O concurso e os limites da neochanchada

No cinema

26.07.13

Fabio Porchat inter­pre­ta o gaú­cho Rogério Carlos

A comé­dia bra­si­lei­ra da vez, ao que pare­ce, é O con­cur­so, de Pedro Vasconcelos. Muito bem. Entrei no cine­ma imbuí­do de curi­o­si­da­de, paci­ên­cia e boa von­ta­de. Antes mes­mo de o crí­ti­co Jean-Claude Bernardet pas­sar um pito na inte­lec­tu­a­li­da­de bra­si­lei­ra que tor­ce o nariz dian­te da recen­te onda de comé­di­as de suces­so, esta colu­na já vinha ten­tan­do sepa­rar o tri­go do joio nes­sa sea­ra, como ates­tam as crí­ti­cas de Vai que dá cer­to e de Os pene­tras.

Mas vamos ao fil­me, que nar­ra os dois dias e duas noi­tes pas­sa­dos no Rio de Janeiro por qua­tro fina­lis­tas de um con­cur­so para juiz fede­ral. Três deles vêm de fora: um do Ceará (Anderson De Rizzi), um do Rio Grande do Sul (Fabio Porchat) e um do inte­ri­or de São Paulo (Rodrigo Pandolfo). O úni­co cari­o­ca da tur­ma é um advo­ga­do de por­ta de cadeia (Danton Mello).

http://www.youtube.com/watch?v=19UXZemgSfQ

Talvez o fato de um minei­ro (Danton) encar­nar um cari­o­ca, um cari­o­ca (Porchat) repre­sen­tar um gaú­cho e um gaú­cho (Pandolfo) inter­pre­tar um pau­lis­ta con­tri­bua para a fal­si­da­de da ence­na­ção, mas quem sabe seja ape­nas uma pia­da inter­na. Passemos ao lar­go tam­bém do absur­do de qua­tro seme­lhan­tes paler­mas serem os fina­lis­tas de um con­cur­so para um dos car­gos mais altos da nação. Afinal, não exis­te comé­dia sem algu­ma dose de fal­si­da­de e inve­ros­si­mi­lhan­ça.

No meio do cami­nho

O pro­ble­ma, a meu ver, é que O con­cur­so fica no meio do cami­nho: nem se per­mi­te des­cam­bar para o non­sen­se total que carac­te­ri­za, por exem­plo, nos­sas melho­res chan­cha­das, ou os fil­mes dos irmãos Marx, nem tam­pou­co cons­trói uma nar­ra­ti­va mini­ma­men­te con­sis­ten­te. A par­tir de uma situ­a­ção ori­gi­nal — a reu­nião, no Rio, de qua­tro des­co­nhe­ci­dos ao mes­mo tem­po cúm­pli­ces e con­cor­ren­tes — res­va­la para um acú­mu­lo de cli­chês (o gaú­cho machão, o nor­des­ti­no mís­ti­co, o cai­pi­ra tími­do) e pia­das bati­das (o gaú­cho machão que na ver­da­de é gay, o mulhe­rão que se reve­la um tra­ves­ti, a pala­vra “vara” com duplo sen­ti­do jurí­di­co e sexu­al, a nin­fo­ma­nía­ca que per­se­gue o vir­gem relu­tan­te).

As ten­ta­ti­vas de humor visu­al se resu­mem a cenas como uma luta mar­ci­al entre dois anões e um homem cor­ren­do sem as cal­ças na pis­ta lota­da de um bai­le funk. Adivinhe qual é a músi­ca que um gru­po de tra­ves­tis põe para tocar no intui­to de fazer um homos­se­xu­al enrus­ti­do sair do armá­rio. Se você acha que “I will sur­vi­ve”, com a Gloria Gaynor, seria uma esco­lha óbvia demais, errou, quer dizer, acer­tou.

Alguém dirá que o fil­me tem sua atu­a­li­da­de, por tra­tar de juí­zes fede­rais, per­so­na­gens em evi­dên­cia nos últi­mos tem­pos. Para refor­çar esse argu­men­to, o che­fe da ban­ca exa­mi­na­do­ra é um magis­tra­do negro, o que reme­te ine­vi­ta­vel­men­te ao pre­si­den­te do STF, Joaquim Barbosa. Numa bre­ve cena, o can­di­da­to do inte­ri­or pau­lis­ta é vis­to com um gibi do Batman nas mãos, o que refor­ça­ria a refe­rên­cia. Mas a pia­da é des­per­di­ça­da, o moti­vo jurí­di­co qua­se some, a paró­dia não se con­su­ma.

Paródia e sub­mis­são

A paró­dia, aliás, sem­pre foi o pro­ce­di­men­to bási­co das melho­res chan­cha­das. Do faro­es­te ao dra­ma his­tó­ri­co, pas­san­do pelo poli­ci­al e pelo fil­me de aven­tu­ras, nos­sos cômi­cos saca­ne­a­vam as con­ven­ções e os cli­chês do cine­ma hollywo­o­di­a­no. Faziam da fal­ta de recur­sos mate­ri­ais uma arma de des­cons­tru­ção e der­ri­são.

Nas cha­ma­das glo­bo­chan­cha­das, ao con­trá­rio, o que se vê no mais das vezes é uma sub­ser­vi­ên­cia aos padrões e códi­gos do cine­ma hegemô­ni­co, quan­do não das sit­coms tele­vi­si­vas. Emulação em vez de sub­ver­são. Claro, o Brasil aca­ba entran­do pelas fres­tas: a vio­lên­cia e o jei­ti­nho, a linha tênue entre a lei e a con­tra­ven­ção, o impro­vi­so e a incom­pe­tên­cia, tudo isso sal­ta aos olhos. Continua váli­da a fra­se tão cita­da e tão mal com­pre­en­di­da de Paulo Emilio Salles Gomes segun­do a qual o pior fil­me bra­si­lei­ro nos diz mais res­pei­to que o melhor fil­me estran­gei­ro. Mas isso está lon­ge de sig­ni­fi­car que se deve ser con­des­cen­den­te com a pro­du­ção naci­o­nal.

O con­cur­so não é pro­pri­a­men­te uma “glo­bo­chan­cha­da”, já que não tem a Globo entre seus prin­ci­pais pro­du­to­res, ain­da que o dire­tor Pedro Vasconcelos seja oriun­do de nove­las e minis­sé­ri­es da emis­so­ra. Não impor­ta. O fato é que, se esca­pa em par­te (e ape­nas em par­te) do tom his­té­ri­co e do novo-riquis­mo das comé­di­as de cos­tu­me glo­bais, o fil­me incor­re na rei­te­ra­ção de este­reó­ti­pos, na indi­gên­cia de idei­as e na mise-en-scè­ne mecâ­ni­ca e sem ins­pi­ra­ção da mai­o­ria dos pro­du­tos (esta é a pala­vra) do gêne­ro.

Nada con­tra o êxi­to na bilhe­te­ria, que pode ser óti­mo para as esta­tís­ti­cas da Ancine, para o mer­ca­do de tra­ba­lho do setor, para as divi­sas naci­o­nais e para uma série de outras coi­sas. Só não sei, sin­ce­ra­men­te, se traz algo de bom para a inte­li­gên­cia e a sen­si­bi­li­da­de do espec­ta­dor.

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