O escritório (e o quarto) de Oscar Niemeyer

Arquitetura

12.12.12

Niemeyer em seu escri­tó­rio (Fotografia: Carlos Moskovics)

Em 1996, Marcos Sá Corrêa publi­cou na série Perfis do Rio (Prefeitura do Rio/Relume Dumará) um volu­me sobre Oscar Niemeyer. Com o tex­to flu­en­te e ele­gan­te que são mar­ca de um dos prin­ci­pais jor­na­lis­tas de sua gera­ção, o livro con­ci­lia a abor­da­gem (por vezes crí­ti­ca) das gran­des obras do arqui­te­to com cau­sos da vida coti­di­a­na. O pri­mei­ro capí­tu­lo, “O quar­to”, tem algu­mas sabo­ro­sas pági­nas dedi­ca­das à roti­na pecu­li­ar dos escri­tó­ri­os coman­da­dos por Niemeyer, dos meno­res no Centro do Rio de Janeiro até o últi­mo, com des­lum­bran­te vis­ta para o mar de Copacabana. Bebida, mui­ta ale­gria, algu­ma polí­ti­ca e até sexo per­me­a­vam o dia a dia de um dos escri­tó­ri­os de arqui­te­tu­ra mais impor­tan­tes do mun­do. Selecionamos alguns tre­chos do capí­tu­lo ini­ci­al, devol­ven­do ao públi­co um livro que está fora de catá­lo­go.

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Chega-se ao escri­tó­rio dobran­do um joe­lho da esca­da, onde os degraus, ao fazer a vol­ta, tam­pa­ram a meia-altu­ra a por­ta do ele­va­dor de ser­vi­ço. Quem não gos­ta de Oscar Niemeyer pode­ria dar por vis­ta a sua arqui­te­tu­ra nes­se pon­to. Ei-la a desa­fi­ar outra vez o espí­ri­to prá­ti­co, ante­ce­den­do o homem que, na Argélia, esque­ceu de pre­ver entre dois pavi­men­tos a pas­sa­gem de um para o outro. No Rio de Janeiro, para resol­ver pro­ble­mas de ron­co no quar­to de casal do médi­co Leonel Miranda, na Gávea, divi­diu o lei­to con­ju­gal com um vidro. Já os devo­tos de Oscar Niemeyer têm ali a opor­tu­ni­da­de de cons­ta­tar que até do lado de fora de sua cober­tu­ra abo­liu-se a viga que, na arqui­te­tu­ra bra­si­lei­ra, esco­ra a dis­cri­mi­na­ção soci­al na vida coti­di­a­na ? o ele­va­dor de ser­vi­ço, reser­va­do à car­ga e aos cida­dãos que conhe­cem o seu lugar. O edi­fí­cio tem dois ele­va­do­res. Niemeyer, um. Esse des­con­to se imor­ta­li­zou nos anais do con­do­mí­nio, quan­do em 1992 o edi­fí­cio Ypiranga ? ou melhor, Niemeyer ? rece­beu a visi­ta de, modés­tia à par­te, Fidel Castro. Ha entre Fidel e Niemeyer uma afi­ni­da­de que aumen­ta com o pas­sar dos anos, a pro­por­ção em que dimi­nui na enxur­ra­da mun­di­al do neo­li­be­ra­lis­mo o núme­ro de comu­nis­tas fora dos livros de História. “Sólo que­da­ron dos comu­nis­tas, Oscar y yo”, cos­tu­ma dizer Fidel ? ou melhor, cos­tu­ma dizer Fidel na imi­ta­ção que dele faz José Aparecido de Oliveira, peri­to em ata­za­nar seu ami­go Niemeyer com pia­das do gêne­ro.

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Abre-se a por­ta do escri­tó­rio e dois pas­sos adi­an­te ? paft! ? um cla­rão quei­ma o ambi­en­te. À pri­mei­ra vis­ta, é como se o escri­tó­rio nem exis­tis­se. Ou pelo menos como se a sala bran­ca, sem divi­só­ri­as, com pou­cos móveis, vara­da de pon­ta a pon­ta pela luz do mar que entra pelos vidros sem o fil­tro de cor­ti­nas e per­si­a­nas, exis­tis­se ape­nas como mol­du­ra da jane­la. O escri­tó­rio e a jane­la. Leva algum tem­po para o olho des­co­lar da vidra­ça que bri­lha em fren­te e se dis­por a um pas­seio pelo cômo­do, onde as pou­cas peças são todas conhe­ci­das de algum lugar, seja esse lugar um pré­dio públi­co de Brasília ou uma revis­ta inter­na­ci­o­nal de arqui­te­tu­ra. Ali está a espre­gui­ça­dei­ra de balan­ço, resu­mi­da num arco com almo­fa­da. E a mar­que­sa de palhi­nha, de bra­ços retor­ci­dos como um bro­to de samam­baia. Tudo isso, embo­ra debai­xo do nariz, vem em segun­do pla­no. Em pri­mei­ro está, lá no fun­do da sala, a melhor vis­ta que se pos­sa con­ce­ber da praia de Copacabana.

Aquilo não é só uma jane­la, mes­mo uma jane­la de 17 metros. É um mural lumi­no­so, um pai­nel em que o Rio de Janeiro estam­pa dia­ri­a­men­te, vári­as vezes por dia, a cada movi­men­to do sol, em toda mudan­ça de nuvem, tudo o que a cida­de ain­da tem a dizer sobre terem leva­do a capi­tal para Brasília. “A gen­te se sen­te num navio”, comen­ta Niemeyer. É mais do que isso. A gen­te não se sen­te dian­te do arqui­te­to de Brasília, mas do arqui­te­to cari­o­ca que pas­sou a mai­or pane de sua lon­ga vida entre dois bair­ros do Rio de Janeiro. Ele vai dizen­do:

? Sempre gos­tei da praia. Quando eu era meni­no, meu pai alu­ga­va no verão uma casa aqui em Copacabana. Fui cri­a­do em Laranjeiras, mas no verão daque­le tem­po, como outras famí­li­as iam pata a ser­ra, nós vínha­mos para cá. De noi­te a famí­lia se sen­ta­va na areia. A casa era bem na bei­ra da praia. E ela era lin­da. Eu gos­ta­va de ver o arras­tão, os bar­cos em silhu­e­ta cor­ren­do no mar e os pei­xes che­gan­do, com aque­la gen­te toda em vol­ta. Essa praia foi sem­pre mui­to impor­tan­te para mim.

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(…) Nos expe­di­en­tes inter­mi­ná­veis, nos serões que varam a noi­te, nos fins de sema­na de fun­ci­o­na­men­to sem tré­gua acon­te­ce cada coi­sa que só mes­mo as memó­ri­as de Niemeyer para mexer. As memó­ri­as ou ami­gos mui­to che­ga­dos, como Carlinhos Niemeyer, que apre­sen­ta o caso sem cir­cun­ló­qui­os: “Sempre teve fode­lan­ça no escri­tó­rio do Oscar.” Um quar­to com cama fei­ta e banhei­ro, de pron­ti­dão para emer­gên­ci­as. Depois, dizem que ele não pen­sa em ques­tões de fun­ci­o­na­li­da­de. “Era mui­to prá­ti­co o quar­to para esses tro­ços”, diz Carlinhos. Um quar­to, diga-se de pas­sa­gem, equi­pa­do para todo tipo de diver­são, dis­pon­do inclu­si­ve de um bura­co fei­to à bala na pare­de, dan­do para o for­ro de um armá­rio, de onde se podia vigi­ar a cama. Esse visor, por exem­plo, mere­ceu mui­tas linhas de memó­ri­as. Um dia, ele foi mos­tra­do, sem a neces­sá­ria intro­du­ção, a um enge­nhei­ro da Novacap, a agên­cia urba­ni­za­do­ra de Brasília. O cli­en­te esta­va no escri­tó­rio para cui­dar de assun­tos pro­fis­si­o­nais e era tido como “sério e com­pe­ne­tra­do”. Usava boti­nas de elás­ti­co do Rio de Janeiro da déca­da de 1960. Debruçado na pran­che­ta, olhan­do pla­nos para a Capital, foi cha­ma­do a um can­to por Niemeyer:

? Olha nes­se bura­co.

Havia um casal em ação. Ele se recompôs como pôde, armou-se do ar de quem não tinha gos­ta­do e vol­tou para a mesa de tra­ba­lho. Alguém gri­ta às suas cos­tas:

? Fica aí olhan­do. Quando esti­ver inte­res­san­te, cha­me o Dr. Guimarães.

Surpreso, Dr. Guimarães? Os escri­tó­ri­os de Oscar Niemeyer sem­pre foram ale­gres. “Tão ale­gres”, ele admi­te, “que, não raro, o trans­for­má­va­mos num ver­da­dei­ro fes­ti­val”. Os expe­di­en­tes sem­pre foram lon­gos, duplos, tri­plos, por­que neles se fez mais do que tra­ba­lhar. No míni­mo, polí­ti­ca. “À tar­de, os ami­gos apa­re­cem, enchem de risos e ale­gria a peque­na sala’ que ocu­po, e esque­ce­mos a arqui­te­tu­ra”, ele escre­veu. Suas memó­ri­as não con­ser­va­ram pro­pri­a­men­te o ine­di­tis­mo. Conservaram o reca­to por ini­ci­a­ti­va alheia. Recolhidos pelo crí­ti­co Jean Petit, capí­tu­los qua­se intei­ros foram publi­ca­dos em fran­cês, aliás numa edi­ção de luxo, impres­sa na Itália. No Brasil, em 1992, a edi­to­ra Revan, do ami­go Renato Guimarães, trou­xe à tona outras fati­as dos manus­cri­tos, sele­ci­o­na­dos num livro inte­res­san­te ? Meu Sósia e Eu ?, onde Niemeyer con­fes­sa o quan­to deve de sua arqui­te­tu­ra aos demô­ni­os inter­nos, inca­pa­zes de se com­por­tar dian­te de uma mulher. Nos dois casos, pou­pou-se ao arqui­te­to de Brasília a exi­bi­ção do malan­dro cari­o­ca, que é seu sósia e seu sócio em toda a obra monu­men­tal que ele teve a impres­são de fazer brin­can­do num escri­tó­rio onde toda noi­te, como ele diz, “os ami­gos apa­re­cem, o Estelita gri­tan­do pelo gelo, o Rômulo com duas gar­ra­fas debai­xo do bra­ço”.

Quem gos­ta­va mui­to de ouvir rela­tó­ri­os sobre as ati­vi­da­des extra­cur­ri­cu­la­res do escri­tó­rio de Niemeyer era Rodrigo Mello Franco de Andrade, san­to padro­ei­ro do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. “Muitas vezes ia vê-lo cedo, des­cen­do jun­tos para a cida­de. Falávamos de tudo e, não raro, da bagun­ça que fazía­mos no escri­tó­rio”, con­ta o arqui­te­to, des­cre­ven­do o rela­ci­o­na­men­to com o ami­go que o indu­ziu a ler já adul­to os clás­si­cos por­tu­gue­ses. Um sujei­to sério que, segun­do Niemeyer, vivia lhe per­gun­tan­do: “E as coi­sas lá no escri­tó­rio?” Que não hou­ves­se dúvi­das: “Ele acha­va fan­tás­ti­co aque­le ambi­en­te de bagun­ça que nun­ca pre­ju­di­cou o tra­ba­lho. Todo mun­do tra­ba­lha­va ? e mui­to”. Para ele, Niemeyer e sua equi­pe “pare­ci­am cri­an­ças”.

A que escri­tó­rio se refe­rem essas lem­bran­ças? Só fazen­do as con­tas. Foram mui­tos e um só. A mes­ma roti­na pulou entre vári­os ende­re­ços no Rio, acam­pou em Brasília, fez ninho nos Champs Elysées em Paris, andou por Argel, no nor­te da África. Na déca­da de 1940, esta­va ins­ta­la­do na rua Nilo Peçanha, no edi­fí­cio Porto Alegre, defron­te do Ministério da Educação e Saúde. Niemeyer come­ça­va seu vôo pró­prio, sal­tan­do de um lon­go está­gio com o arqui­te­to Lúcio Costa, já com a repu­ta­ção e a cli­en­te­la fei­tas. Tinha encos­ta­do o dedo de prin­ci­pi­an­te na pró­pria sede do minis­té­rio, modi­fi­can­do o pro­je­to de Le Corbusier. Em par­ce­ria com Lúcio Costa, fize­ra o pavi­lhão bra­si­lei­ro para a Feira Internacional de Nova York em l939. Juscelino Kubitschek, o pre­fei­to de Belo Horizonte, entre­ga­ra-lhe o cas­si­no, o iate clu­be, o res­tau­ran­te, a igre­ja de São Francisco de Assis, toda a Pampulha. Tomara-se, por­tan­to, um arqui­te­to res­pei­tá­vel.

Pois foi nes­se escri­tó­rio que um dia, vol­tan­do o gru­po de uma incur­são ao Centro, ani­ma­do pelo cir­cui­to de boa­tes, bilha­res, hotéis e pros­tí­bu­los que aten­di­am à polí­ti­ca naci­o­nal ain­da sedi­a­da no Rio de Janeiro, o arqui­te­to Carlos Leão ? fino dese­nhis­ta, tão fino que com o pas­sar dos anos seria cada vez mais dese­nhis­ta e menos arqui­te­to ? deco­rou as pare­des da sala com cenas de baca­nal. Cenas com­ple­tas, com fili­gra­nas gine­co­ló­gi­cas, falos, bichos, o escam­bau. A famí­lia Niemeyer ocu­pa­va, na oca­sião, dois apar­ta­men­tos con­tí­guos no edi­fí­cio Porto Alegre, No peque­no, arru­ma­va-se o arqui­te­to. No mai­or, fica­va o con­sul­tó­rio médi­co do neu­ro­lo­gis­ta Paulo Niemeyer ? o irmão mais novo ?, a sala de espe­ra comum. Graças a Deus, como reco­nhe­ce o cirur­gião até hoje, “escri­tó­rio de arqui­te­tu­ra dis­pen­sa sala de espe­ra.”

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Andaram tro­can­do de pon­tos na rua do Passeio, inclu­si­ve no edi­fí­cio Mesbla, onde Niemeyer se deu mui­to bem: “É lógi­co que nos diver­tía­mos; que as mulhe­res com­pa­re­ci­am, que inven­tá­va­mos todas as brin­ca­dei­ras per­mi­ti­das à juven­tu­de, mas que pelos pre­con­cei­tos da vida pode­ri­am ser cri­ti­ca­das, embo­ra o nos­so tra­ba­lho seguis­se para­le­lo, cheio de espe­ran­ças e res­pon­sa­bi­li­da­de. Velhos tem­pos! E a Cinira?”

Cinira? Bem, Cinira foi uma secre­tá­ria par­ti­cu­lar­men­te inte­gra­da ao espí­ri­to da coi­sa, Um dia depois de con­tra­ta­da, per­fei­ta­men­te à von­ta­de, ade­riu de cor­po e alma, come­çan­do pelo cor­po, aos esta­tu­tos daque­la con­fra­ria, sem dis­cri­mi­nar entre o time local e o visi­tan­te. Voltando, por­tan­to, a Niemeyer: “E a Cinira? Que de nos­sas brin­ca­dei­ras par­ti­ci­pa­va, bela e bar­ro­ca como as pre­fe­ría­mos? Como é tris­te sen­tir tudo isso tão lon­ge como a pró­pria vida! E fico a lem­brá-la ale­gre e gene­ro­sa, a rir desi­ni­bi­da como uma velha e que­ri­da com­pa­nhei­ra. É cla­ro que mui­tas vezes o tra­ba­lho nos ocu­pa­va, que labu­tá­va­mos noi­tes segui­das, até a madru­ga­da, sobre as pran­che­tas do escri­tó­rio. Mas com que ale­gria o fechá­va­mos para, em gru­po, brin­car­mos um pou­co!”

No escri­tó­rio do Passeio Público alte­ra­ram-se alguns hábi­tos da equi­pe, mas não os essen­ci­ais. Havia um ren­dez-vous já fun­ci­o­nan­do no andar de cima. O Café Vermelhinho, anti­ga fili­al do escri­tó­rio, dei­xou de ser fre­quen­ta­do. Usavam-se os ban­cos do Passeio Público para tra­ba­lhar ao ar livre, por cau­sa das “árvo­res fron­do­sas, dos cami­nhos de sai­bro, das ele­va­ções do ter­re­no cri­an­do inti­mi­da­des. E como era bra­si­lei­ro e tro­pi­cal, ver­des sobre ver­des!” Visitavam tam­bém o bilhar: “Quantas tar­des lá pas­sa­mos a pro­cu­rar caça­pa! Às vezes, ao nos­so lado, um ami­go acer­ta­va o taco, com­pe­ne­tra­do. Era o maes­tro Heitor Villa-Lobos, com seu inse­pa­rá­vel cha­ru­to, o gênio e a sim­pli­ci­da­de se com­ple­tan­do”.

Veja tam­bém:

Texto de Ana Luiza Nobre sobre a car­rei­ra do arqui­te­to

Debate sobre a obra de Oscar Niemeyer rea­li­za­do pelos crí­ti­cos Guilherme Wisnik e Pedro Fiori Arantes para a seção Desentendimento, da revis­ta ser­ro­te

Ensaio de Adrián Gorelik inti­tu­la­do “Sobre a impos­si­bi­li­da­de de (pen­sar) Brasília”

Fotos de Marcel Gautherot das obras de Niemeyer

O des­ti­no de Brasília”, ensaio do arqui­te­to bri­tâ­ni­co Kenneth Frampton

Cidade-ban­dei­ra, por Heloisa Espada

Brasília, 1954, foto­gra­fi­as de Jorge Bodanzky

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