O (cis)gênero não existe

Colunistas

10.12.14

A pri­mei­ra vez que repe­ti em públi­co a fra­se da filó­so­fa Judith Butler – “O gêne­ro não exis­te” – cau­sei pro­fun­do estra­nha­men­to a femi­nis­tas que vinham de uma linha de estu­dos e mili­tân­cia for­ma­da a par­tir da deci­si­va dis­tin­ção sexo/gênero. Gênero como cul­tu­ral, opos­to a sexo como bio­ló­gi­co, havia sido um con­cei­to fun­da­dor da segun­da onda do femi­nis­mo, e foi um ope­ra­dor da liber­ta­ção do des­ti­no bio­ló­gi­co das mulhe­res. Era pre­ci­so – a rigor, infe­liz­men­te, ain­da é – rei­vin­di­car que o sexo anatô­mi­co não pode fun­da­men­tar hie­rar­qui­as soci­ais, polí­ti­cas e econô­mi­cas. Afirmo que “o (cis)gênero não exis­te” a fim de dis­cu­tir o recen­te epi­só­dio de agres­são con­tra trans­gê­ne­ros nos banhei­ros da Unicamp.

Ao lon­go da sema­na pas­sa­da, a dou­to­ran­da Amara Moira, pes­qui­sa­do­ra de Teoria Literária, denun­ci­ou a picha­ção dos banhei­ros femi­ni­nos com slo­gans vio­len­tos de pro­tes­to con­tra a frequên­cia de trans­gê­ne­ros. Frases como “Ser mulher não é cal­çar nos­sos sapa­tos” e “Não dei­xem que os machos ocu­pem os nos­sos espa­ços” foram as ame­a­ças mais bran­das de uma luta que par­te de um gru­po de femi­nis­tas radi­cais cuja ban­dei­ra é a defe­sa da bio­lo­gia. Sim, aque­la mes­ma que se que­ria com­ba­ter no pará­gra­fo aci­ma.

Uma das carac­te­rís­ti­cas mais impor­tan­tes do movi­men­to femi­nis­ta é não ser esta­bi­li­zá­vel numa úni­ca for­ma polí­ti­ca. Feminismo tem a ver com ques­ti­o­na­men­to de subal­ter­ni­da­des. Para se afir­mar como movi­men­to polí­ti­co, sem­pre se afir­mou plu­ral. A fim de sus­ten­tar essa plu­ra­li­da­de, con­si­de­ro neces­sá­ria uma crí­ti­ca con­tun­den­te às femi­nis­tas radi­cais e seus fun­da­men­tos bio­ló­gi­cos. Acho impos­sí­vel sus­ten­tar uma posi­ção que seja abso­lu­ta­men­te con­tra os homens ou abso­lu­ta­men­te a favor das mulhe­res ape­nas. É um des­ser­vi­ço à cau­sa da eman­ci­pa­ção que, não ten­do nas­ci­do mulher, não sen­do por­ta­do­ras de “vagi­nas ori­gi­nais de fábri­ca”, trans­gê­ne­ros devam ser com­ba­ti­dos por serem “bio­lo­gi­ca­men­te” homens.

Considero mes­mo um retro­ces­so polí­ti­co exe­crá­vel que em nome do femi­nis­mo se come­ta con­tra trans­gê­ne­ros um tipo de vio­lên­cia igual àque­la per­pe­tra­da his­to­ri­ca­men­te con­tra mulhe­res, a vio­lên­cia da exclu­são, da subor­di­na­ção, da clas­si­fi­ca­ção como pes­so­as de segun­da clas­se. Para as “rad­fem”, se o femi­nis­mo é uma luta con­tra o patri­ar­ca­do, e se o patri­ar­ca­do está obri­ga­to­ri­a­men­te encar­na­do nos homens, então a luta deve ser con­tra os homens bio­ló­gi­cos, não impor­ta como eles se apre­sen­tem soci­al­men­te. Tudo se pas­sa como se o sécu­lo XX não tives­se a mar­ca de um deba­te fun­da­men­tal con­tra a fun­da­men­ta­ção bio­ló­gi­ca dos sexos e con­tra uma for­ma dua­lis­ta de per­ce­ber as dife­ren­ças sexu­ais. Se não mais opo­si­ti­vas, essas dife­ren­ças nem podem se afir­mar em fun­ção da ana­to­mia – por­ta­do­res de pênis de um lado, donas de vagi­na, de outro – nem em fun­ção de iden­ti­da­de.

A ques­tão fica ain­da mais com­pli­ca­da quan­do se par­te de uma pre­mis­sa, por vezes implí­ci­ta, de pos­si­bi­li­da­de de ade­qua­ção per­fei­ta entre sexo e gêne­ro, o que se pre­ten­de nome­ar como “cis­gê­ne­ro”. Cis – do latim, do mes­mo lado – é a deno­mi­na­ção para aque­le cuja iden­ti­da­de de gêne­ro equi­va­le ao seu cor­po bio­ló­gi­co, numa expec­ta­ti­va de ajus­te que mui­tas cor­ren­tes do femi­nis­mo, entre as quais me incluo, não acei­tam. Gênero é uma cons­tru­ção soci­al a par­tir da qual não se pode evo­car uma ideia de nor­ma­li­da­de ou ade­qua­ção, não há como ser “a” mulher ou “o” homem que cor­res­pon­da a um mode­lo ade­qua­do de gêne­ro. Há des­vi­os, dese­jos, sin­gu­la­ri­da­des, equí­vo­cos. Depois de tan­tos anos lutan­do con­tra a dis­tin­ção biná­ria masculino/feminino, cons­truí­da como hie­rár­qui­ca e dicotô­mi­ca, não faz sen­ti­do erguer um novo par opo­si­ti­vo – cisgênero/transgênero – para sus­ten­tar exclu­sões, como se a uma pes­soa fos­se per­fei­ta­men­te pos­sí­vel estar “de acor­do” com seu sexo e com as expec­ta­ti­vas das con­ven­ções soci­ais.

A dife­ren­ça entre sexo e gêne­ro foi for­mu­la­da a par­tir do pen­sa­men­to de Simone de Beauvoir e está no iní­cio da intro­du­ção do segun­do volu­me de O segun­do sexo. Importante lem­brar que o livro tem 300 pági­nas, e não ape­nas a fra­se “Não se nas­ce mulher, tor­na-se mulher”. O tex­to con­ti­nua: “Nenhum des­ti­no bio­ló­gi­co, psí­qui­co, econô­mi­co defi­ne a for­ma que a fêmea huma­na assu­me no seio da soci­e­da­de; é o con­jun­to da civi­li­za­ção que ela­bo­ra esse pro­du­to inter­me­diá­rio entre o macho e o cas­tra­do que qua­li­fi­cam de femi­ni­no”.

Publicado alguns meses depois do pri­mei­ro volu­me, é esse o livro que mar­ca de fato a recep­ção do pen­sa­men­to de Beauvoir na França de 1949.  No final da déca­da de 1980, outra filó­so­fa, a nor­te-ame­ri­ca­na Judith Butler, per­ce­beu o que ago­ra pare­ce óbvio. Como tra­ta-se de tor­nar-se mulher, na cul­tu­ra e na soci­a­bi­li­da­de, o per­for­ma­ti­vo “tor­nar-se” pode ser con­ju­ga­do por qual­quer cor­po, inde­pen­den­te do seu sexo anatô­mi­co. Abriu-se com Butler, com sua lei­tu­ra para as filo­so­fi­as de Jacques Derrida e Michel Foucault, uma incon­tor­ná­vel crí­ti­ca à natu­ra­li­da­de com que um cor­po bio­ló­gi­co femi­ni­no tor­na-se neces­sa­ri­a­men­te uma mulher, ou um cor­po bio­ló­gi­co mas­cu­li­no tor­na-se neces­sa­ri­a­men­te um homem. As poten­ci­a­li­da­des des­sa aber­tu­ra depen­dem, em gran­de medi­da, tan­to do aban­do­no de bina­ris­mos e este­reó­ti­pos que esta­mos há tan­to tem­po lutan­do para des­fa­zer, quan­do do aban­do­no ao bio­ló­gi­co que fun­da­men­tou a vio­lên­cia na Unicamp. Para reto­mar o argu­men­to ini­ci­al, “o (cis)gênero não exis­te” por­que, para exis­tir, depen­de da fun­da­men­ta­ção de uma iden­ti­da­de fixa, por exem­plo, em “vagi­nas ori­gi­nais de fábri­ca”, como se hou­ves­se uma fôr­ma que as pro­du­zis­se sob um selo de auten­ti­ci­da­de não encon­trá­vel nem na natu­re­za.

, , ,