O mito da Zona Sul

Correspondência

13.10.11

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Meu que­ri­do Dapieve:

 

Só pra com­ple­men­tar a car­ta ante­ri­or, gos­ta­ria de um pita­co sobre o cal­do de cul­tu­ra onde cres­ce (?) o espé­ci­me que vive na Tijuca. Hoje, o bair­ro vai do Estácio ao Grajaú e até a Usina, na subi­da do Alto da Boa Vista, no que é cha­ma­do, um tan­to pom­po­sa­men­te, de Grande Tijuca. Nesse sen­ti­do, a Tijuca é uma espé­cie de Conceição: “ten­tan­do a subi­da, des­ceu”. As raras casas que sobra­ram e os outro­ra sim­pá­ti­cos pré­di­os de três anda­res, com mure­tas de um metro e por­tão­zi­nho, ganha­ram assus­ta­do­ras gra­des, balas entram pelas jane­las (eu tenho duas guar­da­das), a pra­ça Saens Peña pare­ce uma for­ta­le­za góti­ca — não fica­rei admi­ra­do se pin­tar o fos­so com jaca­rés -, pra não falar da extin­ção do peque­no comér­cio, des­truí­do pelos nar­coshop­pings, onde autô­ma­tos andam de um lado pro outro, caem no con­to da “pro­mo­ção”, comem mal, e, estra­nha­men­te, diver­tem-se. Não por aca­so, entre a juven­tu­de, a mai­o­ria dos robo­bos são ape­li­da­dos de piri­gue­tes e stron­das… A Tijuca, ori­gi­nal­men­te tiju­co (pân­ta­no), vol­ta às ori­gens, só que num loda­çal pós-moder­no de suca­ta colo­ri­da, dis­far­ça­da em inú­teis bens de con­su­mo — em bom por­tu­guês, lixo pra des­lum­brar trou­xa.

Vamos para Copacabana. O ines­que­cí­vel para mim não era o mar, mas a fra­grân­cia, mis­to de per­fu­me e ânsia, que sen­tia ao sair do Túnel Novo. Menino pre­co­ce, sem­pre asso­ci­ei aque­le chei­ro a mulhe­res boni­tas de per­na gros­sa.

Lembro que a famí­lia esta­va reu­ni­da em um almo­ço domin­guei­ro, na rua dos Artistas, em Vila Isabel, quan­do meu tio mais novo dis­se, em tom de quem não admi­ti­ria pal­pi­tes con­trá­ri­os:

- Semana que vem, vamos mudar para o Leme, em Copacabana.

Minha avó mater­na, Dona Noemia, mulher for­tís­si­ma que nun­ca vi ter uma cri­se ner­vo­sa, ficou páli­da e ben­zeu-se, como se tives­se ouvi­do que titio iria, com a espo­sa e minha pri­mi­nha Valéria, para Sodoma. O cho­que pro­du­zi­do pela notí­cia foi tre­men­do. Eu cata­va cochi­chos pelos can­tos: “… apar­ta­men­to per­to de áre­as de mere­trí­cio” (o Beco da Fome). De noi­te, per­gun­tei à minha sau­do­sa mãe o que era mete­rí­cio, e ela — acon­te­cia dia­ri­a­men­te — pas­sou mal, ame­a­çou des­fa­le­cer, cha­ma­ram o Dr. Fandor, a roti­na.

Durante essas cri­ses, meu pai per­ma­ne­cia, Lincoln no can­to da boca, com a cara enfi­a­da na pági­na das cor­ri­das de cava­los. Era asmá­ti­co e fuma­va com­pul­si­va­men­te mata-ratos, o que expli­ca­va a qua­se per­ma­nen­te ambu­lân­cia do SAMDU (Serviço de Assistência Médica de Urgência) na por­ta. Ele qua­se não fala­va, mas me adver­tia em voz caver­no­sa:

- Eu que­ria ser pilo­to de avião, não estu­dei, sou escri­tu­rá­rio do Iapetec.

A pri­mei­ra ida à míti­ca Zona Sul foi catas­tró­fi­ca. A des­cul­pa era visi­tar meu tio, que já se muda­ra, mas papai que­ria mes­mo era ver uma demons­tra­ção da FAB. Ora, com a asma dele e mamãe sem­pre doen­te, rei­na­va a mania do aga­sa­lho. Assim, fui pra Copacabana enver­gan­do cal­ças bom­ba­chas de fla­ne­la espes­sa, cami­se­ta, e blu­sa de man­gas com­pri­das por cima. Durante o show aéreo, olhei para cima e achei que meu pai esta­va cho­ran­do! Sob o sol e as rou­pas, minha emo­ção sol­tou-se, jun­to com o tra­di­ci­o­nal e muui­i­to repe­ti­ti­vo gri­to de guer­ra:

- Pai-ê! Tô aper­ta­do pra fazer cocô!

Se alguém achar que isso foi ruim, é por­que ain­da não con­tei nos­sas idas ao Posto 6, “mar pare­ci­do com o de Paquetá”. Íamos intei­ra­men­te ves­ti­dos. Dois bon­des até a Central e um lota­ção. No come­ço da areia, tirá­va­mos cal­ças, mei­as, sapa­tos, cami­se­tas, cami­sas, e aga­sa­lhos leves de shan­tung. Quando fica­va só de short (sun­ga era coi­sa de fres­co), papai res­mun­ga­va:

- Frio des­gra­ça­do!

Abria uma bol­sa ver­de da Panair, tira­va um fras­co escu­ro de Eparema e bebia uma senho­ra tala­ga­da no gar­ga­lo. O vidro esta­va cheio de cacha­ça com ver­mu­te… Os shorts eram paté­ti­cos, com padro­na­gens colo­ri­das e “cin­ti­nhos” fal­sos, com dois botões. Pra quem acha­va sun­ga coi­sa de via­do… Não vale a pena des­cre­ver a vol­ta pra Vila, na qual eu inva­ri­a­vel­men­te vomi­ta­va. A úni­ca lem­bran­ça boa que guar­dei des­se infer­no foi uma car­ro­ci­nha, pare­ci­da com a de pipo­ca ou de algo­dão, que desa­pa­re­ceu. Vendia doces ára­bes.

Entrou em cam­po a fase de Paquetá e só vol­tei, adul­to, em Copa, pra beber com os ami­gos, e me meter em con­fu­são, prin­ci­pal­men­te com pri­mo Dininho, o pia­nis­ta Chiquinho Botelho, e outros que não cita­rei por­que vai aca­bar em divór­ci­os. Grandes aven­tu­ras, com as con­sequên­ci­as pre­vi­sí­veis. Vou dar uma pali­nha, de leve, can­ta­ro­lan­do:

Copacabana, a Surfistinha do Mar!
                                               Lararará, etc.

E o gran­de final, paro­di­an­do a famo­sa can­ção:

Depois do amor sob o luar,
Binotal 1000 mili­gra­mas hei de tomar…

 

Hoje, já não me arris­co naque­las águas. Navego — ou sou impul­si­o­na­do — num bar­qui­nho de jor­nal, rio Maracanã aden­tro, rumo ao Coração das Trevas.

 

Abraço fra­ter­no,

 

Aldir

 

* Na ima­gem da home que ilus­tra este post: a pedra da Gávea, o mor­ro Dois Irmãos e as prai­as de Ipanema e Leblon vis­tos da praia do Arpoador, Rio de Janeiro, 1952 (foto de José Medeiros/acervo IMS)

 

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