O diretor Clint Eastwood

O diretor Clint Eastwood

O fator humano

No cinema

16.12.16

Diante de um fil­me como Sully, de Clint Eastwood, o espec­ta­dor ingê­nuo tem a impres­são de que tudo esta­va dado de ante­mão – o acon­te­ci­men­to real, os per­so­na­gens, o dra­ma – e de que bas­ta­vam os recur­sos mate­ri­ais e tec­no­ló­gi­cos dis­po­ní­veis em Hollywood para colo­car essa his­tó­ria na tela. “Com um mate­ri­al des­ses, qual­quer um pode­ria ter fei­to esse fil­me”, diria ele. Ledo enga­no.

Os acon­te­ci­men­tos de 15 de janei­ro de 2009, quan­do o Airbus pilo­ta­do por Chesley “Sully” Sullenberger fez um iné­di­to pou­so for­ça­do nas águas géli­das do rio Hudson pou­co depois de ter deco­la­do do aero­por­to de La Guardia, em Nova York, pode­ri­am gerar um fil­me-catás­tro­fe vul­gar, um melo­dra­ma caça-níqueis, uma fábu­la edi­fi­can­te ou de auto­a­ju­da, um libe­lo con­tra a ganân­cia das empre­sas aére­as e com­pa­nhi­as de segu­ro.

Indivíduo e cir­cuns­tân­cia

Clint Eastwood não fez nada dis­so. Na melhor tra­di­ção do cine­ma clás­si­co ame­ri­ca­no – a de John Ford e Howard Hawks – ele ence­nou o dra­ma do indi­ví­duo que, mes­mo em con­di­ções adver­sas, bus­ca cum­prir seu dever com inte­gri­da­de e com­pe­tên­cia. A fra­se dita a cer­ta altu­ra por Sully (Tom Hanks), “I did my job” [“Eu fiz o meu tra­ba­lho”], resu­me a éti­ca bási­ca des­sa estir­pe de per­so­na­gens.

Não há spoi­ler aqui. Desde o iní­cio sabe­mos que, com o ines­pe­ra­do e espe­ta­cu­lar pou­so no rio, as 155 pes­so­as a bor­do, entre pas­sa­gei­ros e tri­pu­lan­tes, sobre­vi­ve­ram pra­ti­ca­men­te sem feri­men­tos e Sully, em con­sequên­cia, foi acla­ma­do como herói naci­o­nal. Mas isso não o pou­pou de enfren­tar uma dura sin­di­cân­cia que recons­ti­tuiu em minú­ci­as os minu­tos ante­ri­o­res ao pou­so e inves­ti­gou as outras pos­si­bi­li­da­des de solu­ção (vol­tar ao La Guardia, pou­sar em Nova Jersey).

Nesse pro­ces­so, Sully defron­ta-se con­si­go mes­mo, com sua cons­ci­ên­cia, com sua memó­ria. Emergem dúvi­das e ambi­gui­da­des que nem sem­pre fazi­am par­te do herói típi­co do cine­ma clás­si­co, mas que têm sido fre­quen­tes na fil­mo­gra­fia recen­te de Eastwood, empe­nha­da em dis­cu­tir a natu­re­za e os limi­tes do con­cei­to de “herói”.

Aqui, tra­ta-se de explo­rar a estrei­ta mar­gem de ação que res­ta ao indi­ví­duo dian­te das cons­tri­ções da tec­no­lo­gia e das ins­ti­tui­ções (com­pa­nhia aérea, segu­ra­do­ra, agên­cia de avi­a­ção, gover­no, mídia). O enfren­ta­men­to cru­ci­al, con­tu­do, é inte­ri­or: fiz a coi­sa cer­ta? Poderia ter fei­to melhor?

Sully não sub­ver­te pro­pri­a­men­te as con­ven­ções nar­ra­ti­vas e dra­má­ti­cas de um fil­me de gran­de pro­du­ção, mas de cer­ta for­ma as usa a seu favor, par­tin­do do cli­chê para cons­truir um olhar ori­gi­nal. Há, por exem­plo, a ine­vi­tá­vel rela­ção sen­ti­men­tal do pro­ta­go­nis­ta com a mulher, em tele­fo­ne­mas suces­si­vos e cada vez mais dra­má­ti­cos, mas evi­ta-se a ape­la­ção de pôr em cena suas filhas e diá­lo­gos cho­ro­sos do tipo “I love you daddy”, “I love you too, swe­ethe­art” [“Eu amo você, papai”, “Eu tam­bém te amo, que­ri­da”].

Drama sóbrio

Há as bre­ves e ine­vi­tá­veis cenas des­cri­ti­vas de alguns dos pas­sa­gei­ros e tri­pu­lan­tes antes da deco­la­gem (uma mulher com a mãe ido­sa cadei­ran­te, um homem que qua­se per­de o voo e sen­ta lon­ge do filho, uma jovem com um bebê de colo, duas aero­mo­ças que tro­cam ame­ni­da­des), mas não se explo­ra isso com o tra­di­ci­o­nal mani­queís­mo e sen­ti­men­ta­lis­mo dos fil­mes-catás­tro­fe.

Essas coi­sas aju­dam a dar den­si­da­de huma­na ao espe­tá­cu­lo, a tor­nar vívi­dos e con­cre­tos os seres envol­vi­dos, para além da fri­e­za dos núme­ros. As cenas mais pun­gen­tes, ao menos para mim, são as de per­so­na­gens anô­ni­mos, fil­ma­das com sobri­e­da­de, sem ênfa­ses visu­ais ou sono­ras.

Por exem­plo: o jovem con­tro­la­dor de voo ten­ta man­ter o san­gue frio e ori­en­tar o avião para um pou­so segu­ro, até que per­de o con­ta­to com a cabi­ne e ouve de um pilo­to de heli­cóp­te­ro o rela­to do que pare­cia ser uma catas­tró­fi­ca que­da na água. Mostra-se a tela do moni­tor, o ambi­en­te da sala de con­tro­le, o che­fe da equi­pe e, quan­do a câme­ra vol­ta para o rapaz, uma dis­cre­ta lágri­ma está rolan­do por seu ros­to. Assim como Sully, ele esta­va “doing his job” da melhor manei­ra pos­sí­vel. É qua­se como se a câme­ra, assim como o per­so­na­gem, qui­ses­se escon­der aque­la lágri­ma, em vez de expô-la com estri­dên­cia como acon­te­ce no cine­ma vul­gar.

No mais, Sully é uma orques­tra­ção enge­nho­sa e pre­ci­sa do aci­den­te vis­to de dife­ren­tes ângu­los, não ape­nas em ter­mos visu­ais, mas tam­bém huma­nos. Em momen­tos dife­ren­tes da nar­ra­ti­va, vemos a amer­ris­sa­gem do pon­to de vis­ta dos pilo­tos, dos pas­sa­gei­ros, da tri­pu­la­ção de uma bar­ca de trans­por­te flu­vi­al, de tran­seun­tes de uma rua da cida­de, do pilo­to de um heli­cóp­te­ro etc.

Embora sejam ima­gens obvi­a­men­te espe­ta­cu­la­res (a exem­plo da sequên­cia do tsu­na­mi no iní­cio de Além da vida, de Eastwood), o espe­tá­cu­lo não se sobre­põe à per­cep­ção huma­na. Dito de outra manei­ra: seu impac­to é fil­tra­do – e, de cer­to modo, inten­si­fi­ca­do – pela sub­je­ti­vi­da­de dos indi­ví­du­os que o vivem ou pre­sen­ci­am. Com diz Sully em algum momen­to da sin­di­cân­cia a que é sub­me­ti­do, o que con­ta é “o fator huma­no”. Sem ele, o cine­ma é mera piro­tec­nia.

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