O diretor Raoul Peck

O diretor Raoul Peck

O lugar do negro

No cinema

17.02.17

A his­tó­ria do negro na América é a his­tó­ria da América – e não é uma his­tó­ria boni­ta.” A fra­se, dita pelo escri­tor James Baldwin (1924–87) a cer­ta altu­ra de Eu não sou seu negro, sin­te­ti­za mui­to bem o espí­ri­to do esplên­di­do docu­men­tá­rio de Raoul Peck que con­cor­re ao Oscar da cate­go­ria.

O fil­me tem como eixo, ou pon­to de par­ti­da, o livro que Baldwin esta­va come­çan­do a escre­ver quan­do mor­reu, Remember this hou­se, base­a­do em suas lem­bran­ças pes­so­ais de três ati­vis­tas negros assas­si­na­dos entre 1963 e 1968, todos eles antes de com­ple­tar qua­ren­ta anos: Medgar Evers (1925–63), Malcolm X (1925–65) e Martin Luther King (1929–68).

Não há, no docu­men­tá­rio, nar­ra­ção em ter­cei­ra pes­soa, nem entre­vis­tas recen­tes, nem letrei­ros expli­ca­ti­vos. Todas as ima­gens são de arqui­vo e todo o tex­to que ouvi­mos é de James Baldwin, na voz do pró­prio escri­tor, em entre­vis­tas e dis­cur­sos de épo­ca, ou na do ator Samuel L. Jackson, quan­do se tra­ta de tre­chos extraí­dos de seus livros e arti­gos.

Em pri­mei­ra pes­soa

Sob esse dis­cur­so con­tun­den­te em pri­mei­ra pes­soa, que con­fi­gu­ra uma lei­tu­ra coe­ren­te e sem con­ces­sões da his­tó­ria soci­al, polí­ti­ca e cul­tu­ral dos Estados Unidos, Peck tece uma vívi­da tape­ça­ria de ima­gens de fon­tes diver­sas: cine­jor­nais, comer­ci­as de TV, pro­gra­mas de entre­vis­tas, tre­chos de fil­mes hollywo­o­di­a­nos etc.

Por meio de uma arti­cu­la­ção audi­o­vi­su­al argu­ta, des­nu­da-se a autoi­ma­gem dos nor­te-ame­ri­ca­nos for­ja­da pela indús­tria cul­tu­ral, em espe­ci­al pelo cine­ma: o mito dos des­bra­va­do­res, o sonho ame­ri­ca­no de liber­da­de e pros­pe­ri­da­de, a famí­lia mono­gâ­mi­ca sor­ri­den­te e mora­lis­ta, o pro­gres­so e o con­su­mo sem limi­tes.

É tocan­te e ilu­mi­na­do­ra a remi­nis­cên­cia de Baldwin das ses­sões de cine­ma da infân­cia, em que tor­cia por John Wayne con­tra os índi­os até se dar con­ta de que os índi­os eram tam­bém ele, sua famí­lia, seus ami­gos e vizi­nhos. Teve que ama­du­re­cer na mar­ra. Já o bran­co ame­ri­ca­no, diz Baldwin, dá-se o pri­vi­lé­gio de não ama­du­re­cer nun­ca, de per­ma­ne­cer a vida toda nes­se está­gio de ino­cên­cia cega, nes­sa tola brin­ca­dei­ra de moci­nho e ban­di­do.

É nes­se con­tex­to ide­o­ló­gi­co, cons­ti­tuí­do pelos mitos hegemô­ni­cos bran­cos, que os negros apa­re­cem como “pro­ble­ma”. “Agora que não pre­ci­sam mais de nós para colher algo­dão eles que­rem nos matar. Estão sem­pre à bei­ra da ‘solu­ção final’”, diz Baldwin a cer­ta altu­ra, com ter­rí­vel luci­dez.

Contra o pater­na­lis­mo

Se há um pon­to que enfra­que­ce o docu­men­tá­rio é o uso oca­si­o­nal de uma músi­ca plan­gen­te, de pia­no e vio­li­no, indu­ti­va da emo­ção do espec­ta­dor. Isso não só é des­ne­ces­sá­rio como con­tra­diz uma ideia cen­tral de Baldwin, a de que os negros não pre­ci­sam de sim­pa­tia ou pie­da­de, mas de res­pei­to e reco­nhe­ci­men­to. Uma pas­sa­gem for­te, por exem­plo, é a que cer­ca de iro­nia o dis­cur­so pater­na­lis­ta, ain­da que pro­fé­ti­co, de Bob Kennedy em mea­dos dos anos 1960, dizen­do que, “den­tro de qua­ren­ta anos, quem sabe, tal­vez os Estados Unidos che­guem a ele­ger um pre­si­den­te negro”.

Um tema que o fil­me pra­ti­ca­men­te dei­xa de lado, embo­ra seja cru­ci­al na vida e na obra de Baldwin, é a homos­se­xu­a­li­da­de, tal­vez por receio de per­der o foco. Afinal, não se tra­ta pro­pri­a­men­te de um fil­me sobre o escri­tor, mas sobre suas rela­ções com a ques­tão raci­al na América.

Num talk show tele­vi­si­vo, apre­sen­ta­do logo no iní­cio do docu­men­tá­rio, o entre­vis­ta­dor diz estra­nhar o fato de Baldwin ter uma visão tão nega­ti­va da ques­tão raci­al, já que os negros esta­vam con­quis­tan­do cada vez mais direi­tos e espa­ços. A res­pos­ta do escri­tor é dura, amar­ga, irô­ni­ca, mos­tran­do que os pró­pri­os ter­mos em que a ques­tão era colo­ca­da esta­vam erra­dos. As ima­gens do fil­me aca­bam por lhe dar razão cabal­men­te, ao mos­trar a per­sis­tên­cia do pre­con­cei­to e da ide­o­lo­gia segre­ga­ci­o­nis­ta ain­da nos dias de hoje. E o recru­des­ci­men­to des­sa ide­o­lo­gia na era Trump tor­na tudo ain­da mais atu­al.

Eu não sou seu negro não ape­nas dá con­ti­nui­da­de, mas apro­fun­da e ama­du­re­ce a refle­xão cine­ma­to­grá­fi­ca sobre a pre­sen­ça negra na soci­e­da­de ame­ri­ca­na. Dialoga sobre­tu­do com tra­ba­lhos de Spike Lee como Malcolm X e A hora do show.

A ambi­ção artís­ti­ca e polí­ti­ca de Raoul Peck trans­cen­de fron­tei­ras. Nascido no Haiti, onde che­gou a ser minis­tro da Cultura em 1996 e 1997, ele rea­li­zou, entre outros tra­ba­lhos, uma elo­gi­a­da cine­bi­o­gra­fia do líder revo­lu­ci­o­ná­rio con­go­lês Patrice Lumumba. E depois de Eu não sou seu negro já fez um novo lon­ga-metra­gem, a fic­ção bio­grá­fi­ca O jovem Karl Marx. Exibiu ambos no fes­ti­val de Berlim que se encer­ra nes­te sába­do (18 de feve­rei­ro). Assim como James Baldwin, que viveu boa par­te de sua vida adul­ta na França, Peck é um negro que sabe qual é o seu lugar – e o seu lugar é o mun­do intei­ro.

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