de for­ma pare­ci­da, ou seja, sur­gem essen­ci­al­men­te como uma ale­go­ria para o fato da nos­sa iden­ti­da­de e memó­ria serem todos depen­den­tes dos even­tos quí­mi­cos cor­res­pon­den­tes do nos­so cére­bro.

O escri­tor ame­ri­ca­no Marco Roth publi­cou, em 2009, na revis­ta nova-ior­qui­na N+1,  um tex­to sobre a ascen­são des­se neu­ro­ro­man­ce na fic­ção anglo-ame­ri­ca­na (onde fala de vári­os outros livros que tam­bém par­tem de doen­ças neu­ro­ló­gi­cas). O autor con­clui que esse inte­res­se não repre­sen­ta exa­ta­men­te um novo e exci­tan­te ter­ri­tó­rio para a lite­ra­tu­ra, mas sim uma curi­o­sa resig­na­ção dos escri­to­res de sequer ten­tar lidar com o que res­ta da huma­ni­da­de dian­te des­sas des­co­ber­tas, qua­se como se hou­ves­se uma inca­pa­ci­da­de da fic­ção de recon­ci­li­ar as pos­si­bi­li­da­des da nos­sa ati­vi­da­de ima­gi­na­ti­va com a ciên­cia neu­ro­ló­gi­ca.

Depois de pra­ti­ca­men­te desis­tir da reli­gião, da moral e da des­cri­ção da soci­e­da­de, tudo que a fic­ção tinha no seu ter­ri­tó­rio de explo­ra­ção e defi­ni­ção era o sen­so de si, o famo­so “self”, a nos­sa iden­ti­da­de (o que quer que ela seja, a alma ou uma fic­ção). Esses roman­ces pare­cem que­rer entre­gar esse ulti­mo pos­to de resis­tên­cia, como quem admi­te que, afi­nal de con­tas, tam­bém esse negó­cio de iden­ti­da­de e per­so­na­li­da­de são ape­nas mais hipos­ta­si­as malu­cas e des­ne­ces­sá­ri­as para a futu­ra ciên­cia abso­lu­ta do cére­bro loca­li­zar e des­cre­ver.

De fato, exis­tem pou­cas coi­sas no mun­do mais assus­ta­do­ras do que essas doen­ças neu­ro­ló­gi­cas. Alzheimer e Parkinson cor­ro­em os nos­sos ins­tru­men­tos men­tais a pon­to de apa­ren­te­men­te des­truir qual­quer sen­so pos­sí­vel de iden­ti­da­de; Capgras des­li­ga a car­ga emo­ci­o­nal da nos­sa ima­gi­na­ção visu­al, fazen­do com que tenha­mos cer­te­za abso­lu­ta de que os nos­sos entes que­ri­dos são impos­to­res (robôs, ato­res, simu­la­cros ali­e­ní­ge­nas). É no míni­mo com­pre­en­sí­vel que os retra­tos fic­ci­o­nais des­ses dis­túr­bi­os sejam deses­pe­ran­ço­sos.

O que essas pers­pec­ti­vas pare­cem ter em comum é a von­ta­de de des­mis­ti­fi­car a huma­ni­da­de, dizer que não exis­te mis­té­rio nenhum na cons­ci­ên­cia, é ape­nas um show bioquí­mi­co com­ple­xo e arti­fi­ci­o­so. A voz que faz tal afir­ma­ção geral­men­te é vis­ta ter­mi­nan­do o tra­ba­lho come­ça­do por Galileu e pas­san­do por Darwin e Freud. Não somos o cen­tro do uni­ver­so, não somos cri­a­dos à ima­gem de Deus, não somos os ani­mais raci­o­nais e, des­cul­pa te dizer, não somos nem alma coi­sa nenhu­ma.

O tra­ba­lho é de fazer uma redu­ção cau­sal abso­lu­ta da nos­sa exis­tên­cia, de for­ma a reti­rar qual­quer mis­té­rio, qual­quer des­lum­bra­men­to sub­je­ti­vis­ta pri­vi­le­gi­a­do a res­pei­to da nos­sa gran­de­za ou dis­tin­ção enquan­to bichi­nhos andan­tes na Terra. A voz que não diz ape­nas: nós somos cére­bros, mas que diz, com ênfa­se: nós somos ape­nas cére­bros, e nada mais.

Mas exis­te um sen­ti­do no qual a des­cri­ção bioquí­mi­ca da nos­sa cons­ci­ên­cia é ape­nas mais uma serie de metá­fo­ras des­cri­ti­vas for­mi­dá­veis para o fato irre­du­tí­vel da nos­sa pers­pec­ti­va indi­vi­du­al. A cons­ci­ên­cia não dei­xa de exis­tir ape­nas por­que você expli­cou como ela fun­ci­o­na (e, aliás, cabe lem­brar, qual­quer neu­ro­ci­en­tis­ta sério é o pri­mei­ro a admi­tir que ain­da não se che­gou nem per­to de uma des­cri­ção exaus­ti­va de como fun­ci­o­na o cére­bro, pare­ce que tudo que nós temos ain­da são mapas rudi­men­ta­res dos tipos de ati­vi­da­des que ele con­se­gue desem­pe­nhar).

Não é neces­sá­rio ter essa pers­pec­ti­va redu­ci­o­nis­ta e nega­ti­va dian­te das mara­vi­lhas da neu­ro­ci­ên­cia. Não pre­ci­sa­mos ficar depri­mi­dos com o fato de que a cons­ci­ên­cia acon­te­ce no cére­bro. Também é pos­sí­vel se mara­vi­lhar con­ti­nu­a­men­te com o absur­do extra­or­di­ná­rio que é esse mon­te de car­ne dobra­da, esse wetwa­re apa­rent­men­te gam­bi­ar­ra­do pela evo­lu­ção para con­se­guir cri­ar metá­fo­ras, dese­nhar bichos na pare­de, cons­truir ace­le­ra­do­res de par­tí­cu­las, sofrer visões do divi­no e, sim, even­tu­al­men­te, até vir a enten­der o seu pró­prio fun­ci­o­na­men­to.

Ainda não tive­mos (que eu sai­ba) nenhu­ma ten­ta­ti­va seria de incluir o cére­bro den­tro de um roman­ce sem que ele esti­ves­se defei­tu­o­so, mor­ren­do, fazen­do você esque­cer o nome dos seus filhos ou achar que a sua mulher é uma impos­to­ra. Claro que o cére­bro pode falhar de for­ma hor­rí­vel, dolo­ro­sa e deses­pe­ra­do­ra, e faz sen­ti­do que a fic­ção cap­tu­re isso da for­ma mais hones­ta pos­sí­vel. Porém, é no míni­mo par­ci­al que­rer tomar jus­ta­men­te os momen­tos onde o cére­bro não fun­ci­o­na direi­to para repre­sen­tar a nos­sa iden­ti­da­de enquan­to espé­cie. Na mai­or par­te do tem­po, o show da cons­ci­ên­cia fun­ci­o­na, e se reve­la um espe­tá­cu­lo absur­da­men­te con­vin­cen­te. Tanto é assim que as pala­vras que tínha­mos para a cons­ci­ên­cia duran­te milha­res de anos eram metá­fo­ras con­tí­nu­as e intei­ri­ças, de subs­tân­ci­as resi­li­en­tes e uni­fi­ca­das.

Alguns auto­res gos­tam de falar da cons­ci­ên­cia como se ela fos­se uma ilu­são. Mas só faz sen­ti­do cha­mar de ilu­são algo que não exis­te de ver­da­de, e a cons­ci­ên­cia em si obvi­a­men­te exis­te. Não há como negar que temos no míni­mo isso aqui (que acon­te­ce enquan­to eu escre­vo e enquan­to você lê). Uma manei­ra ino­fen­si­va de cha­má-lo seria a pers­pec­ti­va de um orga­nis­mo em bus­ca de home­os­ta­se.

O neu­ro­ci­en­tis­ta por­tu­guês Antonio Damásio faz um rela­to bem inte­res­san­te da cons­ci­ên­cia no seu livro E o cére­bro cri­ou o homem, que par­ti­lha um pou­co des­se tipo de pers­pec­ti­va. Nele, o autor cha­ma a cons­ci­ên­cia de “uma des­cri­ção não soli­ci­ta­da de even­tos — o cére­bro com­pra­zen­do-se em res­pon­der per­gun­tas que nin­guém fez.”  De que for­ma nós vamos nome­ar e valo­ri­zar essa pers­pec­ti­va? Qual o lugar que vamos arran­jar para essa “des­cri­ção não soli­ci­ta­da de even­tos”? Esta é a gran­de ques­tão. E a fic­ção pode, sim, se qui­ser, fazer par­te da res­pos­ta.

* Vinícius Castro é autor do roman­ce Os sinais impos­sí­veis (Geração Editorial, 2010)

, , , , , , , , , ,