O iogurte e a faca

Cinema

27.02.14

Era uma vez na Anatólia estreia com exclu­si­vi­da­de no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro no sába­do de car­na­val, dia 1o de mar­ço, e será exi­bi­do até o dia 25.

Em Era uma vez na Anatólia tudo, ou qua­se tudo, ocor­re em tor­no de uma con­ver­sa sobre a con­sis­tên­cia do bom iogur­te.

Policiais bus­cam o local em que se encon­tra enter­ra­da a víti­ma de um assas­si­no que aca­bam de pren­der. O assas­si­no está com eles, num dos car­ros que avan­ça estra­da afo­ra, noi­te aden­tro, em bus­ca de um local com uma gran­de árvo­re — o réu con­fes­so recor­da-se de ter enter­ra­do a víti­ma ao lado de uma gran­de árvo­re redon­da. Nos car­ros, com os poli­ci­ais, o pro­mo­tor e o médi­co legis­ta. O pre­so segue cala­do e os demais não falam pro­pri­a­men­te do cri­me. Discutem as carac­te­rís­ti­cas do iogur­te fei­to na Turquia, supe­ri­or ao pro­du­to indus­tri­a­li­za­do fei­to aqui e ali. Discutem o que pro­vo­ca a mor­te de alguém. O pro­mo­tor, por exem­plo, sus­ten­ta que uma pes­soa pode mor­rer sem cau­sa algu­ma, sem doen­ça algu­ma, como ocor­reu com a mulher de um ami­go. O legis­ta con­tes­ta. O moti­vo pode não ser des­co­ber­to, mas sem­pre se mor­re ou se mata por uma cau­sa pre­ci­sa e loca­li­zá­vel. Do cri­me em ques­tão, não se fala. O que pren­de a aten­ção é con­ver­sa sobre a qua­li­da­de do ver­da­dei­ro iogur­te, sua con­sis­tên­cia: pode ser cor­ta­do com uma faca, defen­de um deles, ao con­trá­rio das imi­ta­ções fal­sas e sem sabor ven­di­das como fos­sem iogur­tes de ver­da­de.

Em qua­dro, o iogur­te. A aven­tu­ra poli­ci­al per­ma­ne­ce qua­se todo o tem­po fora de qua­dro — sem no entan­to sair do cen­tro da cena. Entre outros moti­vos por­que, encon­tra­do o cor­po da víti­ma, solu­ci­o­na­do o cri­me, o espec­ta­dor des­co­bre que, ocul­ta pela solu­ção do assas­si­na­to, a ver­da­dei­ra his­tó­ria do cri­me per­ma­ne­ce­rá fora de qua­dro. E tam­bém, ou prin­ci­pal­men­te, por­que a mor­te mis­te­ri­o­sa que de fato se escla­re­ce não é a que os poli­ci­ais, o pro­mo­tor e o legis­ta inves­ti­gam, mas a da mulher do ami­go do pro­mo­tor. O que os per­so­na­gens inves­ti­gam é um cri­me de cer­to modo já solu­ci­o­na­do, e o que o espec­ta­dor inves­ti­ga, con­vi­da­do pelo modo de nar­rar do fil­me, é outra his­tó­ria — mais exa­ta­men­te, outras his­tó­ri­as, a da razão do cri­mi­no­so que enter­rou o cadá­ver ao lado da árvo­re gran­de e redon­da (uma trai­ção con­ju­gal?) e a razão da mor­te pla­ne­ja­da da mulher do ami­go do pro­mo­tor (uma outra trai­ção con­ju­gal?).

O iogur­te e a inves­ti­ga­ção poli­ci­al em pri­mei­ro pla­no enca­mi­nham a cor­re­ta per­cep­ção da his­tó­ria que não se vê na tela, ocor­ri­da num tem­po ante­ri­or ao do fil­me. Essa his­tó­ria invi­sí­vel é o ver­da­dei­ro dra­ma nar­ra­do por Nuri Bilge Ceylan em Era uma vez na Anatólia. O cri­me de ago­ra pre­pa­ra a com­pre­en­são de uma outra mor­te. A con­ver­sa sobre o iogur­te que pode ser cor­ta­do a faca é uma metá­fo­ra do esti­lo de cons­tru­ção da nar­ra­ti­va e da ques­tão que ela dis­cu­te: um mis­té­rio não mais den­so que um iogur­te, mas invi­sí­vel para olhos acos­tu­ma­dos às imi­ta­ções indus­tri­ais que tira­ram do olhar a pre­ci­são do cor­te de uma faca.

* José Carlos Avellar é coor­de­na­dor de cine­ma do IMS.

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