O modernismo por Paulo Mendes de Almeida — quatro perguntas para Ana Luisa Martins

Quatro perguntas

09.04.15

Filha do crí­ti­co de arte e cro­nis­ta Luís Martins, a escri­to­ra Ana Luisa Martins rea­li­za ago­ra um anti­go dese­jo: relan­çar o livro Da Anita ao museu — O moder­nis­mo, da pri­mei­ra expo­si­ção de Anita Malfatti à pri­mei­ra Bienal, do crí­ti­co Paulo Mendes de Almeida (1905–1986).

Paulo Mendes de Almeida (1905–1986)

Publicada em 1961 e ree­di­ta­da em 1976, essa obra docu­men­ta, a par­tir de arti­gos publi­ca­dos em O Estado de S. Paulo, os movi­men­tos do moder­nis­mo no Brasil (mais pre­ci­sa­men­te, em São Paulo), entre 1917 e 1951. A edi­ção da Terceiro Nome, coor­de­na­da por Ana Luisa, tem o que as ante­ri­o­res não pude­ram ter: mui­tas ilus­tra­ções e mui­to bem impres­sas, fun­da­men­tais para se enten­der os arti­gos. E, ain­da, índi­ce ono­más­ti­co, notas de con­tex­tu­a­li­za­ção e um CD-aces­si­bi­li­da­de, com os tex­tos gra­va­dos e audi­o­des­cri­ção das ima­gens.

Ao Blog do IMS, Ana Luisa res­sal­ta a impor­tân­cia do livro hoje e a neces­si­da­de de se aten­tar nova­men­te para a figu­ra de Paulo Mendes de Almeida, um inte­lec­tu­al mili­tan­te das artes visu­ais e figu­ra tam­bém amo­ro­sa e diver­ti­da, como a filha de Luís Martins (gran­de ami­go de Paulo) pôde tes­te­mu­nhar des­de a infân­cia.

1) O livro é de 1961. Desde então, mui­to se escre­veu sobre o moder­nis­mo e mui­to se rea­li­zou sob ins­pi­ra­ção dele, como no caso do tro­pi­ca­lis­mo. O livro pode ter fica­do data­do?

A pri­mei­ra ver­são do livro é de 1961. Mas nos base­a­mos na segun­da, de 1976, mais ampla e mais conhe­ci­da. Acho que o livro não tem como ficar data­do, pois é um dos pou­cos, se não o úni­co regis­tro orga­ni­za­do sobre a his­tó­ria da arte moder­na em São Paulo pós Semana de 22. É o tes­te­mu­nho de alguém que viu de per­to ou par­ti­ci­pou dos fatos que rela­ta. Quem hoje, além de espe­ci­a­lis­tas e estu­di­o­sos, sabe o que foi a SPAM (Sociedade Pró Moderna), o CAM (Clube dos Artistas Modernos), os Salões de Maio e tan­tos outros gru­pos e acon­te­ci­men­tos fun­da­men­tais para a acei­ta­ção da arte moder­na entre nós? Porque acei­tar a esté­ti­ca moder­nis­ta não foi coi­sa fácil nem ime­di­a­ta. Foi uma bata­lha árdua, per­sis­ten­te, que levou anos. A tão decan­ta­da  Semana de Arte Moderna, por exem­plo, foi mais famo­sa a pos­te­ri­o­ri do que quan­do acon­te­ceu. Muita água rolou depois da Semana, até se che­gar ao con­cre­tis­mo, ao museu de arte moder­na e às bie­nais. O Paulo, além de ter sido um dos pro­ta­go­nis­tas des­sa bata­lha, era um óti­mo escri­tor, um jor­na­lis­ta que escre­via para o gran­de públi­co, entre­me­an­do o regis­tro das expo­si­ções com fatos pito­res­cos, des­cri­ção das fes­tas, das bri­gas dos artis­tas com a polí­cia etc.. Então tam­bém é um livro mui­to agra­dá­vel, que se lê com gos­to. 

2) A que você atri­bui o rela­ti­vo esque­ci­men­to de Paulo Mendes de Almeida, de quem qua­se não se fala hoje?

A obra mais conhe­ci­da dele é jus­ta­men­te o De Anita ao Museu, que esta­va esgo­ta­da há anos e só era encon­tra­da em sebos. Mesmo assim, era uma edi­ção dos anos 1970, aca­nha­da, com ima­gens em pre­to e bran­co sem qua­li­da­de e sem nenhum ape­lo para o lei­tor atu­al, não espe­ci­a­li­za­do. Por cau­sa dis­so, o livro só cir­cu­la­va no meio uni­ver­si­tá­rio, embo­ra tives­se poten­ci­al para inte­res­sar um públi­co mui­to mai­or, a meu ver. Qualquer um que se inte­res­se por cul­tu­ra e apre­cie um bom tex­to vai gos­tar des­se livro. Então foi o que nós bus­ca­mos na nova edi­ção: ampli­ar o uni­ver­so de lei­to­res, pro­du­zir um livro atra­en­te, boni­to, colo­ri­do, com boas ima­gens, notas para con­tex­tu­a­li­zar o lei­tor con­tem­po­râ­neo e outros atra­ti­vos. É um tex­to mui­to liga­do à his­tó­ria da cida­de, então cons­truí­mos tam­bém uma pági­na, lis­tan­do Onde Ver as obras e os luga­res cita­dos pelo Paulo. É só aces­sar o link e você vê O Livro nos Museus e O Livro na Cidade.

Cartaz da primeira Bienal do Museu de Arte Moderna

Fora isso, con­fes­so que sem­pre me espan­tou esse rela­ti­vo esque­ci­men­to do Paulo Mendes. Porque além de autor do De Anita, que sem­pre foi con­si­de­ra­do um livro icô­ni­co, o Paulo tam­bém foi uma figu­ra mui­ta impor­tan­te e conhe­ci­da no meio artís­ti­co pau­lis­ta­no. Foi dire­tor do MAM, o pri­mei­ro repre­sen­tan­te da Bienal em Veneza, escre­veu cen­te­nas de tex­tos sobre artes plás­ti­cas, foi jura­do de vári­as bie­nais e um dos res­pon­sá­veis pelo renas­ci­men­to do MAM-SP (que teve todo o seu acer­vo doa­do para o MAC nos anos 1960). O fato tris­te é que nós, bra­si­lei­ros, em geral tra­ta­mos mui­to mal a nos­sa pró­pria his­tó­ria. Triste por­que um país que não conhe­ce a pró­pria his­tó­ria não enten­de mui­to bem o que está ven­do quan­do olha o pre­sen­te. Isso fica mui­to cla­ro na super­fi­ci­a­li­da­de da crí­ti­ca atu­al, se é que se pode cha­mar de crí­ti­ca o que se lê hoje nos jor­nais. Talvez tam­bém não tenha aju­da­do o fato de o Paulo ter sido um intelectual/jornalista típi­co da pri­mei­ra meta­de do sécu­lo 20: eclé­ti­co, cul­to, inte­li­gen­te, mas tam­bém modes­to, sério, reser­va­do publi­ca­men­te. Gente reser­va­da não está mui­to “na moda” ulti­ma­men­te.

3) Ele era crí­ti­co de arte, mas, no caso da arte moder­na, tam­bém era um apai­xo­na­do, um mili­tan­te. Você acha que um des­ses lados atra­pa­lha­va o outro?

Paulo atu­ou mui­to mais nos bas­ti­do­res do que nos holo­fo­tes. Muitos artis­tas de São Paulo dos anos 30 e 40 tal­vez não tives­sem hoje o nome que têm se não fos­se por ele. Era um gran­de incen­ti­va­dor, um aglu­ti­na­dor, tinha tem­pe­ra­men­to con­ci­li­a­dor e  era um tra­ba­lha­dor incan­sá­vel. A “cau­sa” pela qual ele mili­tou a vida toda ia mui­to além da arte moder­na. Envolvia ques­tões esté­ti­cas, polí­ti­cas, visão de mun­do, von­ta­de de moder­ni­zar o país. Não creio que ele pró­prio se con­si­de­ras­se um “crí­ti­co de arte”, na acep­ção que a expres­são tem hoje. Quando come­çou a escre­ver sobre arte moder­na, era ape­nas um jovem liga­do ao um gru­po de jovens que que­ria cha­co­a­lhar o gos­to, o taca­nhis­mo, o atra­so do país. Está aí, tal­vez, a mai­or rela­ção com o tro­pi­ca­lis­mo. A arte moder­na era só mais um meio de fazer isso que, com o tem­po, foi toman­do espa­ço na vida dele. Para mim, Paulo Mendes de Almeida foi mais um inte­lec­tu­al, um escri­tor que, entre outros temas, escre­veu sobre artes plás­ti­cas. Da mes­ma for­ma  que antes dis­so escre­veu sobre lite­ra­tu­ra e antes pro­du­ziu poe­mas e con­tos (alguns inte­res­san­tís­si­mos). Mesmo o De Anita, se for para clas­si­fi­car, acho uma obra mais memo­ri­a­lis­ta do que crí­ti­ca ou his­to­ri­o­grá­fi­ca.

Mario de Andrade por Anita Malfatti

4) E você con­vi­veu com ele des­de a sua infân­cia. Como ele era na vida pri­va­da?

Muito cari­nho­so, inte­li­gen­te, cul­tís­s­si­mo, falan­te, espi­ri­tu­o­so, engra­ça­do. Era tam­bém ouvin­te aten­to, coi­sa rara entre “inte­lec­tu­ais”. Gostava de can­tar ope­re­tas ita­li­a­nas, con­tar casos e pia­das. Era um gran­de imi­ta­dor. Imitava tão bem o Segall que este cos­tu­ma­va dizer: “Paulo Mendes é mais Segall que Segall”. Lembro dele sem­pre com um sor­ri­so lar­go no ros­to, achan­do mui­ta gra­ça em algu­ma coi­sa. Acho que foi com esse sor­ri­so que escre­veu De Anita ao museu.

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