O corpo das mulheres como campo de batalha

Colunistas

01.06.16

Em car­taz até 19 de junho no tea­tro SESC Copacabana, Rio de Janeiro, a peça O cor­po da mulher como cam­po de bata­lha, ence­na­da a par­tir de tex­to do escri­tor rome­no Matéi Visniec (em tra­du­ção de Alexandre David), tra­ta do estu­pro como estra­té­gia na Guerra da Bósnia (1992–1995), o mai­or geno­cí­dio do sécu­lo XX depois da Segunda Guerra. Cada pala­vra dita pela víti­ma para sua psi­ca­na­lis­ta, uma nor­te-ame­ri­ca­na espe­ci­a­lis­ta em neu­ro­se trau­má­ti­ca, pode ser ouvi­da pela pla­teia cari­o­ca com uma for­ça dra­má­ti­ca além da den­si­da­de do tex­to ori­gi­nal, sobre­tu­do por ter estre­a­do na quin­ta-fei­ra, 26, mes­mo dia em que veio à tona a notí­cia do estu­pro da jovem de 16 anos, vio­len­ta­da a pri­mei­ra vez pelos infi­ni­tos homens, vio­len­ta­da a segun­da vez quan­do inú­me­ras vezes é acu­sa­da de ter pro­vo­ca­do o cri­me do qual foi víti­ma.

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Ester Jablonski (Kate) e Fernanda Nobre (Dorra) (Foto: Ana Alexandrino/Divulgação)

O espe­tá­cu­lo, diri­gi­do por Luis Fernando Philbert, nos apre­sen­ta uma jovem casa­da e mãe de dois filhos, cuja famí­lia havia sido dizi­ma­da na guer­ra (Fernanda Nobre como Dorra). Paralisada e muda, essa jovem foi estu­pra­da por cin­co homens. Não por cin­co estra­nhos, mas por cin­co homens vizi­nhos, conhe­ci­dos, sol­da­dos que deli­be­ra­da­men­te usa­ram o estu­pro de mulhe­res como for­ma de enfra­que­cer o ini­mi­go. Destituída de tudo que tinha, inclu­si­ve do pró­prio cor­po, dila­ce­ra­do pelo trau­ma da vio­la­ção, a per­so­na­gem vai se recons­ti­tuin­do dian­te da pla­teia, no que pode­ria ser cha­ma­do de expe­ri­ên­cia de trans­for­ma­ção, na qual a psi­ca­na­lis­ta inter­vém e expõe os pró­pri­os trau­mas de tra­ba­lhar na guer­ra (Ester Jablonski como Kate).

Para a psi­ca­ná­li­se, Dorra não é um nome qual­quer. Faz alu­são ao caso Dora, a paci­en­te his­té­ri­ca de Freud mar­ca­da por uma divi­são.  É des­de então uma refe­rên­cia para pen­sar o tema do femi­ni­no e sua rela­ção intrín­se­ca com a fal­ta, o que se expres­sa numa das pri­mei­ras falas de Dorra: “Não, eu não acre­di­to que pode­mos con­tar tudo. Não acre­di­to que pode­mos enten­der tudo. Não acre­di­to que tem um sen­ti­do em tudo que con­ta­mos. Não acre­di­to que tem um sen­ti­do no que estou dizen­do.” E, ain­da que con­cor­dan­do com Dorra, ou exa­ta­men­te por não poder­mos enten­der tudo, é neces­sá­rio con­tar, con­tar, con­tar. Para ten­tar dizer.

O estu­pro da jovem mora­do­ra de Jacarepaguá pode estar pro­du­zin­do, como per­ce­be a jor­na­lis­ta Dorrit Harazim, um efei­to que se dá a par­tir da abso­lu­ta fal­ta de sen­ti­do do estu­pro. É pre­ci­so dizer não, como fez a advo­ga­da Eloisa  Samy Santiago, ao con­se­guir o afas­ta­men­to do dele­ga­do no pro­ces­so, pro­van­do a vio­lên­cia na sua ati­tu­de no inter­ro­ga­tó­rio. Dizer não, como fize­ram a escri­to­ra Clara Averbuck e a can­to­ra Olívia Byington, ao nos con­ta­rem que estu­pro não acon­te­ce só em bai­le funk na peri­fe­ria. Dizer, como fez o  filó­so­fo Cláudio Oliveira, que “estu­pra­do­ra é a nos­sa soci­e­da­de, a soci­e­da­de bra­si­lei­ra. A situ­a­ção da mulher não é menos gra­ve, mas os negros, os pobres, os índi­os, os nor­des­ti­nos, os refu­gi­a­dos, os LGBTs… são todos tra­ta­dos como as mulheres.”Dizer, como há mui­to tem­po a pes­qui­sa­do­ra Julita Lemgruber vem dizen­do, que há homens estu­prá­veis nas pri­sões, máqui­nas de des­trui­ção e sofri­men­to.  Dizer que estu­pro é uma lógi­ca de domi­na­ção, como fez a filó­so­fa Márcia Tiburi. Ou ain­da dizer  que não foi só na  Bósnia, mas que todos os dias o cor­po das mulhe­res é cam­po de bata­lha de inú­me­ras guer­ras. Estupros cole­ti­vos são fil­ma­dos e vei­cu­la­dos como tro­féus.

Desde mui­to cedo, o cor­po de uma mulher é ensi­na­do a se com­por­tar, se con­ter, se mol­dar. Um cor­po que para­li­sa, como fize­ram as his­té­ri­cas, ou um cor­po que vomi­ta, como fazem as bulí­mi­cas. Um cor­po muti­lá­vel, como nas cirur­gi­as esté­ti­cas cujo obje­ti­vo é ade­qua­ção. Um cor­po do qual se dis­põe, como no estu­pro, e que só se apre­sen­ta como dis­po­ní­vel por não ser reco­nhe­ci­do como cor­po do outro nem como cor­po de dese­jo pró­prio. Um cor­po do qual qual­quer homem acha que pode se ser­vir para gozar da sua sexu­a­li­da­de supos­ta­men­te incon­tro­lá­vel. Um cor­po que car­re­ga sozi­nho todo o mal-estar da civi­li­za­ção, um cor­po sobre o qual os homens deje­tam a sua recu­sa em com­par­ti­lhar des­se mal-estar. Corpo des­ti­na­do a se per­der, cam­po de inú­me­ras guer­ras per­di­das, mas tam­bém cor­po como últi­mo ou úni­co lugar de resis­tên­cia.

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