O gênio de Raphael

Artes

08.04.13

Raphael Domingues

Raphael Domingues na déca­da de 1940 | Obra sem títu­lo

Almir Mavignier teve um papel deci­si­vo no pro­ces­so de tra­ba­lho de Raphael Domingues, dese­nhis­ta geni­al cujos tra­ba­lhos podem ser vis­tos na expo­si­ção Raphael e Emygdio: dois moder­nos no Engenho de Dentro, em car­taz no Instituto Moreira Salles de São Paulo, entre os dias 10 de abril e 7 de julho. Mavignier, mais conhe­ci­do por seu tra­ba­lho como pin­tor e artis­ta grá­fi­co liga­do ao con­cre­tis­mo, foi o pri­mei­ro moni­tor do ate­liê de artes cri­a­do pela Dra. Nise da Silveira, em 1946, no Centro Psiquiátrico Nacional, no bair­ro cari­o­ca do Engenho de Dentro.

Raphael, diag­nos­ti­ca­do como um caso gra­ve de esqui­zo­fre­nia, fre­quen­tou o ate­liê da déca­da de 1940 até seu fale­ci­men­to, em 1979, mas foi nos anos em que Mavignier o assis­tiu, entre 1946 e 1951, que ele rea­li­zou o melhor de sua pro­du­ção. O moni­tor, então com 21 anos, sou­be como nin­guém incen­ti­var Raphael a olhar para as coi­sas e a esta­be­le­cer um con­ta­to inten­so, ain­da que efê­me­ro, com o mun­do atra­vés do dese­nho. Ele arru­ma­va natu­re­zas-mor­tas para Raphael dese­nhar e pedia-lhe para retra­tar as pes­so­as à sua vol­ta: Abraham Palatnik, Ivan Serpa, Mário Pedrosa e Murilo Mendes, que cos­tu­ma­vam visi­tar o ate­liê, foram alguns de seus mode­los. Muitas vezes con­vi­da­dos por Mavignier, crí­ti­cos e artis­tas das mais diver­sas áre­as for­ma­vam uma espé­cie de pla­teia de espe­ci­a­lis­tas inte­res­sa­da em dis­cu­tir a qua­li­da­de artís­ti­ca do que era pro­du­zi­do ali. É bem pro­vá­vel que essas pre­sen­ças aju­das­sem a cri­ar um ambi­en­te de inte­res­se pelo mun­do da arte e, con­se­quen­te­men­te, de estí­mu­lo à pro­du­ção dos inter­nos.

Nos dias 16 e 17 de abril de 2012, em meio à pes­qui­sa para a orga­ni­za­ção de Raphael e Emygdio: dois moder­nos no Engenho de Dentro (exi­bi­da no ano pas­sa­do no IMS-RJ), Almir Mavignier, que vive em Hamburgo des­de 1965, res­pon­deu por email a algu­mas de minhas dúvi­das sobre sua rela­ção com Raphael. Como bom dis­cí­pu­lo da Bauhaus (ele estu­dou na Escola Superior da Forma, em Ulm, entre 1953 e 1958), o artis­ta faz ques­tão de escre­ver ape­nas com minús­cu­las.

Retrato de Murilo Mendes

Sem títu­lo [retra­to de Murilo Mendes], 1950

Dizem que a doen­ça de Raphael era gra­vís­si­ma e que ele era pra­ti­ca­men­te ina­ces­sí­vel. Ele tinha momen­tos de luci­dez? Você acha que seus dese­nhos figu­ra­ti­vos eram fru­to de seus raros momen­tos de con­ta­to com a rea­li­da­de?

rapha­el era for­te­men­te “dis­so­ci­a­do”, não con­ca­te­na­va pala­vras em fra­ses coe­ren­tes. as pala­vras porém eram “belís­si­mas” e vinham de seu mun­do para mim mara­vi­lho­so e trá­gi­co. ele era capaz de cri­ti­car mário pedro­sa sen­ta­do erra­da­men­te:

— olha o pezi­nho na cadei­ra!

mario se apru­mou e ficou ver­me­lho…

o gênio de rapha­el se mani­fes­ta­va quan­do ele domi­na­va a dis­so­ci­a­ção para asso­ci­ar: obser­van­do dese­nhan­do e inter­pre­tan­do a natu­re­za.

nos “trei­nos” de dese­nho, não lhe dizia faça isso ou aqui­lo. uma vez ape­nas segu­rei uma folha da plan­ta e dis­se “olha que boni­ta!”

na mes­ma obra dese­nhou a minha mão — arru­man­do as folhas da plan­ta.

ele dese­nha­va rapi­da­men­te.

no mes­mo dese­nho porém há uma cons­tru­ção estra­nha à natu­re­za mor­ta sobre a mesa:

ele dese­nhou a cai­xa elé­tri­ca que esta­va na pare­de!

nise da sil­vei­ra dizia:

“esqui­zo­fre­nia é a fal­ta de amor”.

O que era a expe­ri­ên­cia do dese­nho para Raphael?

não sei.

acho porém que ele per­ce­bia a nos­sa rea­ção ao vê-lo dese­nhar: f a s c i n a ç ã o, espan­to e medo de vê-lo des­truir.

artis­ta neces­si­ta aplau­so.

Durante a déca­da de 1920, Raphael estu­dou dese­nho e che­gou a tra­ba­lhar como ilus­tra­dor em agên­ci­as de pro­pa­gan­da. Li num pron­tuá­rio que, segun­do sua mãe, antes de a doen­ça se mani­fes­tar, Raphael tinha o dese­jo de estu­dar na Escola Nacional de Belas Artes. Você acha que ele tinha algu­ma espé­cie de ambi­ção artís­ti­ca? Ele sabia do inte­res­se que seus dese­nhos des­per­ta­vam?

rapha­el me pare­cia “des­li­ga­do” de tudo. ambi­ção e vai­da­de não per­te­ci­am ao seu mun­do.

Você se lem­bra se Raphael come­çou a dese­nhar figu­ras com o pin­cel gros­so ou com a cane­ta nan­quim? Ele esco­lhia qual ins­tru­men­to uti­li­za­ria para dese­nhar? Ele usa­va o pin­cel e a cane­ta con­co­mi­tan­te­men­te?

ele não esco­lhia. eu dava para ele.

ele des­co­briu uma téc­ni­ca:

molha­va o pin­cel uma vez só e ia gas­tan­do a tin­ta até o fim.

em alguns dese­nhos com pin­cel você pode veri­fi­car hoje onde ele come­çou e aca­bou.

Você uti­li­za­va os conhe­ci­men­tos téc­ni­cos e esté­ti­cos adqui­ri­dos no ate­liê de Arpad Szenes e de Axl Leskoschek em seu tra­ba­lho com o gru­po do Engenho de Dentro?

não, impos­si­vel. o ate­liê não era uma esco­la de arte. for­ne­cia água para a aqua­re­la, tere­ben­ti­na para óleo e sabão para lavar os pin­ceis, dia­ri­a­men­te.

era o míni­mo.

não dava revis­tas sobre arte.

De que manei­ra você uti­li­za­va seu conhe­ci­men­to sobre arte no con­ta­to com Raphael?

de manei­ra nenhu­ma.

rapha­el não aca­ba­va. ele con­ti­nu­a­va… mes­mo enco­brin­do e des­truin­do.

pedia-lhe aca­bar quan­do ele qui­ses­se. mes­mo sem per­gun­tar se ele me com­pre­en­dia, ele “apren­deu” a jogar o papel no ar para mos­trar que tinha ter­mi­na­do.

Alguns estu­di­o­sos acre­di­tam que o con­ta­to de Ivan Serpa e Abraham Palatinik com os artis­tas do Engenho de Dentro teria influ­en­ci­a­do os rumos da arte abs­tra­ta e con­cre­ta que sur­gia no Rio de Janeiro no fim dos anos 1940. Sempre tenho dúvi­das sobre essa afir­ma­ção. Nos depoi­men­tos des­ses artis­tas, assim como de Geraldo de Barros, que tam­bém fre­quen­ta­va o ate­liê, per­ce­bo uma gran­de admi­ra­ção pelos inter­nos do Engenho de Dentro e uma espé­cie de espan­to e como­ção por pre­sen­ci­a­rem a rea­li­za­ção daque­las obras fei­tas por indi­ví­du­os com tan­tas difi­cul­da­des e limi­ta­ções. No entan­to, não vejo uma rela­ção dire­ta entre as obras dos artis­tas con­cre­tos e a pro­du­ção do Engenho de Dentro. Por outro lado, tenho a impres­são de que Raphael tinha um gran­de domí­nio sobre o espa­ço e, con­se­quen­te­men­te, mui­ta cla­re­za e segu­ran­ça na dis­tri­bui­ção das for­mas no pla­no bidi­men­si­o­nal. Você acha que isso foi impor­tan­te de algu­ma manei­ra para a depu­ra­ção da for­ma no seu tra­ba­lho e de seus cole­gas como Palatnik, Ivan Serpa e Geraldo de Barros?

hou­ve o aca­so da admi­ra­ção dos con­cre­tos pelas obras.

a refe­ri­da afir­ma­ção é fal­sa.

os rumos da arte abs­tra­ta e con­cre­ta que sur­giu no rio de janei­ro nos fins dos anos de 1940 teve iní­cio no apar­ta­men­to de mário pedro­sa.

mário escre­via sua tese sobre “a influên­cia da for­ma afe­ti­va sobre a obra de arte” e fazia a lei­tu­ra de tre­chos do seu tra­ba­lho para abraham palat­nik, ivan ser­pa e almir mavig­ni­er.

para mim, pes­so­al­men­te, impres­si­o­nou uma expe­ri­ên­cia com uma más­ca­ra afri­ca­na que os cien­tis­tas da ges­talt fize­ram com ani­mais. sem­pre que eles mos­tra­vam a más­ca­ra, havia uma rea­ção de ter­ror dos ani­mais.

os cien­tis­tas che­ga­ram à con­clu­são de que era o cará­ter for­mal da más­ca­ra que ater­ro­ri­za­va e não a sua asso­ci­a­ção com expe­ri­ên­cia ante­ri­or, por­que havia ani­mais nas­ci­dos alí e não em flo­res­tas sel­va­gens.

foi para nós a pro­va da for­ça do cará­ter da for­ma era mai­or do que o seu poder asso­ci­a­ti­vo.

ter­mi­nei de pin­tar natu­ra­lis­mo.

mavig­ni­er, ser­pa e palat­nik pas­sa­ram a deno­mi­nar suas obras de “for­mas”.

Na épo­ca do ate­liê, você conhe­cia bem os dese­nhos de Matisse e Klee? Identificava seme­lhan­ças entre os dese­nhos de Raphael e des­ses artis­tas?

conhe­cia mal.

klee melhor do que matis­se.

Como era a pre­sen­ça de Nise da Silveira no ate­liê de artes duran­te esses pri­mei­ros anos?

nise da sil­vei­ra era che­fe do ser­vi­ço de assis­tên­cia soci­al e mui­to ocu­pa­da com vári­os deve­res.

apa­re­cia regu­lar­men­te, não dia­ri­a­men­te.

dava liber­da­de.


Em abril de 2013, pro­cu­ra­do para auto­ri­zar a publi­ca­ção des­sa entre­vis­ta, Almir Mavignier pediu acres­cen­tar um tópi­co, des­ta vez usan­do tam­bém maiús­cu­las.


uma outra res­pos­ta para uma per­gun­ta que não foi fei­ta:

o MISTÉRIO da qua­li­da­de geni­al de rapha­el esta­va naque­les que o admi­ra­vam ou admi­ram: NELES MESMOS, isto é: ELES viram o que conhe­ci­am.

e ama­vam: MATISSE, PICASSO etc… rapha­el NÃO. ele nun­ca viu e cer­ta­men­te não GOSTARIA daque­les de que nós gos­ta­mos.

o trá­gi­co em rapha­el é que ELE COMO PERSONALIDADE CONSCIENTE não exis­tiu. seus dese­nhos, SIM.



[Obras e foto­gra­fi­as aqui repro­du­zi­das per­ten­cem ao acer­vo do Museu de Imagens do Inconsciente].


* Heloisa Espada é coor­de­na­do­ra de Artes do IMS.

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