Eva Löbau em Floresta para as árvores

Eva Löbau em Floresta para as árvores

O mundo como teatro

No cinema

10.02.17

Toni Erdmann, da ale­mã Maren Ade, que con­cor­re ao Oscar de fil­me estran­gei­ro depois de ter con­quis­ta­do uma por­ção de prê­mi­os em fes­ti­vais como Cannes, San Sebastián e Toronto, pode ser des­cri­to como uma comé­dia amar­ga sobre o nos­so tem­po. Mas, como vere­mos, é mui­to mais do que isso. Ainda esta­mos em feve­rei­ro, mas já se pode dizer sem medo que é um dos gran­des fil­mes do ano.

O públi­co cari­o­ca pode­rá ter o pri­vi­lé­gio adi­ci­o­nal de ver os dois lon­gas ante­ri­o­res da dire­to­ra, Floresta para as árvo­res (2003) e Todos os outros (2009), pro­gra­ma­dos para as pró­xi­mas sema­nas no Instituto Moreira Salles. É uma rara opor­tu­ni­da­de de pre­sen­ci­ar a gêne­se e o flo­res­ci­men­to de um cine­ma for­te e ori­gi­nal.

Descompasso geracional

No cen­tro de Toni Erdmann há a rela­ção desen­con­tra­da entre um pai e sua filha. O pai, Winfried Conradi (Peter Simonischek), é um velho pro­fes­sor de músi­ca meio ama­lu­ca­do, uma espé­cie de hip­pie tar­dio, rema­nes­cen­te de outros tem­pos e valo­res. Sua filha Ines (Sandra Hüller), ao con­trá­rio, é uma exe­cu­ti­va enér­gi­ca, total­men­te inte­gra­da no capi­ta­lis­mo glo­bal: seu tra­ba­lho, para uma fir­ma de reen­ge­nha­ria empre­sa­ri­al, con­sis­te em demi­tir empre­ga­dos e trans­fe­rir uni­da­des de pro­du­ção para paí­ses onde a mão de obra é mais bara­ta. Atualmente ela está em Bucareste, na Romênia, mas ama­nhã pode­rá estar em Xangai ou em Cingapura.

Esse con­fli­to gera­ci­o­nal inver­ti­do (o pai é liber­tá­rio; a filha, uma ser­vi­çal do lucro capi­ta­lis­ta) reve­la-se logo numa das pri­mei­ras cenas, em que Ines, momen­ta­ne­a­men­te de vol­ta à Alemanha, par­ti­ci­pa de um almo­ço de famí­lia na casa da mãe, sepa­ra­da de Winfried. Olhando a filha à dis­tân­cia, a mãe comen­ta com o ex-mari­do como a moça está se dan­do bem na sua fir­ma, con­quis­tan­do car­gos, poder e dinhei­ro. Ele res­pon­de: “Onde foi que erra­mos?”

O des­com­pas­so entre pai e filha ganha con­tor­nos tra­gicô­mi­cos quan­do ele resol­ve visi­tá-la de sur­pre­sa em Bucareste. Usando um dis­far­ce ridí­cu­lo (peru­ca ense­ba­da, den­tes tor­tos pos­ti­ços), apre­sen­ta-se com a iden­ti­da­de de Toni Erdmann nas mais diver­sas oca­siões (encon­tros de tra­ba­lho, jan­ta­res, recep­ções), no mais das vezes cons­tran­gen­do Ines, mas oca­si­o­nal­men­te obri­gan­do-a a entrar no jogo e con­fron­tar seu pró­prio modo de vida desu­ma­ni­za­do, em que até mes­mo as diver­sões não pas­sam de mei­os de “maxi­mi­zar sua per­for­man­ce” pro­fis­si­o­nal.

Teatro da sociedade

Um dos modos de ler Toni Erdmann é apre­ci­ar esse balan­ço dia­lé­ti­co entre um tea­tro soci­al con­ser­va­dor, em que cada más­ca­ra ser­ve para rea­fir­mar uma posi­ção de poder, e um tea­tro de desa­fio e sub­ver­são, fun­da­do no lúdi­co e no cômi­co. Dito assim, pode­ria soar como algo esque­má­ti­co, como uma “men­sa­gem” pre­con­ce­bi­da. Nada dis­so. O que con­fe­re um fres­cor irre­sis­tí­vel ao cine­ma de Maren Ade é jus­ta­men­te a sen­sa­ção de que nada esta­va escri­to de ante­mão, de que as coi­sas vão acon­te­cen­do “natu­ral­men­te” dian­te da câme­ra, como um pre­sen­te con­tí­nuo.

Há o tem­po todo uma atmos­fe­ra de ins­ta­bi­li­da­de, de incer­te­za, que vem mui­to da uti­li­za­ção de uma câme­ra na mão que pare­ce não saber mui­to bem o que vai encon­trar pela fren­te no pró­xi­mo movi­men­to. Mesmo nos pla­nos supos­ta­men­te fixos a câme­ra nun­ca está total­men­te imó­vel, nun­ca apri­si­o­na a ima­gem e os per­so­na­gens.

A impres­são, ao mes­mo tem­po angus­ti­an­te e liber­ta­do­ra, de que “tudo pode acon­te­cer” atin­ge o ápi­ce na pas­sa­gem do brun­ch de ani­ver­sá­rio no apar­ta­men­to de Ines. A par­tir de um con­tra­tem­po minús­cu­lo e banal ao extre­mo – a ten­ta­ti­va de tirar pela cabe­ça um ves­ti­do mui­to jus­to – cria-se uma situ­a­ção cres­cen­te­men­te absur­da, des­con­cer­tan­te, que deve ser uma das sequên­ci­as cômi­cas mais extra­or­di­ná­ri­as do cine­ma con­tem­po­râ­neo.

Essa pare­ce ser uma estra­té­gia nar­ra­ti­va cons­tan­te do cine­ma de Maren Ade: uma abor­da­gem apa­ren­te­men­te pro­sai­ca que faz esta­lar como peque­nas ou gran­des epi­fa­ni­as os momen­tos de humor, de vio­lên­cia ou de poe­sia.

De res­to, os per­so­na­gens não se pres­tam a nenhu­ma redu­ção pro­gra­má­ti­ca, seja ela polí­ti­ca, soci­o­ló­gi­ca ou psi­ca­na­lí­ti­ca. Winfried/Toni não é ape­nas um liber­tá­rio, é tam­bém um cha­to de galo­chas, um homem ao mes­mo tem­po subli­me e ridí­cu­lo em sua bus­ca do autên­ti­co atra­vés do fal­so. E Ines tam­pou­co é ape­nas uma insen­sí­vel máqui­na de pro­du­zir e ganhar dinhei­ro. As cri­a­tu­ras de Maren Ade têm nuan­ces, fun­dos fal­sos, face­tas opa­cas. Mais que isso: pare­cem em per­ma­nen­te cons­tru­ção, como aliás todo mun­do. Por isso são tão vivas.

Floresta para as árvores

As carac­te­rís­ti­cas indi­ca­das aci­ma – ins­tau­ra­ção de um pre­sen­te con­tí­nuo, câme­ra inqui­e­ta, per­so­na­gens ina­ca­ba­dos, nar­ra­ti­va pro­sai­ca com relâm­pa­gos poé­ti­cos – estão pre­sen­tes, ao menos em embrião, des­de o pri­mei­ro lon­ga-metra­gem da dire­to­ra, Floresta para as árvo­res, cen­tra­do numa jovem pro­fes­so­ra (Eva Löbau) vin­da do inte­ri­or, às vol­tas com uma clas­se pro­ble­má­ti­ca de ado­les­cen­tes, com a indi­fe­ren­ça dos cole­gas e, sobre­tu­do, com sua pró­pria soli­dão e ina­de­qua­ção. Ela ten­ta a todo cus­to virar ami­ga ínti­ma de uma vizi­nha sol­tei­ra a quem espia pela jane­la. Acaba se tor­nan­do um estor­vo, um ser paté­ti­co e como­ven­te como Toni Erdmann, mas por moti­vos qua­se opos­tos.

Realizado como des­do­bra­men­to de um pro­je­to de con­clu­são do cur­so de cine­ma, Floresta para as árvo­res con­quis­tou prê­mi­os no Sundance e em Buenos Aires e reve­lou ao mun­do uma cine­as­ta pro­mis­so­ra.

Todos os outros

A boa expec­ta­ti­va se con­fir­mou no lon­ga seguin­te, Todos os outros, que retra­ta um jovem casal ale­mão duran­te uma tem­po­ra­da de verão num vila­re­jo da Sardenha, onde o rapaz (Lars Eidinger) tal­vez faça a res­tau­ra­ção de uma casa anti­ga.

Abordagem ori­gi­nal de um moti­vo recor­ren­te da lite­ra­tu­ra e do cine­ma – o casal em cri­se lon­ge de casa –, o fil­me desen­vol­ve uma das gran­des vir­tu­des da dire­to­ra, a de fil­mar as sutis mudan­ças de humor e sen­ti­men­to dos per­so­na­gens, as trans­for­ma­ções do cli­ma entre eles. No jogo eró­ti­co-amo­ro­so, é tênue às vezes a sepa­ra­ção entre o lúdi­co e o pue­ril, entre o sen­ti­men­tal e o pega­jo­so, entre o humor e o cons­tran­gi­men­to. Maren Ade, com a cum­pli­ci­da­de ati­va de seus ato­res, cap­ta jus­ta­men­te essa fron­tei­ra ins­tá­vel, em que o sen­ti­do de cada ges­to depen­de do esta­do de espí­ri­to de quem o pre­sen­cia ou rece­be.

Mais do que nun­ca está pre­sen­te aqui o enga­no­so pro­saís­mo da abor­da­gem da dire­to­ra, que só faz acen­tu­ar o impac­to do que ela pró­pria cha­ma de “momen­tos cine­ma­to­grá­fi­cos”. Um per­so­na­gem trom­ba vio­len­ta­men­te com uma por­ta de vidro, outro se joga por uma jane­la: movi­men­tos ines­pe­ra­dos que, no entan­to, pare­cem sur­gir natu­ral­men­te das situ­a­ções. E os resul­ta­dos das ações não são os que espe­ra­ría­mos, por estar­mos habi­tu­a­dos a cer­tos esque­mas nar­ra­ti­vos e dra­má­ti­cos. A vida sem­pre esca­pa por todos os lados nos fil­mes de Maren Ade, que ter­mi­nam inva­ri­a­vel­men­te em aber­to ou, mais ain­da, em sus­pen­so.

Entre outros prê­mi­os, Todos os outros ganhou dois Ursos de Prata em Berlim, o prê­mio espe­ci­al do júri e o de melhor atriz (Birgit Minichmayr).

Ameaça” hollywoodiana

Vista em con­jun­to, a fil­mo­gra­fia até ago­ra pou­co nume­ro­sa, mas robus­ta, de Maren Ade mos­tra um cine­ma cres­cen­te­men­te com­ple­xo, em ter­mos de cons­tru­ção nar­ra­ti­va e de recur­sos de pro­du­ção, mas que man­tém um olhar pes­so­al e intrans­fe­rí­vel, uma sen­sí­vel mar­ca auto­ral. A Paramount pla­ne­ja ago­ra fazer uma ver­são ame­ri­ca­na de Toni Erdmann, com Jack Nicholson como pro­ta­go­nis­ta. É difí­cil pre­ver o que sai­rá dis­so, mas há o temor de que, ao apos­sar-se do enre­do ori­gi­nal, os novos pro­du­to­res ten­tem enqua­drá-lo em esque­mas e fór­mu­las conhe­ci­das, arrui­nan­do a alqui­mia sin­gu­lar de Maren Ade. É só uma hipó­te­se, mas não seria a pri­mei­ra vez em Hollywood.

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