O inferno são os outros

Correspondência

30.05.11

cli­que aqui para ver a car­ta ante­ri­or

Isso mes­mo, que­ri­da, não sai do cora­ção, não sai da cabe­ça. Antes mes­mo de rece­ber sua car­ta, já tinha lido o que a Viviana me envi­ou, que repas­sei para você: a indig­na­ção por outro cri­me anun­ci­a­do.  Dessa vez quem pagou com a vida foram Maria do Espírito Santo da Silva e José Cláudio Ribeiro da Silva, líde­res do Projeto Agroextrativista Praialta-Piranheira. Vi na inter­net e na tele­vi­são uma maté­ria onde o José Cláudio apa­re­ce pre­ven­do a pró­pria mor­te, tal qual Chico Mendes fez há anos: pare­ce que o país não anda nem se redi­me.

A ban­ca­da rura­lis­ta, no con­gres­so naci­o­nal, vai­ou, na Terça Terrível, o anún­cio da mor­te dos dois ambi­en­ta­lis­tas. Por mais que este­ja pre­pa­ra­do para as bai­xe­zas des­sa gen­ta­lha, fiquei cho­ca­do. Mas a vaia tem até lógi­ca: quem espo­sa esse Código Florestal de mer­da, só pode mes­mo ter ins­tin­tos bes­ti­ais. A pre­si­den­ta Dilma fez mui­to bem em clas­si­fi­car como uma ver­go­nha a apro­va­ção des­se Código do Desmatamento, como devia ser cha­ma­do.

E onde foi a embos­ca­da? No Pará, é cla­ro. Terra de Jarbas Passarinho, que de pas­sa­ri­nho não tem nada. Se lem­bra dele? Todo pim­pão, minis­tro do Costa e Silva, fazen­do uma pero­ra­ção ridí­cu­la para jus­ti­fi­car o injus­ti­fi­cá­vel, a assi­na­tu­ra do AI-5. Para isso, man­dou os escrú­pu­los da sua cons­ci­ên­cia às favas. Mandou para sem­pre ao que pare­ce, pois nun­ca vi pro­tes­to algum pelo que acon­te­ce de bár­ba­ro no seu esta­do, sem­pre e sem­pre, e ele não tuge nem muge: o mas­sa­cre em Eldorado dos Carajás (a iro­nia invo­lun­tá­ria do nome dói), o assas­si­na­to da irmã Dorothy Stang, são os mais recen­tes e conhe­ci­dos. E os que nun­ca foram sabi­dos e regis­tra­dos?

A notí­cia na impren­sa escri­ta sai sem­pre dimi­nuí­da, aper­ta­da, nas pági­nas inte­ri­o­res. A cha­ma­da na pri­mei­ra pági­na é minús­cu­la. E nos dias seguin­tes o noti­ciá­rio vai fican­do rare­fei­to. Será por ver­go­nha ou fal­ta de? No exte­ri­or a reper­cus­são é mui­to mai­or.  No entan­to, essa mes­ma impren­sa, quan­do é sobre o MST — o mais impor­tan­te movi­men­to con­tra o lati­fún­dio, sur­gi­do no Brasil des­de as Ligas Camponesas de Francisco Julião nos anos 60, cuja atu­a­ção apa­re­ce no mag­ní­fi­co e defi­ni­ti­vo Cabra mar­ca­do para mor­rer, fil­me de Eduardo Coutinho — o MST que você, Ri, conhe­ce tão de per­to, é sem­pre demo­ni­za­do nas gran­des man­che­tes, em alto e bom som. Só pos­so falar: MST neles, e cada vez mais, pois aqui cabe, como nun­ca, a fala sar­tri­a­na: “O infer­no são os outros”.

O Brasil, às vezes deses­pe­ra, não é mes­mo? Há quan­to tem­po a gen­te vai acom­pa­nhan­do o nos­so país! Como o nos­so gran­de Vinicius de Moraes em “Pátria minha”: “A minha pátria é como se não fos­se, é íntima/ Doçura e von­ta­de de cho­rar; uma cri­an­ça dormindo/ É minha pátria (…) Mas sei que minha pátria é a luz, o sal e a água/ Que ela­bo­ram e lique­fa­zem a minha mágoa (…) Vontade de mudar as cores do ves­ti­do (auri­ver­de!) tão feias/ de minha pátria, de minha pátria sem sapatos/ E sem mei­as, pátria minha/ Tão pobri­nha! (…) tenho-te em tudo em que não me sin­to a jeito/ Nesta sala estran­gei­ra com lareira/ E sem pé-direi­to (…) Pátria minha… A minha pátria não é flo­rão, nem ostenta/ Lábaro não: a minha pátria é desolação/ De cami­nhos, a minha pátria é ter­ra sedenta/ E praia bran­ca; a minha pátria é o gran­de rio secular/ Que bebe nuvem, come terra/ E uri­na mar. (…) Mais do que a mais gar­ri­da a minha pátria tem/ Uma quen­tu­ra, um que­rer bem, um bem/ Um liber­tas quae sera tamen/ Que um dia tra­du­zi num exa­me escrito:/ Liberta que serás tam­bém / E repi­to!”

Você, com toda a cer­te­za, pode repe­tir de pron­to, a tra­du­ção de Vinicius. Eu, ain­da não, pelo menos ple­na­men­te. Talvez por­que não tenha sabi­do inven­tar, na infân­cia, um brin­que­do para enfren­tar o escu­ro. Essas coi­sas se resol­vem (ou não) na ori­gem. Deve ser por isso que o meu medo tem o cra­chá per­ma­nen­te do “Congresso Internacional do Medo”, drum­mon­di­a­no:

Provisoriamente não can­ta­re­mos o amor,
que se refu­gi­ou mais abai­xo dos sub­ter­râ­ne­os.
Cantaremos o medo, que este­ri­li­za os abra­ços,
não can­ta­re­mos o ódio por­que esse não exis­te,
exis­te ape­nas o medo, nos­so pai e nos­so com­pa­nhei­ro,
o medo gran­de dos ser­tões, dos mares, dos deser­tos.
o medo dos sol­da­dos, o medo das mães, o medo das igre­jas,
can­ta­re­mos o medo dos dita­do­res, o medo dos demo­cra­tas,
can­ta­re­mos o medo da mor­te e o medo depois da mor­te,
depois mor­re­re­mos de medo
e sobre nos­sos túmu­los nas­ce­rão flo­res ama­re­las e medro­sas.

Me lem­bro do seu poe­ma que é o grá­fi­co do seu movi­men­to; melhor, ele é a dinâ­mi­ca do seu brin­que­do. Respondo com o meu, escri­to aos 20 anos, e que está no pri­mei­ro livro, e que des­cre­ve a casa-gran­de per­di­da aos 15 e o medo que nela sen­tia, igual ao seu, pelos seus gran­des espa­ços de quar­tos aber­tos e fecha­dos, salas e anda­res que se des­do­bra­vam. Mas veja só: enquan­to você se movia, eu estan­ca­va.

CASA

A casa tor­ta
escu­ra e mor­ta
é coi­sa viran­do no espa­ço
(sem espa­ço).
A casa enor­me guar­da:
furor de pedra escon­di­da
pare­de em súbi­ta subi­da
degrau embo­la­do no escu­ro
sal­to de muro sem furo
cor­po reti­do no cor­po
des­maio de rou­pa vazia
olho aber­to-fecha­do
bicho pelu­do dei­ta­do
toque enco­lhi­do na mão
pé cor­ta­do no chão
con­ta­to tecen­do roche­do
imó­veis móveis de som.

Ao escre­vê-lo, a dis­tân­cia que me sepa­ra­va das sen­sa­ções da infân­cia e ado­les­cên­cia não era mui­to gran­de. O reló­gio inter­no ain­da fun­ci­o­na­va em outro tem­po do que o de pul­so ganho naque­la oca­sião: meu pri­mei­ro reló­gio adul­to. Por incrí­vel que pare­ça, até hoje, não con­se­gui acer­tar, con­ve­ni­en­te­men­te, o que pul­sa aqui den­tro com o de fora. Me fal­ta, sem dúvi­da, o brin­que­do não inven­ta­do.

Chuva de bei­jos, Armando.

* A ima­gem da home que ilus­tra este post: o filó­so­fo e escri­tor Jean-Paul Sartre em foto de Alécio de Andrade (Paris, 1971)

, , , , , , ,