O melhor romance já escrito sobre futebol

Literatura

17.11.13
Sérgio Rodrigues (Bel Pedrosa/Divulgação)

Sérgio Rodrigues (Bel Pedrosa/Divulgação)

Por mui­to tem­po acre­di­tei que fute­bol e lite­ra­tu­ra de fic­ção não for­ma­vam uma dupla entro­sa­da. Não pelos moti­vos que, um dia, dis­se­ram que Pelé e Tostão não podi­am jogar jun­tos: tinham esti­los pare­ci­dos. Literatura de fic­ção e fute­bol até que têm “esti­los” mais do que dis­tin­tos. Acontece que as ten­ta­ti­vas que se repe­ti­am, em alguns con­tos e pou­cos roman­ces, para apro­xi­mar as duas linhas me soa­vam como pas­ses erra­dos ou chu­tes para fora. Principalmente por­que os escri­to­res, por mais cra­ques que fos­sem, não con­se­gui­am cri­ar com suas comé­di­as, dra­mas ou tra­gé­di­as algo que sequer che­gas­se per­to do que se pas­sa de ver­da­de no fas­ci­nan­te tea­tro do fute­bol. Isso por­que, como me atre­vi a dizer em pales­tra na ABL, “nenhu­ma inven­ção, nenhu­ma nar­ra­ti­va fic­ci­o­nal, nada do que se tem cri­a­do, car­re­ga em si a dimen­são huma­na das his­tó­ri­as reais vivi­das den­tro e fora dos está­di­os”. Sete anos depois, reco­nhe­ço que furei feio.

Continuo achan­do que his­tó­ri­as sobre fute­bol, pura e sim­ples­men­te, têm pou­cas chan­ces de vitó­ria. Qual delas pode­ria igua­lar-se ao dra­ma ou à tra­gé­dia de um Heleno, um Garrincha, um Veludo, um Floriano? Mas… e se o fute­bol, com toda a sua rique­za de emo­ções, for ape­nas a cena, o mun­do pelo qual tran­si­tam per­so­na­gens não neces­sa­ri­a­men­te bons de bola? E se as his­tó­ri­as vivi­das por esses per­so­na­gens apro­vei­ta­rem, e trans­cen­de­rem, toda a magia que o fute­bol con­tém. Lembro-me de uma nove­la apa­ren­te­men­te des­pre­ten­si­o­sa, de Luis Fernando Verissimo, diri­gi­da ao públi­co infan­to­ju­ve­nil. Título: O cachor­ro que joga­va na pon­ta esquer­da. Nela, um sim­ples desa­fio de rua entre tur­mas rivais é o bas­tan­te para mos­trar que, no fute­bol, cabem, para lem­brar Paulo Mendes Campos, “todos os ramos da gran­de árvo­re psí­qui­ca”. E que é pos­sí­vel cri­ar exce­len­te fic­ção jogan­do com os valo­res, a gra­ça, as mani­as, as tra­di­ções, as lógi­cas, os absur­dos, a ima­gi­na­ção, a arte e as memó­ri­as que o fute­bol plan­ta em cada um de nós.

Outros escri­to­res já tinham me con­ven­ci­do dis­so, mas todo este lon­go nariz-de-cera aci­ma é para che­gar­mos a O dri­ble (Companhia das Letras), roman­ce de Sérgio Rodrigues que me atre­vo a rotu­lar como o melhor já escri­to sobre fute­bol em qual­quer idi­o­ma.

Certo, não é bem um livro sobre fute­bol, mas, ao mes­mo tem­po, é. Trata da rea­pro­xi­ma­ção de pai e filho sepa­ra­dos por 26 anos de dis­tân­cia, ódi­os e segre­dos. O pai, “O leão da crô­ni­ca espor­ti­va”, é um jor­na­lis­ta que repas­sa eta­pas de sua vida asso­ci­an­do-as ao fute­bol, em espe­ci­al jogos do Brasil em Copas do Mundo e a bio­gra­fia que escre­ve sobre um cer­to Peralvo, cra­que para­nor­mal que seria “mai­or que Pelé”, não fos­se assas­si­na­do pela repres­são dos anos de chum­bo. O filho, um revi­sor de livros de auto­a­ju­da, não é fã de fute­bol. Suas memó­ri­as reme­tem à cul­tu­ra pop do seu tem­po, tão dis­tan­te do pai quan­to ele mes­mo. Fatos e per­so­na­gens reais se alter­nam com os cri­a­dos pelo autor, ele pró­prio jor­na­lis­ta espor­ti­vo de pri­mei­ro time e jovem inte­lec­tu­al em dia com aque­la cul­tu­ra. As memó­ri­as de cada um, embo­ra diver­sas, dão for­ça e coe­rên­cia à nar­ra­ti­va. Por mais que o velho leão afir­me que “… o fute­bol pode espe­lhar a vida, mas a recí­pro­ca, por razões que igno­ra­mos, não é ver­da­dei­ra”.

O roman­ce pren­de o lei­tor como um mat­ch deci­si­vo, sem favo­ri­tos e, como tal, sujei­to a resul­ta­dos sur­pre­en­den­tes. As metá­fo­ras, a mai­or par­te delas saí­das do fute­bol, entram em cam­po a cada pági­na. O his­tó­ri­co dri­ble sem bola de Pelé em Mazurkiewicz (aque­le que o locu­tor Clovis Filho, para­fra­se­an­do Manuel Bandeira, defi­niu como “o gol que deve­ria ter sido e não foi”) é uma das fixa­ções do velho cro­nis­ta: “Pelé desa­fi­ou Deus e per­deu”. E é no míni­mo desa­fi­a­do­ra a tese de que Pelé não quis fazer aque­le gol, pre­fe­rin­do per­dê-lo por pou­co para ficar na his­tó­ria mar­ca­do pela cica­triz des­se por pou­co, “saben­do que ela quei­ma­ria mais que o gozo da rea­li­za­ção”. Um lan­ce eter­no que, vai-se saber, tem tudo a ver com a den­sa his­tó­ria de pai e filho. Os segre­dos? Como aca­ba? Os porquês? Qual o pla­car final des­te envol­ven­te roman­ce? Que cada um con­fi­ra. Matches deci­si­vos têm de ser vis­tos do pri­mei­ro ao últi­mo minu­to.

* João Máximo é jor­na­lis­ta, autor de Gigantes do fute­bol bra­si­lei­ro (com Marcos de Castro), Maracanã — Meio sécu­lo de pai­xão, Noel Rosa — Uma bio­gra­fia e outros livros. 

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