Desafios de pensar sobre as obrigações da maternidade

Colunistas

18.02.16

A mater­ni­da­de está defi­ni­ti­va­men­te em pau­ta. Não é coin­ci­dên­cia que a cam­pa­nha “Desafio da mater­ni­da­de” apa­re­ça nas redes soci­ais ao mes­mo tem­po em que a rei­vin­di­ca­ção do direi­to ao abor­to para casos de micro­ce­fa­lia está pres­tes a ser leva­da ao Supremo Tribunal Federal. O con­tex­to de dis­pu­ta é o de sem­pre: as for­ças con­ser­va­do­ras pre­ten­dem demo­ni­zar quem rei­vin­di­ca direi­to ao abor­to. Para isso, se valem de dife­ren­tes tipos de argu­men­tos. Há cien­tis­tas cató­li­cos fun­da­men­tan­do bases teó­ri­cas que escon­dem dog­mas de fé, há juris­tas cató­li­cos citan­do cien­tis­tas cató­li­cos para sus­ten­tar juris­pru­dên­ci­as base­a­das em dog­mas de fé, e há prin­ci­pal­men­te uma ali­an­ça de mulhe­res cató­li­cas em cam­pa­nha per­ma­nen­te para defen­der o pri­vi­lé­gio da mater­ni­da­de a par­tir da deli­be­ra­da sacra­li­za­ção da mater­ni­da­de.

O ber­ço, de Berthe Marisot (1872)

Nas redes, o “desa­fio da mater­ni­da­de” segue a linha do sagra­do. Pede as mulhe­res que publi­quem três fotos nas quais sin­tam-se feli­zes por serem mães, ape­sar de todas as difi­cul­da­des. Apela-se para um amor que seria ins­tin­ti­vo, natu­ral, e moti­vo de rea­li­za­ção máxi­ma de qual­quer mulher. A lógi­ca do sacri­fí­cio segue a ideia de que, para que uma mulher expe­ri­men­te a sacra­li­da­de de ser mãe, infe­liz­men­te é pre­ci­so pas­sar por alguns obs­tá­cu­los, sem­pre jus­ti­fi­ca­dos dian­te da ple­ni­tu­de da rea­li­za­ção femi­ni­na na mater­ni­da­de.

O meu pro­ble­ma é dis­cu­tir de onde vem a for­ça des­sa argu­men­ta­ção. É óbvio que toda mãe já expe­ri­men­tou des­de as dores do par­to até as noi­tes inso­nes (que, aliás, aca­bam na pri­mei­ra infân­cia e vol­tam na ado­les­cên­cia), des­de o medo de não saber o moti­vo do cho­ro do seu bebê ao pâni­co dian­te das res­pon­sa­bi­li­da­des envol­vi­das em cui­dar de um ser huma­no que saiu da sua bar­ri­ga. Mas pou­cas, mui­to pou­cas admi­tem – para si mes­mas ou para a soci­e­da­de – as difi­cul­da­des que vivem. E as cora­jo­sas o sufi­ci­en­te para fazê-lo são lin­cha­das, como acon­te­ceu com a dona de casa Juliana Reis, cujo per­fil no Facebook foi blo­que­a­do depois de afir­mar que “detes­ta­va ser mãe”.

Imagem: Extra/Reprodução

Noto que em nenhum momen­to a jovem pôs em dúvi­da seu amor pelo filho, ape­nas dis­se com todas as letras que detes­ta­va todas as obri­ga­ções que lhe são impos­tas pelo fato de ser mãe. Uso essa pala­vra – obri­ga­ção – por­que me pare­ce que em tor­no dela se pode come­çar a achar algum sen­ti­do para o pro­ble­ma do mito do amor mater­no e da sus­ten­ta­ção de sua sacra­li­da­de. Autora da expres­são “mito do amor mater­no”, a fran­ce­sa Elisabeth Badinter obser­va que mui­tas mães sozi­nhas cui­dan­do de seus filhos expres­sam ape­nas tédio e que é a obri­ga­ção do amor que fecha às mulhe­res as pos­si­bi­li­da­des de rea­li­za­ção.

Posto como natu­ral e ins­tin­ti­vo, o amor pelo filho já nas­ce como uma exi­gên­cia e, ao mes­mo tem­po, uma decor­rên­cia bio­ló­gi­ca do fato de que há um embrião sen­do ges­ta­do den­tro do cor­po da mulher. Separa-se, aqui, o amor das mulhe­res por seus filhos – fun­da­men­ta­do na natu­re­za – do amor dos homens pelos seus filhos, cuja ori­gem seria cul­tu­ral. A divi­são se expres­sa nos dita­dos popu­la­res mais tolos – “mãe só tem uma”, “ser mãe é pade­cer no paraí­so” –, na legis­la­ção, que per­mi­te que uma cri­an­ça seja regis­tra­da ape­nas com o nome da mãe, mas não ape­nas com o nome do pai; e dife­ren­cia o pra­zo da licen­ça mater­ni­da­de em fun­ção do tem­po de ama­men­ta­ção.

Por decor­rên­cia, a afir­ma­ção da sacra­li­da­de do amor mater­no pro­mo­ve tam­bém o seu aves­so, a exclu­são dos homens do que hoje se cha­ma paren­ta­li­da­de, ter­mo com o qual se pre­ten­de fazer dos filhos res­pon­sa­bi­li­da­de e amor com­par­ti­lha­do por duas pes­so­as, inclu­si­ve as homo­a­fe­ti­vas que optam por ado­ção. As pou­cas mulhe­res cora­jo­sas capa­zes de ver a fun­ção mater­na a par­tir de um olhar crí­ti­co são apon­ta­das como mege­ras, bru­xas, lou­cas ou pior, quan­do na ver­da­de o que se está ten­tan­do fazer é não sacra­li­zar as obri­ga­ções – a pala­vra vol­ta pela sua impor­tân­cia – que a mater­ni­da­de impõe his­tó­ri­ca e exclu­si­va­men­te sobre as mulhe­res. Transformar um filho em um far­do pesa­do a car­re­gar é a pior for­ma de amor que uma mulher pode ofe­re­cer a uma cri­an­ça. A con­tra­par­ti­da dis­so é “ser pai quan­do dá”, a pro­va máxi­ma que ain­da fal­ta mui­to para che­gar ao ide­al da paren­ta­li­da­de. Falta tam­bém a mui­tas mulhe­res que enlou­que­cem achan­do que o filho é um obje­to, pro­pri­e­da­de exclu­si­va delas, as úni­cas supos­ta­men­te capa­zes de amá-lo.

Do meu pon­to de vis­ta, o pior da obri­ga­ção que sus­ten­ta o mito do amor mater­no é o fato de que, numa gran­de mai­o­ria dos casos, a vida da cri­an­ça pas­sa a ter valor rela­ti­vo mai­or do que a vida da mulher. A par­tir do momen­to em que se tor­na mãe, a natu­re­za teria o poder de tro­car seu lugar e papel soci­al de mulher para mãe, tan­to e a tal pon­to que sua exis­tên­cia fica ime­di­a­ta­men­te infe­ri­o­ri­za­da em rela­ção à do seu filho. Talvez seja isso que Juliana expres­sa quan­do diz que “detes­ta ser mãe”. Talvez seja isso que os desa­fi­os da mater­ni­da­de ocul­tem, o fato de que ser mãe não pode­ria ser exclu­den­te de ser mulher, como que­rem os dis­cur­sos con­ser­va­do­res base­a­dos na pre­mis­sa de que a mai­or das rea­li­za­ções de uma mulher é cum­prir o des­ti­no natu­ral para o qual foi fei­ta, parir. As obri­ga­ções da mater­ni­da­de se tor­nam o cami­nho pelo qual uma mulher põe no mun­do uma cri­an­ça que vai ime­di­a­ta­men­te exi­gir que ela aban­do­ne a iden­ti­da­de de mulher pela de mãe, no seu ide­al de pure­za asse­xu­a­da e feliz­men­te inal­can­çá­vel.

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