O mais lembrado dos autores esquecidos

Literatura

05.11.15

Este tex­to, que o blog do IMS ante­ci­pa, é um dos ver­be­tes do Dicionário Amoroso do Rio de Janeiro (Casarão do Verbo), que será lan­ça­do no pró­xi­mo dia 7 na Livraria Folha Seca (Rua do Ouvidor 37, Rio de Janeiro).

Marques Rebelo (1964). Rio de Janeiro, RJ | © Alécio de Andrade, ADAGP, Paris (2015) / Acervo IMS

Um nome sem­pre lem­bra­do quan­do se fala de auto­res esque­ci­dos é Marques Rebelo. Pertence à luxu­o­sa gale­ria dos roman­cis­tas cari­o­cas da gema, na linha suces­só­ria de Manuel Antônio de Almeida, Machado de Assis e Lima Barreto. Melhor que as prin­ci­pais obras dele con­ti­nu­am em catá­lo­go, como os roman­ces Marafa e A estre­la sobe, e os Contos reu­ni­dos. É só ler.

Nasceu Eddy Dias da Cruz, em Vila Isabel, a 6 de feve­rei­ro de 1907. Mas acha­va Eddy Dias da Cruz um bom nome para com­po­si­tor de esco­la de sam­ba, não para escri­tor, daí o pseudô­ni­mo.

Quem lhe tra­çou o per­fil, no livro Subsidiário — extra­va­gan­te mis­tu­ra de memó­ri­as, con­fis­sões e diá­ri­os — foi o escri­tor Herberto Salles (este, sim, está com­ple­ta­men­te esque­ci­do). Herberto morou, ao che­gar ao Rio, no apar­ta­men­to de Rebelo. Era na Praia de Botafogo, 48, Edifício Duque de Caxias, cha­ma­do de “cho­ca­dei­ra aca­dê­mi­ca”, por­que lá tam­bém pas­sou, além dos dois cita­dos, o futu­ro aca­dê­mi­co R. Magalhães Jr., em cujo apar­ta­men­to foi depois morar o futu­ro aca­dê­mi­co Álvaro Lins, que teve como vizi­nho o futu­ro aca­dê­mi­co Aurélio Buarque de Holanda. É de se ima­gi­nar o que tão ilus­tres lite­ra­tos e con­fra­des tra­ma­vam entre qua­tro pare­des.

Herberto Salles, outro futu­ro aca­dê­mi­co, con­ta que o futu­ro aca­dê­mi­co Marques Rebelo odi­a­va reló­gio de pul­so, tinha medo tre­men­do de ven­to enca­na­do, usa­va boi­na e cache­col no inver­no e, no verão, às vezes cha­péu, mas qua­se sem­pre anda­va em pelo com o cor­te de cabe­lo esco­vi­nha, cor­ta­do ren­te, hábi­to tra­zi­do dos tem­pos da caser­na e do boxe ama­dor. Usava ócu­los de tar­ta­ru­ga. Almoçava cedo e rápi­do: legu­mes, ome­le­te, bata­tas fri­tas, bife. Goiabada cas­cão de sobre­me­sa. E então saía, para falar com Deus e o mun­do. Era reco­nhe­ci­do nas ruas do Rio. À noi­te, ouvia Beethoven e joga­va xadrez (cha­ma­va Capablanca de imbe­cil!). Sadio por fute­bol, dizia que o dia mais feliz da sua vida foi o 13 de dezem­bro de 1960, quan­do o América con­quis­tou o Campeonato Carioca (aliás, o últi­mo da his­tó­ria do rubro time tiju­ca­no).

Herberto cha­ma­va o ami­go de “um dos sete cari­o­cas do Rio”. Os outros seis, quem seri­am?

Nos anos 1930, Marques Rebelo tam­bém era clas­si­fi­ca­do de “ini­mi­go núme­ro um dos escri­to­res do Norte”. Na ver­da­de era mais uma impli­cân­cia, uma bir­ra, uma pinim­ba, das mui­tas que cul­ti­va­va, ou não teria aco­lhi­do em sua casa o bai­a­no Herberto. Seu alvo pre­di­le­to era o para­en­se Osvaldo Orico (outro de que nin­guém mais se lem­bra), que assi­na­va com as ini­ci­ais O. O. Para Rebelo, era o “dou­ble zero”.

Um fim de tar­de, na Livraria José Olympio, anti­go redu­to de escri­to­res na Rua do Ouvidor, 110, os dois desa­fe­tos se esbar­ra­ram e não hou­ve jei­to: fúria desor­de­na­da, enxur­ra­da de pala­vrões, tapas e empur­rões. O entre­ve­ro só ter­mi­nou com a intro­mis­são de Silvio Peixoto, neto e bió­gra­fo do pre­si­den­te Floriano Peixoto, que, ex-rema­dor do Flamengo, botou moral no peda­ço. No fim das con­tas, Rebelo, ape­sar de ex-pugi­lis­ta, apa­nhou mais que o cor­pu­len­to Orico. Esta a opi­nião de Graciliano Ramos que, de seu can­to pitan­do um cigar­ro, assis­tiu a tudo. (Graciliano era fã de car­tei­ri­nha do con­to “Na Rua Dona Emereciana”, uma das melho­res peças do escri­tor cari­o­ca. Sabia tre­chos de cor e os reci­ta­va na livra­ria).

Por que o ostra­cis­mo de Marques Rebelo? Ele virou até nome de rua na Lapa — uma gló­ria! Sua obra — pro­du­zi­da entre o iní­cio dos anos 1930 e o fim da déca­da de 1960 — con­ti­nua sara­da e sem rus­gas, resis­tin­do à ação do tem­po. O pro­je­to “Espelho par­ti­do” é de uma ambi­ção pou­cas vezes rea­li­za­da na lite­ra­tu­ra bra­si­lei­ra. “Um com­pri­do roman­ce, cuja ação fos­se tão monó­to­na quan­to nos­sa vida”, defi­nia o autor, que a ele se dedi­cou até o fim da vida, em 1973.

Não con­se­guiu com­ple­tar o pla­no polifô­ni­co do Espelho Partido, prous­ti­a­na­men­te pre­vis­to para sete volu­mes. O tra­pi­chei­ro (1959), A mudan­ça (1962) e A guer­ra está em nós (1968) foram edi­ta­dos. Restaram por escre­ver A paz não é bran­ca, No meio do cami­nho, A tem­pes­ta­de, Por um olhar de ter­nu­ra. Mesmo assim, o con­jun­to que con­se­guiu publi­car é a melhor pro­va da per­ma­nên­cia de Marques Rebelo.

Um roman­ce que se mis­tu­ra com auto­bi­o­gra­fia, memó­ria, cole­ção de afo­ris­mos, ensaio, cro­no­gra­ma his­tó­ri­co, docu­men­tá­rio, tudo regis­tra­do em for­ma de diá­rio com entra­das data­das. Rebelo pegou à unha o mode­lo macha­di­a­no apre­sen­ta­do no Memorial de Aires e o implo­diu. Urbanos e cos­mo­po­li­tas, os livros for­ma­vam um cor­po estra­nho no Brasil do fim da déca­da de 1950. O pano­ra­ma da épo­ca era ain­da domi­na­do pela gera­ção de roman­cis­tas do Nordeste.

Ele rees­cre­veu as pági­nas ini­ci­ais de O tra­pi­chei­ro (o títu­lo refe­re-se ao rio que nas­ce no Maciço da Tijuca) infi­ni­tas vezes, num reco­lhi­men­to de mon­ge. Mas pagou a pena. A pri­mei­ra fase indi­ca o tom sedu­tor de cafa­jes­ta­gem cari­o­ca que con­duz a nar­ra­ti­va: “Entrou em pas­sos de bor­ra­cha e ves­ti­do ama­re­lo – Jurandir fare­jou pos­si­bi­li­da­des – espre­men­do a bol­sa de camur­ça con­tra a ilhar­ga”. O apu­ro da lin­gua­gem, em opo­si­ção ao que o autor clas­si­fi­ca­va de “caco­e­te moder­nis­ta”, é notá­vel, seja em pri­mei­ra pes­soa ou ter­cei­ra pes­soa, que se alter­nam sem que o lei­tor se aper­ce­ba.

Romance inte­lec­tu­al”, na defi­ni­ção do crí­ti­co Wilson Martins, não dis­pen­sa a pai­sa­gem das ruas, dos bote­quins, das lei­te­ri­as, das bar­be­a­ri­as, dos bilha­res, dos bon­des, das repar­ti­ções públi­cas, das reda­ções de jor­nais, da vida miú­da nos subúr­bi­os, do namo­ro nas prai­as, do fute­bol e do car­na­val.

Mais do que um roman­ce inte­lec­tu­al, ou de inte­lec­tu­ais, é um rela­to do meio lite­rá­rio, e dele des­nu­da mur­ri­nhas e picui­nhas. Rebelo compôs um “roman à clef” car­na­va­li­za­do. Os per­so­na­gens reais apa­re­cem como que mas­ca­ra­dos de pier­rô, arle­quim, caci­que ou mor­ce­go, iden­ti­fi­cá­veis uns, irre­co­nhe­cí­veis outros: Lasar Segall, Tristão de Athayde, Jorge Amado, Augusto Frederico Schmidt, Carlos Lacerda, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Cândido Portinari, Santa Rosa, Oscar Niemeyer, Cyro dos Anjos, Guimarães Rosa. Algumas fan­ta­si­as exi­bem o padrão de qua­li­da­de da Casa Turuna, sen­do fácil iden­ti­fi­car no “famo­so soció­lo­go” o sota­que de Gilberto Freyre e no “poe­ta” a den­tu­ça de Manuel Bandeira.

, , , , , , , , , , ,