O futebol como recreio

Correspondência

01.11.11

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Grande Guru,

Temos mais isso em comum: um pai vas­caí­no. Só que o meu abriu mão do direi­to de esco­lher o time do filho. Estávamos no Maracanãzinho para ver um cir­co, lá por 1967 ou 1968. Poderia ser o de Moscou, em ple­na dita­du­ra? Não sei, mas na minha memó­ria é o de Moscou, sim. Passou o ven­de­dor de ban­dei­ri­nhas na arqui­ban­ca­da, com a de todos os gran­des clu­bes, e meu pai me dis­se: “Escolha a ban­dei­ra que qui­ser”. Eu, em eter­no fler­te com o desas­tre (copy­right by Elvis Costello), hesi­tei entre a do Botafogo e a do América. Ou seja, entre a esfin­ge alvi­ne­gra, sem letras ou dize­res, e o pavi­lhão encar­na­do, de pro­fun­das impli­ca­ções polí­ti­cas. Decidi-me pela ban­dei­ra do Botafogo.

Aos qua­tro ou cin­co anos de ida­de, eu não tinha a menor ideia de que, naque­les tem­pos, o time repre­sen­ta­do por aque­la ban­dei­ra era o bicam­peão da cida­de, gra­ças a um tima­ço com Jairzinho, Gerson, Paulo César, Roberto, Rogério, Zequinha… Nem, mui­to menos, que pou­co antes o Botafogo tinha tido outro tima­ço bicam­peão cari­o­ca, com Garrincha, Nilton Santos, Didi, Amarildo, Quarentinha, Zagalo… Ou seja: eu com­prei a ban­dei­ra com a Estrela Solitária e ganhei de brin­de a his­tó­ria glo­ri­o­sa — e mui­to sofri­men­to pelos vin­te e um anos seguin­tes, até o Maurício jogar bola e Leonardo gol aden­tro, em 1989.

As déca­das de 70 e 80 foram duras para os bota­fo­guen­ses. Como ale­gria de palha­ço é ver o cir­co pegar fogo, fui mui­to ao Maracanã ver jogos do América con­tra aque­le outro time, sabe, aque­le do qual a gen­te evi­ta pro­nun­ci­ar o nome. Era uma fase em que o pes­so­al de Campos Sales ganha­va todas, fácil. Ficava aque­la mas­sa silen­ci­o­sa lá na arqui­ban­ca­da à esquer­da das cabi­nes de rádio, fica­va o punha­do de tor­ce­do­res do América happy few cá na arqui­ban­ca­da à direi­ta das cabi­nes de rádio. Eu des­cia a ram­pa gri­tan­do “Saanguê! Saaanguê! Saaaanguê!” jun­to com essa gale­ra de cami­sa ver­me­lha.

Porém, enquan­to eu era cri­an­ça, não era o meu pai quem me leva­va ao Maracanã, mas sim um tio parai­ba­no, tor­ce­dor do Fluminense e do Náutico. (Por cau­sa dis­so, tenho gran­de sim­pa­tia pelo Timbu.) A gene­ro­si­da­de de me per­mi­tir esco­lher o time que eu qui­ses­se tinha raí­zes pro­fun­das na psiquê do meu pai. Garoto, ele tinha sido uma das 200 mil pes­so­as trau­ma­ti­za­das no Maracanã pela final da Copa de 1950, con­tra o Uruguai. Meu avô leva­ra a famí­lia, que pre­sen­ci­a­ra o cli­ma de já-ganhou e a ines­pe­ra­da der­ro­ta, covar­de­men­te debi­ta­da na con­ta do nos­so golei­ro negro, Barbosa, que, aliás, joga­va no Vasco. O Maracanazo levou o meu pai a pas­sar uns bons (ou maus) trin­ta anos sem pôr os pés no “mai­or do mun­do”. Ele é Vasco, ain­da hoje, lá em Belo Horizonte, mas nun­ca se inte­res­sou por fute­bol como eu e você nos inte­res­sa­mos.

Quem tem uma bela defi­ni­ção de por que esse espor­te mexe tão vis­ce­ral­men­te com gen­te como a gen­te é o Verissimo. Ele diz que o fute­bol é a úni­ca manei­ra de aos 60 anos se sen­tir como se tives­se 6 anos de ida­de. Bingo! Ninguém pre­ci­sa ir à esco­la para ter a sen­sa­ção arre­pi­an­te de que saca­ne­a­rá ou será saca­ne­a­do pelos ami­gui­nhos na hora do recreio. Na hora em que a bola rola, meu ami­go, é sem­pre recreio na nos­sa cabe­ça.

Não tenho cer­te­za sobre qual era o time do meu avô pater­no (o do mater­no, um por­tu­guês eu sei, era São Cristóvão). Acredito que ele tam­bém fos­se Vasco, time de imi­gran­tes, mes­mo os ita­li­a­nos do Rio. Depois do Maracanazo e da mudan­ça da famí­lia para Barbacena, ele tomou uma ati­tu­de ain­da mais radi­cal que o filho em rela­ção àqui­lo que o Aldo Rebello deve que­rer vol­tar a tra­tar por ludo­pé­dio: api­tou algu­mas par­ti­das de fute­bol ama­dor pelo inte­ri­or de Minas Gerais. É pre­ci­so odi­ar pro­fun­da­men­te o balí­po­do (além da pró­pria mãe, uma ex-gover­nan­ta suí­ça que não conhe­ci) para ser árbi­tro.

Outro dia, meu ami­go Tárik de Souza me trou­xe de Montevidéu um CD duplo, com a nar­ra­ção da final de 1950 numa rádio uru­guaia. O sujei­to do micro­fo­ne se sur­pre­en­de com a vitó­ria da Celeste tan­to quan­to a mul­ti­dão. Dá para ficar como­vi­do com a emo­ção dele. E tam­bém dá, juro, para escu­tar o silên­cio no res­to do está­dio. Sempre achei essa expres­são um oxí­mo­ro cafo­na, “escu­tar o silên­cio”, argh, mas ali fun­ci­o­na.

Naquele tem­po, você sabe, usá­va­mos cami­sas bran­cas com deta­lhes em azul, logo apo­sen­ta­das pelos supers­ti­ci­o­sos. Fizeram um con­cur­so para esco­lher a nova rou­pa da sele­ção bra­si­lei­ra. Os jor­na­lis­tas do júri, entre eles o Armando Nogueira, con­sul­ta­ram o DNER para saber qual cor se fazia mais pre­sen­te à noi­te, essen­ci­al num tem­po de ilu­mi­na­ções pre­cá­ri­as. Souberam, então, que era o ama­re­lo. E com­bi­na­ram que esco­lhe­ri­am a cami­sa na qual pre­pon­de­ras­se essa cor. O prê­mio foi para um jovem gaú­cho, xará seu, Aldyr Garcia Schlee, com quem eu man­te­nho outra cor­res­pon­dên­cia hon­ro­sa, embo­ra menos assí­dua que a nos­sa. Se hoje a gen­te fala na “ama­re­li­nha”, deve­mos ao Schlee, que tam­bém é escri­tor. E dos bons.

Grande abra­ço,

Arthur

* Na ima­gem da home que ilus­tra este post: lan­ce do jogo entre Botafogo e Flamengo, na final do cam­pe­o­na­to esta­du­al do Rio de Janeiro, em 1989

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