O cinema mediúnico que vem da Tailândia

No cinema

18.03.16

Há quem acre­di­te que a potên­cia do cine­ma se reno­va nas infi­ni­tas pos­si­bi­li­da­des da tec­no­lo­gia digi­tal, medi­an­te a qual tudo se pode repro­du­zir lite­ral­men­te, inclu­si­ve os cená­ri­os, seres e acon­te­ci­men­tos mais fan­tás­ti­cos. E há quem apos­te tudo na ima­gi­na­ção e na sen­si­bi­li­da­de do espec­ta­dor. Entre estes últi­mos, des­ta­ca-se hoje o tai­lan­dês de nome impro­nun­ciá­vel Apichatpong Weerasethakul.

Seu fil­me mais recen­te, Cemitério do esplen­dor, que está entran­do em car­taz no Brasil (inclu­si­ve no cine­ma do IMS-RJ), é a pro­va cabal dis­so. A situ­a­ção fic­ci­o­nal bási­ca é sim­ples: numa esco­la impro­vi­sa­da em hos­pi­tal, sol­da­dos aco­me­ti­dos por uma estra­nha doen­ça do sono são cui­da­dos por enfer­mei­ras e volun­tá­ri­as. Uma des­tas, a dona de casa de meia-ida­de Jenjira (Jenjira Pongpas), ape­ga-se a um jovem sol­da­do sem famí­lia, Itt (Banlop Lomnoi), com quem con­ver­sa e sai para pas­se­ar nos raros inter­va­los de vigí­lia dele.

Vasos comu­ni­can­tes

Essa rela­ção se tor­na mais com­ple­xa com a entra­da em cena de uma ter­cei­ra per­so­na­gem, a jovem médium Keng (Janipattra Rueangram), que con­se­gue entrar nos sonhos dos inter­nos e comu­ni­car-se com eles duran­te o sono. Descobrimos por meio dela que a escola/hospital foi, em épo­cas pas­sa­das, um cas­te­lo onde hou­ve uma san­gren­ta guer­ra de poder, e que esses anti­gos acon­te­ci­men­tos ain­da se ence­nam nos sonhos de Itt. Ou melhor, ele os vive nova­men­te, aqui e ago­ra.

Chegamos então a uma pos­sí­vel cha­ve para a fabu­la­ção de Apichatpong. A super­po­si­ção de espa­ços no mes­mo espa­ço (esco­la, hos­pi­tal, alo­ja­men­to mili­tar, cas­te­lo), como se fos­sem cama­das de tem­po que se sedi­men­tam e aca­bam por se amal­ga­mar, é aná­lo­ga à dis­so­lu­ção de dico­to­mi­as como sono e vigí­lia, vida e mor­te, cor­po e espí­ri­to, real e sobre­na­tu­ral. As fron­tei­ras se dis­sol­vem, tudo são vasos comu­ni­can­tes.

Por isso, é natu­ral que as “deu­sas do lago” sen­tem-se em ple­na tar­de à mesa de Jenjira e con­ver­sem com ela. O espan­to des­ta dura pou­cos segun­dos, depois tudo se inte­gra pro­sai­ca­men­te.

Pois é pelo pro­sai­co que o cine­as­ta che­ga à sua poé­ti­ca. Não há efei­tos de luz, não há cená­ri­os “boni­tos”, não há músi­ca emba­la­do­ra. As ima­gens são lím­pi­das, des­po­ja­das, coti­di­a­nas. O  altar das deu­sas, por exem­plo, pare­ce uma bar­ra­ca de camelô, com seus bone­qui­nhos de plás­ti­co – e as pró­pri­as deu­sas são dois mane­quins maqui­a­dos. É a men­te huma­na que trans­fi­gu­ra tudo.

Coisas apa­ren­te­men­te incon­gru­en­tes se mis­tu­ram de modo ines­pe­ra­do e, ao mes­mo tem­po, natu­ral: a médium pode ou não ser agen­te do FBI, Jenjira é casa­da com um mili­tar ame­ri­ca­no apo­sen­ta­do que não fala sua lín­gua, um apa­re­lho moder­no empre­ga­do para acal­mar o sono agi­ta­do dos sol­da­dos uti­li­za cores e luzes à manei­ra de téc­ni­cas de medi­ta­ção mile­na­res, cri­an­ças jogam fute­bol entre mon­tes de ter­ra e entu­lho num cam­pi­nho trans­for­ma­do em can­tei­ro de obras.

Cinema como médium

Numa sequên­cia exem­plar, enquan­to Itt dor­me no chão de um pavi­lhão de par­que, a médium Keng, com aces­so aos seus sonhos, sai a pas­se­ar pelo bos­que com Jenjira, con­ver­san­do com esta como se fos­se ele. Diante de uma cla­rei­ra diz: “Aqui é a sala do tro­no”. Entre pedras e árvo­res, vai des­cre­ven­do o espa­ço do anti­go cas­te­lo, ain­da real e pre­sen­te para ele/ela. Se parar­mos para olhar “obje­ti­va­men­te” as coi­sas, vere­mos uma mulher con­ver­san­do com outra mulher num par­que urba­no meio dete­ri­o­ra­do. Mas não para­mos: embar­ca­mos na via­gem, visu­a­li­za­mos cas­te­los, intri­gas, bata­lhas.

Esse papel de medi­a­ção – de “médium” na eti­mo­lo­gia do ter­mo – desem­pe­nha­do por Keng é o mes­mo do cine­ma de Apichatpong. É o mes­mo, aliás, de toda arte dig­na des­se nome: trans­por­tar-nos a outros ter­ri­tó­ri­os, ampli­ar os hori­zon­tes da nos­sa sen­si­bi­li­da­de.

Claro que há toda uma cor­ren­te ale­gó­ri­ca sub­ter­râ­nea que tal­vez seja melhor com­pre­en­di­da por um tai­lan­dês, não só pelas par­ti­cu­la­ri­da­des reli­gi­o­sas e cul­tu­rais, mas tam­bém pelas refe­rên­ci­as polí­ti­cas. Afinal uma dita­du­ra mili­tar ins­tau­rou-se no país em 2014 – e não dei­xa de ser um sinal per­tur­ba­dor a pre­sen­ça cons­tan­te de tra­to­res e esca­va­dei­ras revol­ven­do a ter­ra para um pro­je­to gover­na­men­tal secre­to nas pro­xi­mi­da­des da escola/hospital.

Mas o que me cha­ma mais a aten­ção é o alcan­ce uni­ver­sal e fecun­do da poe­sia do cine­as­ta, essa sua cren­ça radi­cal na ima­gem, em tudo o que ela mos­tra e em tudo o que ela suge­re. A subs­tân­cia das coi­sas reve­la­da em sua pró­pria super­fí­cie, des­de que haja olhos para ver e espí­ri­to para trans­cen­der. Não é essa a for­ça do cine­ma?

Uma últi­ma obser­va­ção: cri­ti­ca­mos aqui, sem­pre, o avil­ta­men­to do nos­so mer­ca­do exi­bi­dor, mono­po­li­za­do por block­bus­ters des­car­tá­veis, mas nos últi­mos tem­pos o ciné­fi­lo bra­si­lei­ro, pelo menos o de São Paulo e Rio, teve aces­so às obras mais recen­tes de cine­as­tas radi­cal­men­te auto­rais, como o hún­ga­ro Béla Tarr, o fili­pi­no Lav Diaz e ago­ra o tai­lan­dês cujo nome não vou repe­tir para não cor­rer o ris­co de errar. Um raro moti­vo para ale­gria em tem­pos tão som­bri­os.

Avellar

Se hou­ve alguém que pen­sou o cine­ma em pro­fun­di­da­de e com­par­ti­lhou gene­ro­sa­men­te suas des­co­ber­tas e intui­ções com o mai­or núme­ro pos­sí­vel de pes­so­as, esse alguém foi José Carlos Avellar, que mor­reu nes­ta sex­ta-fei­ra (18/3), aos 79 anos. Como crí­ti­co, pro­fes­sor, ges­tor cul­tu­ral (na Embrafilme, na Riofilme e, nos últi­mos tem­pos, no Instituto Moreira Salles), autor de livros fun­da­men­tais de cine­ma, men­tor de gera­ções de jor­na­lis­tas, estu­dan­tes e crí­ti­cos da área, Avellar con­tri­buiu como pou­cos para ampli­ar e apro­fun­dar nos­sa cul­tu­ra cine­ma­to­grá­fi­ca. Não há pala­vras para des­cre­ver o que sua per­da sig­ni­fi­ca para a cul­tu­ra des­te país.

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