O conforto beatnik

Literatura

06.08.12

Com três fil­mes sobre o tema ou em fase de pós-pro­du­ção ou dis­tri­bui­ção nes­te ano (Big Sur; Corso: the last beat e Na estra­da), espe­ra-se que os beat­niks sejam um tema óbvio e con­tem­po­râ­neo. Eles avan­ça­ram além do movi­men­to lite­rá­rio: tor­na­ram-se um fenô­me­no soci­al. Além dis­so, a len­dá­ria for­ma de pen­sar ain­da seduz gera­ções de lei­to­res em todo o mun­do. Entretanto, é difí­cil parar e con­si­de­rar até onde essa sedu­ção faz algum sen­ti­do, hoje. Em 2012, tudo que os beats fize­ram seria dig­no de uma rave. E pon­to.

Não se nega a influên­cia da Geração Beat. Ela influ­en­ci­ou (co-cri­ou?) Bob DylanPink Floyd e os hip­pi­es. O gru­po de escri­to­res do pós-Segunda Guerra ao final dos anos 50 ? “lide­ra­da” por Kerouac, Allen Ginsberg e Neal Cassidy ? explo­rou tudo: caro­na sem des­ti­no, sexo sem DSTs, dro­gas sem limi­tes, expe­ri­ên­ci­as mís­ti­cas e reli­gi­o­sas sem pre­ce­den­tes, cadeia sem moti­vo pesa­do e lite­ra­tu­ra sem (mui­tos) para­dig­mas. Essa é a ver­são mais ouvi­da e comen­ta­da, embo­ra a linha fina entre este­reó­ti­po e movi­men­to enfra­que­ça cada vez mais.

Antes mes­mo do lan­ça­men­to de On the road, em 1957, o públi­co ame­ri­ca­no já havia come­ça­do a ganhar uma noção da cul­tu­ra beat­nik. O livro Howl, de Allen Ginsberg, já havia sido publi­ca­do e gera­do bas­tan­te aten­ção na mídia. Eventos rela­ci­o­na­dos já eram notí­cia e, com seu cres­cen­te suces­so, Jack Kerouac tor­nou-se a voz da Geração Beat. Suas entre­vis­tas e con­tri­bui­ções come­ça­ram a apa­re­cer em revis­tas de gran­de cir­cu­la­ção (Playboy, Life), e ele come­çou a ser con­vi­da­do para a tele­vi­são.

E um mito come­çou a cres­cer em tor­no dis­so.  Thornton Lee Streiff, um dos cro­nis­tas do movi­men­to, rela­tou a res­pei­to do con­jun­to de este­reó­ti­pos que se sus­ten­ta até hoje. Streiff afir­ma que com uma vari­e­da­de de fór­mu­las mui­to sim­pli­fi­ca­das e con­ven­ci­o­nais, os repór­te­res per­de­ram-se. Descreviam o fenô­me­no como eles o viam ? e ain­da pior, eles não o viam cla­ra e com­ple­ta­men­te. Eles tinham uma cita­ção aqui e uma foto­gra­fia ali ? e era o tra­ba­lho deles embru­lhá-lo num paco­te com­pre­en­sí­vel. Desse modo, segun­do Streiff, o que saiu nos jor­nais, revis­tas, TV e nos fil­mes foi um pro­du­to dos este­reó­ti­pos dos anos 30 e 40. Era uma mis­tu­ra con­fu­sa um artis­ta boê­mio do Greenwich Village dos anos 20 e um músi­co de Bop, cuja ima­gem visu­al foi con­cluí­da atra­vés da mis­tu­ra de pin­tu­ras Daliescas, uma boi­na, uma bar­ba esti­lo Van Dyke, um sué­ter de gola rolê, um par de san­dá­li­as, e um par de bon­gos. Alguns ele­men­tos autên­ti­cos eram acres­cen­ta­dos a uma ima­gem cole­ti­va: poe­tas len­do seus poe­mas, por exem­plo, mas até isso era fei­to de for­ma intan­gí­vel fazen­do os poe­tas falar numa espé­cie de fal­so idi­o­ma. E popu­la­ri­zou-se o con­cei­to.

Mesmo que com­pos­to por alguns artis­tas séri­os e defen­so­res do esti­lo de vida boê­mio sobre o qual escre­vi­am, a ide­o­lo­gia cedeu às ven­das. A cul­tu­ra popu­lar ame­ri­ca­na assi­mi­lou-o melhor do que a rea­li­da­de. Kerouac e os beats eram com frequên­cia cul­pa­dos por tudo que pare­cia dife­ren­te e fora de lugar nos Estados Unidos. J. Edgar Hoover, dire­tor do FBI em 1960, che­gou a inclui-los nas três gran­des ame­a­ças ao American way of life, jun­ta­men­te dos egghe­ads e dos comu­nis­tas.

O úni­co pro­ble­ma é que nun­ca hou­ve esses beat­niks. Nunca exis­tiu tal agen­da, pro­gra­ma, ou fina­li­da­de entre eles. Ou seja, mes­mo que se sai­ba ago­ra que estas ima­gens são este­re­o­ti­pa­das e incon­gru­en­tes, há uma con­sequên­cia. Entretanto, maqui­nal­men­te, con­ti­nua-se a olhar para essas mes­mas ima­gens quan­do se bus­ca refe­ren­ci­ais pas­sa­dos, nos anos 50: e se acre­di­ta nis­so. Todo o pano­ra­ma tem sido tão fre­quen­te­men­te enfi­a­do goe­la abai­xo que gerou um esque­ci­men­to do sen­ti­men­to. Esquece-se da noção (ou fal­ta dela) de des­lo­ca­men­to cul­tu­ral e emo­ci­o­nal, insa­tis­fa­ção e anseio.

Ao mes­mo tem­po, cul­par ape­nas a mídia bei­ra a inge­nui­da­de. Essa fór­mu­la que se ima­gi­na hoje mui­tas vezes se pren­de à men­ta­li­da­de de alguns pou­cos auto­res. Além do trio clás­si­co Kerouac-Ginsberg-Cassidy, há pou­cos repre­sen­tan­tes ? os mais men­ci­o­na­dos sen­do William Burroughs, Carl Solomon, Gregory Corso e Lawrence Ferlinghetti. Mesmo assim, é uma amos­tra mui­to peque­na.

Muitos epi­só­di­os de On the road, por exem­plo, são exa­ge­ros ou divi­ni­za­ções do autor. Alguns sim­ples­men­te não acon­te­ce­ram, relem­bra Barry Miles numa bio­gra­fia relan­ça­da este ano. Aos 25 anos, Jack Kerouac mora­va com a mãe, a quem, na estra­da, escre­via de for­ma regu­lar com pedi­dos de dinhei­ro.

De novo em com­pa­ra­ção à fór­mu­la beat, igno­ra-se do con­for­to do esti­lo de vida des­ses auto­res. Contudo, Sal e Dean, em On the road, tinham con­for­tos que em nenhum momen­to são pen­sa­dos em ide­al algum. Eles con­vi­vi­am com comu­ni­da­des vari­a­das, visi­ta­ram o México, mas sem­pre retor­na­vam para o calor de casa. Para Sal, quan­do tra­ba­lhou nas fazen­das de imi­gran­tes na Califórnia, havia o con­for­to (incons­ci­en­te?) de que, se algum dia pre­ci­sas­se, sua tia em Nova Iorque pode­ria envi­ar dinhei­ro para que ele vol­tas­se. Era um luxo que nenhum dos tra­ba­lha­do­res tinha, e pou­cos dos beat­niks pode­ri­am afir­mar. O esti­lo de vida irres­pon­sá­vel, des­pre­o­cu­pa­do e na estra­da é uma for­ma de luxo (até hoje). Nenhum des­ses con­for­tos (vá lá, bur­gue­ses) entrou na memó­ria gene­ra­li­za­da do que foi ser beat.

Essa “memó­ria cul­tu­ral” em tor­no des­se esti­lo de vida, por algum moti­vo, não inclui o cato­li­cis­mo de Kerouac. Ele não escon­deu sua opo­si­ção ao movi­men­to hip­pie enquan­to eles flo­res­ci­am (tro­ca­di­lho ter­rí­vel) nos anos 60. Ele sim­pa­ti­za­va com William F. Buckley, um dos íco­nes do con­ser­va­do­ris­mo polí­ti­co ame­ri­ca­no, e ambos apoi­a­ram a guer­ra do Vietnã.

Não que todos os este­reó­ti­pos devam ser demo­ni­za­dos e este­jam total­men­te erra­dos. Mas estão incom­ple­tos. O este­reó­ti­po beat aca­bou tão bati­do (segun­do tro­ca­di­lho ter­rí­vel) e pre­so que se con­so­li­dou como tal. Hoje, qual­quer refe­rên­cia aos beat­niks mais ser­ve para bons anún­ci­os de Converse All Star e jeans GAP.

 

* Luisa Geisler é auto­ra dos livros Quiçá (Record, 2012) e Contos de Mentira (Record, 2011). Foi incluí­da na anto­lo­gia Os melho­res jovens escri­to­res bra­si­lei­ros da revis­ta Granta.

, , , , , , , , ,