O efeito bumerangue da repressão policial — quatro perguntas para Luiz Antonio Machado da Silva

Quatro perguntas

29.07.13

Para o soció­lo­go Luiz Antonio Machado da Silva, a ação das polí­ci­as mili­ta­res nas mani­fes­ta­ções de rua mos­tra sua his­tó­ri­ca cul­tu­ra de vio­lên­cia, mas des­ta vez teve um efei­to de bume­ran­gue: vol­tou-se con­tra ela e os inte­res­ses que defen­de, ampli­an­do a for­ça dos pro­tes­tos.

Autor de Vida sob cer­co — Violência e roti­na nas fave­las do Rio de Janeiro (Faperj/Nova Fronteira, 2008), o pro­fes­sor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro tam­bém ana­li­sa, nes­ta entre­vis­ta por e-mail, as ações dos gover­nos, que, em vez de nego­ci­ar para ten­tar absor­ver as mani­fes­ta­ções para as “dis­pu­tas polí­ti­cas roti­nei­ras”, como de hábi­to, par­tiu para a repres­são. “O gover­no, na acep­ção mais geral des­se ter­mo, desa­pren­deu as lições da his­tó­ria.”

Luiz Antonio Machado da Silva

Os gri­fos na entre­vis­ta são do pró­prio Machado, que não vê como viá­vel a des­mi­li­ta­ri­za­ção da polí­cia e tam­bém comen­ta a cober­tu­ra dos pro­tes­tos fei­ta pela gran­de impren­sa, que tem res­sal­ta­do os “van­da­lis­mos”. “Se as mani­fes­ta­ções não fos­sem fun­da­men­tal­men­te pací­fi­cas, as cida­des bra­si­lei­ras teri­am entra­do em um caos com­ple­to”, diz o soció­lo­go.

1) Como o senhor ana­li­sa a atu­a­ção da Polícia Militar do Rio de Janeiro nas mani­fes­ta­ções de rua que vêm ocor­ren­do na cida­de?

A Polícia Militar se com­por­ta, tra­di­ci­o­nal­men­te, como um órgão de defe­sa da ordem cons­ti­tuí­da, e não da cida­da­nia. Sua cul­tu­ra ins­ti­tu­ci­o­nal (o ethos cor­po­ra­ti­vo) é per­fei­ta­men­te ajus­ta­da aos valo­res e inte­res­ses hegemô­ni­cos, com­par­ti­lhan­do todos os pre­con­cei­tos e este­reó­ti­pos que pro­du­zem a segre­ga­ção soci­o­ter­ri­to­ri­al e a retra­ção da esfe­ra públi­ca polí­ti­ca. Em suma, é um dis­po­si­ti­vo de con­tro­le repres­si­vo dos estra­tos subal­ter­nos.

Esta ati­tu­de, his­to­ri­ca­men­te con­so­li­da­da, apa­re­ceu duran­te as mani­fes­ta­ções — e fun­ci­o­nou como um bume­ran­gue, pois foi um dos prin­ci­pais fato­res res­pon­sá­veis pela mas­si­vi­da­de das mani­fes­ta­ções. (A clas­se média, de um modo geral, não admi­te tor­nar-se obje­to da secu­lar vio­lên­cia poli­ci­al, como foi vis­to duran­te a rea­ção aos exces­sos da dita­du­ra.) Embora, para­do­xal­men­te, recru­ta­dos nas mes­mas cama­das soci­ais que sofrem roti­nei­ra­men­te a vio­lên­cia poli­ci­al, ela está tão entra­nha­da na men­ta­li­da­de dos agen­tes que não fica­ria sur­pre­en­di­do se vier a ser demons­tra­do que hou­ve exces­sos além dos orde­na­dos pela cúpu­la diri­gen­te, aí incluí­dos os ges­to­res não poli­ci­ais.

Especificamente quan­to à ordem de repri­mir as mani­fes­ta­ções, con­si­de­ro que há uma novi­da­de nes­ta que tem sido cha­ma­da de “vol­ta às ruas”. Secularmente, a repres­são às “clas­ses peri­go­sas” sem­pre ocor­ria de modo a pre­ve­nir que os pro­tes­tos che­gas­sem às ruas; quan­do, even­tu­al­men­te, isso não fun­ci­o­na­va como espe­ra­do, e as mani­fes­ta­ções che­ga­vam à esfe­ra públi­ca, os ges­to­res polí­ti­cos pas­sa­vam a nego­ci­ar, de modo a reab­sor­vê-las às dis­pu­tas polí­ti­cas roti­nei­ras, con­tro­la­das pelos apa­re­lhos de hege­mo­nia. No caso pre­sen­te, pare­ce que o gover­no, na acep­ção mais geral des­se ter­mo, desa­pren­deu as lições da his­tó­ria, inver­ten­do a sequên­cia entre con­tro­le repres­si­vo e con­tro­le nego­ci­a­do.

2) Virou voz cor­ren­te afir­mar que a repres­são da PM pau­lis­ta a uma mani­fes­ta­ção pelo pas­se livre nos ôni­bus, em 20 de junho, foi deter­mi­nan­te para a eclo­são de pro­tes­tos em todo o país. O senhor acre­di­ta que, em gran­de par­te, as atu­ais mani­fes­ta­ções são con­tra as polí­ci­as e o uso que os gover­nos esta­du­ais fazem delas?

Como suge­ri aci­ma, acre­di­to que a repres­são poli­ci­al ao MPL não foi pro­pri­a­men­te deter­mi­nan­te, mas con­di­ci­o­nou for­te­men­te os pro­tes­tos. Boa par­te da revol­ta cole­ti­va vol­tou-se con­tra “as polí­ci­as e o uso que os gover­nos esta­du­ais fazem delas”, entre outras ques­tões. O que a clas­se média, que é o seg­men­to mais repre­sen­ta­do nas mani­fes­ta­ções, deman­da não é exa­ta­men­te uma ordem soci­al igua­li­tá­ria e demo­crá­ti­ca; é, mais que isso, a manu­ten­ção da pro­te­ção poli­ci­al à liber­da­de de ação e de ir e vir a que está acos­tu­ma­da. No fun­do, a clas­se média deman­da menos ins­ti­tu­ci­o­na­li­da­de para si pró­pria, não para toda a soci­e­da­de. Considero que o fun­do comum das mani­fes­ta­ções, que tive­ram uma pau­ta cada vez mais pul­ve­ri­za­da ao lon­go do tem­po, é uma revol­ta difu­sa, sem pro­je­to, con­tra “tudo isso que aí está”, para­fra­se­an­do Collor. É a expres­são públi­ca de uma cri­se sis­tê­mi­ca, não de uma cri­se estru­tu­ral. Não está em ques­tão a cri­se de acu­mu­la­ção (que tam­bém exis­te, mas não faz par­te dos nos­sos pro­tes­tos), as con­fu­sas pau­tas dos movi­men­tos diri­gem-se gene­ri­ca­men­te con­tra todos os apa­re­lhos de gover­no, sobre­tu­do o exe­cu­ti­vo, além dos par­ti­dos e sin­di­ca­tos, que há tem­pos vêm se sepa­ran­do da soci­e­da­de. As deman­das que cons­tam da “vol­ta às ruas” expõem a enor­me impo­pu­la­ri­da­de de uma “gover­nan­ça”, como se diz ago­ra, que vem há tem­pos cor­tan­do os vín­cu­los com a soci­e­da­de, em par­ti­cu­lar com a par­te dela que tem con­di­ções de fazer-se ouvir, mas vem sen­do igno­ra­da tam­bém. Talvez para­do­xal­men­te, os pro­tes­tos pedem menos ins­ti­tu­ci­o­na­li­da­de como for­ma de rea­tar a rela­ção entre Estado e soci­e­da­de. Aliás, ao con­trá­rio dos pro­tes­tos mui­to menos visí­veis dos seg­men­tos subal­ter­nos, que pedem jus­ta­men­te mais ins­ti­tu­ci­o­na­li­da­de na crí­ti­ca à vio­lên­cia poli­ci­al, como for­ma de garan­tir o que eles têm de mais ame­a­ça­do: seu direi­to à vida, algo que há mui­to dei­xou de ser par­te da expe­ri­ên­cia soci­al dos seg­men­tos que não são obje­to do con­tro­le repres­si­vo coti­di­a­no. A expli­ci­ta­ção des­sa dua­li­da­de radi­cal da expe­ri­ên­cia vivi­da das popu­la­ções urba­nas, que se refle­te no sen­ti­do mais bási­co de seus pro­tes­tos, pode, no lon­go pra­zo, ser mui­to peri­go­sa para a esta­bi­li­da­de soci­al.

3) O senhor enten­de como pos­sí­vel a des­mi­li­ta­ri­za­ção da polí­cia ou esta é uma uto­pia absur­da?

Se a orga­ni­za­ção da vida soci­al fos­se pas­sí­vel de inter­ven­ções pura­men­te raci­o­nais, a “des­mi­li­ta­ri­za­ção da polí­cia” (ou sua for­mu­la­ção pro­gra­má­ti­ca, a fusão entre as polí­ci­as mili­tar e civil) já teria ocor­ri­do há tem­pos. Dito isso, é indis­pen­sá­vel acres­cen­tar que, se isso é neces­sá­rio, está lon­ge de ser sufi­ci­en­te. Razões his­tó­ri­cas mui­to pro­fun­das fazem com que o ethos poli­ci­al, não obs­tan­te algu­mas dife­ren­ças sig­ni­fi­ca­ti­vas entre as cor­po­ra­ções, é basi­ca­men­te vio­len­to, arbi­trá­rio e uni­la­te­ral, con­si­de­ran­do o con­jun­to da soci­e­da­de como ini­mi­go (ain­da que para uma par­te dela o pro­ce­di­men­to ten­da à sub­ser­vi­ên­cia e para outra seja a bru­ta­li­da­de).

Pessoalmente, não creio que haja uto­pi­as absur­das, ape­nas pro­je­tos mais ou menos viá­veis. A des­mi­li­ta­ri­za­ção da polí­cia, na minha opi­nião, faz par­te dos pro­je­tos menos viá­veis. Ela só pode­rá ser obti­da se for pos­sí­vel for­çar, de fora (da soci­e­da­de) para den­tro (para os apa­re­lhos poli­ci­ais) uma accoun­ta­bi­lity que está mui­to lon­ge do hori­zon­te, dada a for­ça dos inte­res­ses cor­po­ra­ti­vos, que lutam pela influên­cia polí­ti­ca e pela res­tri­ção à trans­pa­rên­cia e à fis­ca­li­za­ção públi­ca das ati­vi­da­des prá­ti­cas dos agen­tes. Isso não é impos­sí­vel, ape­nas impro­vá­vel no médio pra­zo, dado o conhe­ci­do poder das buro­cra­ci­as.

4) Como o senhor vê a cober­tu­ra da impren­sa e a ênfa­se no uso de pala­vras como “vân­da­los” e “bader­nei­ros”?

Em ter­mos gerais, o que se cha­ma de “mídia” é um con­jun­to de apa­re­lhos de hege­mo­nia, os quais, não obs­tan­te os con­fli­tos inter­nos nada des­pre­zí­veis, con­tri­bu­em para a pro­du­ção de uma ordem soci­al favo­rá­vel aos inte­res­ses e valo­res dos seg­men­tos domi­nan­tes. Apesar de mui­to pode­ro­sos, esses apa­re­lhos não são intei­ra­men­te livres, pois depen­dem da recep­ção pelos usuá­ri­os, que varia des­de a ade­são ple­na até a rejei­ção pura e sim­ples, pas­san­do pela crí­ti­ca. Considero que isso expli­ca a osci­la­ção da mídia na cober­tu­ra das mani­fes­ta­ções, com o repú­dio ini­ci­al, segui­do da acei­ta­ção um tan­to cons­tran­gi­da, até as ten­ta­ti­vas mais recen­tes de con­tro­le ide­o­ló­gi­co e redu­ção da mas­si­vi­da­de dos pro­tes­tos.

É nes­te últi­mo momen­to que apa­re­cem as refe­rên­ci­as rei­te­ra­das aos “vân­da­los” e “bader­nei­ros”. Em pri­mei­ro lugar, a fim de garan­tir um míni­mo de con­fi­a­bi­li­da­de que é con­di­ção de pos­si­bi­li­da­de de sua exis­tên­cia, a mídia não pode, pura e sim­ples­men­te, men­tir. Não é da men­ti­ra, mas da “inter­pre­ta­ção”, que deri­va sua for­ça polí­ti­co-ide­o­ló­gi­ca. Daí que “vân­da­los” e “bader­nei­ros” efe­ti­va­men­te exis­tem — espe­ci­al­men­te em uma con­jun­tu­ra em que os aspec­tos dis­rup­ti­vos da cri­mi­na­li­da­de coti­di­a­na são indi­re­ta­men­te esti­mu­la­dos pelas polí­ti­cas de segu­ran­ça.

Por outro lado, não são os “vân­da­los” e “bader­nei­ros” que dão o tom dos pro­tes­tos. Estes são, em sua esma­ga­do­ra mai­o­ria, pací­fi­cos. Aliás, dada sua orga­ni­za­ção pre­cá­ria e for­te­men­te indi­vi­du­a­lis­ta, se as mani­fes­ta­ções não fos­sem fun­da­men­tal­men­te pací­fi­cas, as cida­des bra­si­lei­ras teri­am entra­do em um caos com­ple­to. Note-se, de pas­sa­gem, que o repú­dio à incor­po­ra­ção dos par­ti­dos e sin­di­ca­tos foi esti­mu­la­do pela mídia (é dis­cu­tí­vel se foi, efe­ti­va­men­te, uma “caro­na” opor­tu­nis­ta ou uma rea­ção à mani­pu­la­ção das deman­das pela direi­ta com o auxí­lio da mídia).

Finalmente, creio que será neces­sá­ria mui­ta pes­qui­sa para clas­si­fi­car empi­ri­ca­men­te quem são, de fato, os “vân­da­los” e “bader­nei­ros”. Tenho a impres­são de que há, basi­ca­men­te, dois gru­pos: a) aque­le que é favo­rá­vel à vio­lên­cia polí­ti­ca, con­si­de­ra­da um recur­so legí­ti­mo da obten­ção de mudan­ças soci­ais; b) gru­pos cri­mi­nais que pro­mo­vem depre­da­ções como meio de obten­ção de inte­res­ses mate­ri­ais. Como resul­ta­do não inten­ci­o­nal de suas ati­vi­da­des, ambos esses gru­pos se auxi­li­am mutu­a­men­te e, de cer­ta manei­ra, aca­bam por con­fun­dir-se em suas prá­ti­cas, dan­do mar­gem a uma “inter­pre­ta­ção” sobre sua impor­tân­cia cres­cen­te pela mídia.

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