O cinema segundo Coutinho

No cinema

12.07.13
Eduardo Coutinho na Flip 2013

Eduardo Coutinho na Flip 2013

Este é, para todos os efei­tos, o ano de Eduardo Coutinho. Aos 80 anos, o cine­as­ta vive seu apo­geu de pro­du­ti­vi­da­de e pres­tí­gio. Enquanto pre­pa­ra um novo docu­men­tá­rio, foi uma das estre­las mai­o­res da recen­te Festa Literária de Paraty (Flip) e será home­na­ge­a­do na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outu­bro, quan­do virá à luz um gran­de livro cole­ti­vo a seu res­pei­to.

Sua entre­vis­ta na Flip, con­du­zi­da pelo dire­tor e mon­ta­dor Eduardo Escorel, seu velho ami­go e par­cei­ro, está intei­ra no YouTube. Aqui, a pri­mei­ra das cin­co par­tes:

http://www.youtube.com/watch?v=NobGhzE9liE

Uma espé­cie de ver­são com­pac­ta do futu­ro livro aca­ba de ser publi­ca­da pela edi­to­ra Cosac Naify, com orga­ni­za­ção de Milton Ohata. No peque­no e pre­ci­o­so volu­me, inti­tu­la­do O olhar no docu­men­tá­rio, há tex­tos do pró­prio Coutinho, essen­ci­ais para quem quer conhe­cer sua visão do cine­ma e da vida.

Contra as idei­as gerais

Um deles, o arti­go que dá nome ao livro, foi escri­to pelo cine­as­ta em 1992, a pedi­do do Festival Cinéma du Réel, de Paris, e resu­me sua des­co­ber­ta tar­dia de um cami­nho pes­so­al no ter­ri­tó­rio do docu­men­tá­rio: “Adotando a for­ma de um ?cine­ma de con­ver­sa­ção’, esco­lhi ser ali­men­ta­do pela fala-olhar de acon­te­ci­men­tos e pes­so­as sin­gu­la­res, mer­gu­lha­das na con­tin­gên­cia da vida. Eliminei, com isso, até onde fos­se pos­sí­vel, o uni­ver­so das idei­as gerais, com as quais difi­cil­men­te se faz bom cine­ma, docu­men­tá­rio ou não, e dos ?tipos’ ime­di­a­ta e coe­ren­te­men­te sim­bó­li­cos de uma clas­se soci­al, de um gru­po, de uma nação, de uma cul­tu­ra”.

Impossível não notar — e não lou­var — a rigo­ro­sa coe­rên­cia entre as pala­vras do autor e a fil­mo­gra­fia esplen­do­ro­sa que ele pro­du­zi­ria a seguir, na segun­da de suas gran­des “res­sur­rei­ções” ou “rein­ven­ções”. A pri­mei­ra se deu quan­do ele reto­mou no iní­cio dos anos 1980, sob a for­ma de docu­men­tá­rio de bus­ca, o fil­me de fic­ção Cabra mar­ca­do para mor­rer, cujas fil­ma­gens tinham sido inter­rom­pi­das bru­tal­men­te pelo gol­pe mili­tar de 1964. Concluído em 1984, o fil­me se tor­na­ria uma mar­co incon­tor­ná­vel do docu­men­tá­rio bra­si­lei­ro e mun­di­al.

O cará­ter cen­tral e emble­má­ti­co do Cabra na tra­je­tó­ria do cine­as­ta é ilu­mi­na­do no volu­me por três outros cri­a­do­res que têm uma ínti­ma pro­xi­mi­da­de com sua obra. Num tex­to bre­ve, o poe­ta Ferreira Gullar fala do cor­del que escre­veu no iní­cio dos anos 1960 e que deu o títu­lo e o mote para o que deve­ria ser o pri­mei­ro lon­ga de Coutinho, e con­tex­tu­a­li­za a gêne­se do fil­me. Eduardo Escorel, que edi­tou o docu­men­tá­rio final, deta­lha a saga das fil­ma­gens e da orga­ni­za­ção do mate­ri­al, numa ver­da­dei­ra aula sobre mon­ta­gem. E o docu­men­ta­ris­ta João Moreira Salles, prin­ci­pal inter­lo­cu­tor cri­a­ti­vo de Coutinho na últi­ma déca­da, tra­ça um como­ven­te resu­mo do iti­ne­rá­rio pes­so­al e artís­ti­co do dire­tor.

Absurdamente, Cabra mar­ca­do para mor­rer não está ain­da dis­po­ní­vel em DVD. Mas é pos­sí­vel vê-lo na ínte­gra no YouTube:

http://www.youtube.com/watch?v=VJ0rKjLlR0c

Dentro des­se con­jun­to, podem pare­cer à pri­mei­ra vis­ta des­lo­ca­dos os sete tex­tos de crí­ti­ca escri­tos por Coutinho para o Jornal do Brasil em 1973 e 1974 e inse­ri­dos no cora­ção do livri­nho. Mas o desen­cai­xe é só apa­ren­te. Com uma ver­ve sabo­ro­sa, que con­se­gue ser ao mes­mo tem­po inci­si­va e ele­gan­te, o cines­ta-crí­ti­co expõe sua visão pes­so­al do cine­ma, isen­ta de qual­quer ran­ço inte­lec­tu­a­lis­ta, pro­gra­má­ti­co ou dou­tri­ná­rio, ao ana­li­sar pro­du­ções dis­tan­tes de seu pró­prio uni­ver­so. Fala de musi­cais, fil­mes de aven­tu­ra, melo­dra­mas hollywo­o­di­a­nos, docu­men­tá­ri­os “mun­do cão”, sur­re­a­lis­mo etc.

Cinema impu­ro

Ao exal­tar o cará­ter cir­cen­se de O pira­ta san­gren­to, estre­la­do por Burt Lancaster e diri­gi­do por Robert Siodmak, afir­ma: “Sucedem-se as que­das e mor­tes, mas tudo no espí­ri­to do dese­nho ani­ma­do. Não se vê uma gota de san­gue e a vio­lên­cia é esca­mo­te­a­da — na ver­da­de, os mor­tos pode­ri­am se levan­tar, sem sur­pre­sa, como bons figu­ran­tes e stunt-men a ser­vi­ço do show. Nesse sen­ti­do, o públi­co sen­te logo que o fil­me não é con­tem­po­râ­neo: fal­ta-lhe o cinis­mo com­pla­cen­te, a explo­ra­ção sis­te­má­ti­ca da vio­lên­cia sádi­ca”. O tex­to é de 1974, mas teria ain­da mais sen­ti­do hoje.

Falando de sur­re­a­lis­mo no cine­ma, Coutinho exe­cra os “delí­ri­os for­ma­lis­tas” da van­guar­da fran­ce­sa dos anos 1920 e 1930, sal­van­do ape­nas a con­cre­tu­de da lin­gua­gem de Buñuel, na qual “tudo pode ser inter­pre­ta­do indi­fe­ren­te­men­te como real ou como sonho e mere­ce da câme­ra um tra­ta­men­to igual — seco, pre­ci­so como o olhar de um ento­mo­lo­gis­ta”.

Ainda mais sig­ni­fi­ca­ti­va é a cora­gem com que, num arti­go sobre uma gran­de retros­pec­ti­va do cine­ma bra­si­lei­ro pro­mo­vi­da pela Cinemateca do MAM, o dire­tor defen­de a inven­ti­vi­da­de tor­ta, “sub­de­sen­vol­vi­da”, de fil­mes obs­cu­ros como Aves sem ninho (1939), de Raoul Roulien, com seu “esti­lo nar­ra­ti­vo fre­quen­te­men­te con­fu­so ou pri­má­rio mas de vigo­ro­sa pro­cu­ra expres­si­va”.

Na lei­tu­ra des­ses tex­tos tão bre­ves quan­to lumi­no­sos, con­fi­gu­ra-se uma visão do cine­ma como arte impu­ra, em que a expres­são da vida tra­va uma luta inces­san­te com as con­ven­ções indus­tri­ais, cul­tu­rais ou polí­ti­cas para explo­dir na tela. Nos momen­tos em que isso ocor­re, como nos fil­mes de Coutinho, é uma coi­sa lin­da de se ver.

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