O cinema sob o olhar de Otto Lara Resende

Literatura

06.09.11

Consta da cro­no­lo­gia em Três Ottos por Otto Lara Resende, publi­ca­do pelo IMS em 2002, que em 1951 o escri­tor minei­ro assu­miu o car­go de reda­tor prin­ci­pal do então recém-fun­da­do jor­nal Última Hora. Ali ele escre­ve­ria sobre vári­os assun­tos, entre os quais fil­mes, na colu­na inti­tu­la­da “Cinema”, que ele assi­na­va sob o pseudô­ni­mo de “J. O.”.

Meticuloso guar­da­dor de papéis, Otto pre­ser­vou 78 tex­tos des­sa colu­na, mas, infe­liz­men­te, ao recor­tá-los, a tesou­ra levou as datas. Poupou, no entan­to, o nome do perió­di­co. É o que se vê ao manu­se­ar seu arqui­vo, sob a guar­da do IMS. As tiras da colu­na diá­ria “Cinema”, iné­di­tas em livro até hoje, sobres­sa­em em meio à imen­sa vari­e­da­de de recor­tes de dife­ren­tes jor­nais.

Ao assu­mir a seção, Otto subs­ti­tuía nin­guém menos que Vinicius de Moraes, con­for­me se lê no tex­to “Simão, o cao­lho”, fil­me bra­si­lei­ro do dire­tor Alberto Cavalcanti, de 1962. Diz Otto: “Vinicius — cujo lugar eu, inde­bi­ta­men­te, ocu­po nes­ta colu­na…”. Ainda nes­se tex­to, o escri­tor demons­tra con­ten­ta­men­to com o fato de os dois terem a mes­ma opi­nião sobre a pelí­cu­la no que diz res­pei­to à dire­ção de Cavalcanti: “Vinicius reco­nhe­ce, como eu pró­prio reco­nhe­ci, que o fil­me tem gra­ves defei­tos, mas acha que esses defei­tos não são de Cavalcanti”.

Como não podia dei­xar de acon­te­cer, os tex­tos de Otto refle­tem sua extra­or­di­ná­ria espi­ri­tu­o­si­da­de, como na crô­ni­ca inti­tu­la­da “Três vaga­bun­dos”, comé­dia da Atlântida, com Oscarito, Grande Otelo e Cyl Farney: “A meu lado, sen­ta­ram-se duas senho­ri­tas de lon­gos cabe­los e lon­ga matra­que­a­ção”; ou seu tem­pe­ra­men­to às vezes melan­có­li­co, des­sa vez em “Macau”, que con­si­de­ra­va “uma suces­são de cli­chês”, do dire­tor  Joseph von Sternberg: “Eu ia can­sa­do e tris­te, pal­mi­lhan­do a ave­ni­da Rio Branco…”; e ain­da a agu­da sen­si­bi­li­da­de ao sair de “Uma rua cha­ma­da peca­do”: ape­sar de incon­for­ma­do com a tra­du­ção de “A stre­et­car named desi­re”, mes­mo assim tra­va um diá­lo­go ima­gi­ná­rio com a per­so­na­gem prin­ci­pal, Blanche Dubois: “Vim con­ver­san­do com ela até a reda­ção num diá­lo­go líri­co e alu­ci­na­do”.

Um caso de hon­ra como­veu-me bru­tal­men­te e saí menos pes­si­mis­ta e menos gri­pa­do do cine­ma”, escre­veu ain­da ele sobre esse fil­me do inglês Anthony Asquith. Autor de fra­ses geni­ais e com­pul­si­vo mis­si­vis­ta, incan­sá­vel escri­tor de vári­as ver­sões do roman­ce O bra­ço direi­to (1968), Otto apre­sen­tou mais essa face­ta, a de crí­ti­co de cine­ma, na qual não abriu mão da gra­ça e agi­li­da­de pró­pri­as de seu esti­lo.

O lei­tor que qui­ser conhe­cer as crí­ti­cas de Otto Lara Resende não vai encon­trar ape­nas a aná­li­se dos fil­mes euro­peus, ame­ri­ca­nos ou bra­si­lei­ros que mar­ca­ram os pri­mei­ros anos da déca­da de 1950. Percorrerá o uni­ver­so em tor­no do cine­ma de uma manei­ra geral. Ora ele tecia con­si­de­ra­ções sobre o esta­do das salas de exi­bi­ção cari­o­cas ou o pre­ço dos ingres­sos, como na crô­ni­ca “Cineminha de segun­da-fei­ra”: “E se os exi­bi­do­res con­se­guem pro­var que é pre­ci­so aumen­tar o pre­ço do cine­ma, ao menos tra­tem de melho­rar as suas salas…”; ora comen­ta­va a situ­a­ção econô­mi­ca e se soli­da­ri­za­va com a rei­vin­di­ca­ção dos ope­ra­do­res de pro­je­ção por melho­res salá­ri­os: “Os ope­ra­do­res dos cine­mas cari­o­cas não cons­ti­tu­em uma clas­se pri­vi­le­gi­a­da. Ganham salá­ri­os modes­tos e, por isso mes­mo, como a vida anda aper­ta­da tam­bém para eles, estão plei­te­an­do, por inter­mé­dio de seu sin­di­ca­to, um aumen­to de ses­sen­ta por cen­to”. O colu­nis­ta tam­bém não dei­xou de fazer apre­ci­a­ções sobre cer­tos aspec­tos da cida­de. Ler sua colu­na pode repre­sen­tar um pas­seio sabo­ro­so pelas ruas do cen­tro do Rio daque­les tem­pos, quan­do era pos­sí­vel, como acon­te­cia com ele, cru­zar no cami­nho com escri­to­res e inte­lec­tu­ais do por­te de Carlos Drummond de Andrade, José Lins do Rego ou o dese­nhis­ta Nássara.

A seguir, dois recor­tes de “Cinema”.

 

 

 

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