O estranho caso de Manoel

No cinema

30.08.13

O estranho caso de Angélica

A pri­mei­ra coi­sa que vem à men­te quan­do se pen­sa em Manoel de Oliveira é sua qua­se inve­ros­sí­mil lon­ge­vi­da­de: 104 anos. Para cúmu­lo, ele segue fil­man­do. E a fase outo­nal de sua car­rei­ra é a mais pro­du­ti­va: nas últi­mas duas déca­das ele rea­li­zou em média um fil­me por ano.

Mas não se tra­ta aqui de exal­tar núme­ros, à manei­ra de um livro Guinness. Estamos falan­do de arte. E Manoel de Oliveira é um gran­de artis­ta em seu apo­geu: O estra­nho caso de Angélica (2010) é a pro­va dis­so.

http://www.youtube.com/watch?v=stcZ16XHtys

Penúltimo lon­ga-metra­gem do cine­as­ta, que depois dele já diri­giu O Gebo e a som­bra e dois seg­men­tos de fil­mes cole­ti­vos, O estra­nho caso, que entra ago­ra em car­taz no Brasil, põe em cena um fotó­gra­fo, Isaac (Ricardo Trêpa, neto do dire­tor), da cida­de­zi­nha de Peso da Régua, cha­ma­do à pro­pri­e­da­de de uma famí­lia abas­ta­da para foto­gra­far a jovem Angélica (Pilar López de Ayala), mor­ta no dia do pró­prio casa­men­to.

O pro­sai­co e o sonho

A par da estra­nhe­za da mis­são, o fato de Isaac ter sido cha­ma­do no meio da noi­te e de enfren­tar um tene­bro­so tem­po­ral para che­gar à quin­ta onde jaz a defun­ta recen­te suge­re a tra­ves­sia para uma outra dimen­são de rea­li­da­de, con­for­me uma figu­ra de lin­gua­gem mui­to fre­quen­te no cine­ma fan­tás­ti­co.

Mas o encan­to do fil­me de Manoel de Oliveira con­sis­te em man­ter um pé anco­ra­do no rea­lis­mo pro­sai­co e coti­di­a­no, ao mes­mo tem­po em que o sonho e a fan­ta­sia inva­dem a vida do pro­ta­go­nis­ta. O pri­mei­ro sig­no de per­tur­ba­ção da ordem raci­o­nal, diur­na, emer­ge quan­do o fotó­gra­fo enqua­dra a don­ze­la mor­ta e esta lhe sor­ri (ou assim lhe pare­ce) atra­vés do visor da câme­ra. É o iní­cio de uma obses­são que fará Isaac sonhar com Angélica viva e mis­tu­rar esses sonhos com a rea­li­da­de da vigí­lia.

Nas fotos que ele reve­la na pró­pria pen­são onde mora, e que põe para secar no varal do quar­to, a moça revi­ve quan­do toca­da pelo olhar de Isaac. É o dese­jo do fotó­gra­fo, ou antes seu afe­to, que con­fe­re vida à ima­gem está­ti­ca.

Há uma des­con­cer­tan­te mis­tu­ra de tem­pos no fil­me. Nas refei­ções à mesa da pen­são (de que par­ti­ci­pa uma per­so­na­gem bra­si­lei­ra vivi­da por Ana Maria Magalhães), dis­cu­tem-se pro­ble­mas do mun­do atu­al, mas os tra­ba­lha­do­res do cam­po que Isaac foto­gra­fa do outro lado do rio Douro, com suas can­ti­gas de lida, pare­cem saí­dos de outra épo­ca, e uma atmos­fe­ra de ana­cro­nis­mo impreg­na tudo o que diz res­pei­to a Angélica e sua rela­ção com o fotó­gra­fo.

Angélica, Laura, Rebecca

O pró­prio pro­ces­so foto­grá­fi­co arte­sa­nal leva­do a cabo por Isaac, bem como os efei­tos óti­cos que remon­tam à infân­cia do cine­ma (falou-se mui­to em Méliès, com razão), infun­de um sabor de pas­sa­do que con­diz com o ges­to essen­ci­al do pro­ta­go­nis­ta, que é o de pre­ser­var da extin­ção e do esque­ci­men­to aqui­lo que vê: Angélica, os tra­ba­lha­do­res, os cam­pos. Um tra­ba­lho de memó­ria, sem dúvi­da, mas tam­bém de magia ou demiur­gia: res­sus­ci­tar o que já mor­reu, cri­ar vida a par­tir da maté­ria iner­te.

A figu­ra ins­pi­ra­do­ra e inqui­e­tan­te de Angélica, ao mes­mo tem­po ausen­te e pre­sen­te, reme­te a outras per­so­na­gens aná­lo­gas do cine­ma, como a Laura de Preminger e a Rebecca de Hitchcock, que tam­bém pre­si­dem o dra­ma a par­tir de seus retra­tos.

Imagem, memó­ria, amor e poe­sia se con­fun­dem no cine­ma de Manoel de Oliveira, são qua­se ter­mos inter­cam­biá­veis. Mas isso não se dá de modo ado­ci­ca­do, sen­ti­men­tal ou autoin­dul­gen­te, mas, ao con­trá­rio, sob a for­ma de atri­to e estra­nha­men­to.

Anacronismo, recur­so poé­ti­co

O ana­cro­nis­mo deli­be­ra­do é um recur­so poé­ti­co cons­tan­te na obra do cine­as­ta. Sem que­rer esten­der demais a aná­li­se, bas­ta lem­brar, por exem­plo, de A car­ta (1999), sua trans­po­si­ção para os dias de hoje do roman­ce seis­cen­tis­ta A prin­ce­sa de Clèves, de Madame de La Fayette, no qual a jovem espo­sa de um fidal­go (Chiara Mastroianni) é cor­te­ja­da por um roquei­ro (Pedro Abrunhosa). Ou então deVale Abraão (1993), a ver­são por­tu­gue­sa e con­tem­po­râ­nea de Augustina Bessa-Luís para Madame Bovary.

Talvez as par­ti­cu­la­ri­da­des his­tó­ri­cas de Portugal favo­re­çam esse entre­cho­que de tem­pos e cul­tu­ras, tal como demons­tra­do sobe­ja­men­te em Viagem ao prin­cí­pio do mun­do (1997), mas o fato é que Manoel de Oliveira se esfor­ça para man­ter vivo o pas­sa­do nas entra­nhas do pre­sen­te, de tal modo que o tem­po de suas nar­ra­ti­vas pare­ce sem­pre um tan­to inde­fi­ni­do, des­fo­ca­do, arti­fi­ci­al no melhor sen­ti­do da pala­vra (obra de artí­fi­ce).

Mundo cri­a­do, infen­so à repre­sen­ta­ção mimé­ti­ca do real. O cine­ma como ter­re­no livre para todas as espe­cu­la­ções filo­só­fi­cas e asso­ci­a­ções poé­ti­cas, pátria de todos os sonhos do mun­do.

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