O mundo em convulsão (Kubrick em São Paulo)

No cinema

04.10.13

Stanley Kubrick (autorretrato)

Stanley Kubrick (autorretrato, final da década de 1940)

Uma das gran­des atra­ções da 37ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo será a home­na­gem a Stanley Kubrick (1928–1999), que inclui retros­pec­ti­va da obra, expo­si­ção de obje­tos, lan­ça­men­to de um gran­de livro e deba­tes, além da pre­sen­ça da viú­va do dire­tor, Christiane Kubrick.

Esse ban­que­te para os admi­ra­do­res do autor — e ciné­fi­los em geral — come­ça já no pró­xi­mo dia 11, no MIS, uma sema­na antes da aber­tu­ra da 37ª Mostra pro­pri­a­men­te dita. Serão exi­bi­dos doze dos tre­ze lon­gas de Kubrick (o úni­co ausen­te é o pri­mei­ro, o rene­ga­do Fear and desi­re), além de docu­men­tá­ri­os sobre o dire­tor, para­le­la­men­te a uma expo­si­ção que inclui fotos, figu­ri­nos, maque­tes, rotei­ros e obje­tos de cena usa­dos nos fil­mes. Aqui, o trai­ler de Stanley Kubrick — A life in pic­tu­res, um dos docu­men­tá­ri­os pro­gra­ma­dos:

http://www.youtube.com/watch?v=Wqx1CznPIb8

A retros­pec­ti­va é uma opor­tu­ni­da­de úni­ca de imer­são na obra de um dos gigan­tes do cine­ma moder­no, e tam­bém um momen­to pri­vi­le­gi­a­do para veri­fi­car a coe­rên­cia radi­cal de uma fil­mo­gra­fia que, ape­sar de rela­ti­va­men­te pou­co nume­ro­sa, é tão diver­si­fi­ca­da em temas e gêne­ros.

Pois, para além do talen­to evi­den­te, das pro­e­zas téc­ni­cas, do agu­do sen­so do espe­tá­cu­lo e da inte­li­gên­cia ver­ti­gi­no­sa de Kubrick, a gran­de ques­tão é: em que con­sis­te a sua “auto­ria”? O que uni­fi­ca fil­mes apa­ren­te­men­te tão dís­pa­res como a fan­ta­sia futu­ris­ta 2001, o dra­ma de épo­ca Barry Lyndon e a sáti­ra anti­bé­li­ca Dr. Fantástico? O que há em comum entre O ilu­mi­na­do, Lolita e Nascido para matar?

Civilização e bar­bá­rie

Arrisco alguns pal­pi­tes. A meu ver, o eixo em tor­no do qual se desen­vol­ve a obra de Kubrick é a tênue linha entre a razão e a lou­cu­ra, exa­mi­na­da dos mais vari­a­dos ângu­los e des­do­bra­da em outros binô­mi­os: cul­tu­ra e bar­bá­rie, guer­ra e paz, repres­são e liber­da­de, Eros e civi­li­za­ção.

É nes­sa cor­da bam­ba que cami­nham o pro­fes­sor Humbert Humbert de Lolita, o astro­nau­ta Dave Bowman e o com­pu­ta­dor HAL de 2001, o escri­tor Jack Torrance de O ilu­mi­na­do, o par­ve­nu sete­cen­tis­ta Barry Lyndon, o sol­da­do Joker de Nascido para matar e tan­tos outros per­so­na­gens per­tur­ba­do­res e ines­que­cí­veis.

As obses­sões mais conhe­ci­das de Kubrick, xadrez e tec­no­lo­gia, seri­am modos de con­tro­lar sua pró­pria lou­cu­ra, mas aqui inva­di­mos peri­go­sa­men­te o ter­re­no da psi­ca­ná­li­se de bote­quim. O fato é que uma outra pai­xão dura­dou­ra do cine­as­ta per­meia osten­si­va­men­te toda a sua obra: a foto­gra­fia, que ele exer­ceu des­de a ado­les­cên­cia, tra­ba­lhan­do como foto­jor­na­lis­ta da revis­ta Look.

Construtor de ima­gens

Kubrick é, antes de qual­quer coi­sa, um cons­tru­tor de ima­gens. Poucos cine­as­tas dei­xa­ram tan­tas delas impres­sas inde­le­vel­men­te em nos­sas reti­nas. É pos­sí­vel fazer men­tal­men­te um “cine­mi­nha” de cada um dos seus fil­mes a par­tir de alguns pla­nos cru­ci­ais. Em 2001, por exem­plo, os maca­cos em luta, o monó­li­to à con­tra­luz, o osso lan­ça­do ao ar que “vira” espa­ço­na­ve, o inte­ri­or do com­pu­ta­dor HAL, as ima­gens psi­co­dé­li­cas do astro­nau­ta sol­to no espa­ço.

Em Laranja mecâ­ni­ca, Alex e com­par­sas espan­can­do um velho sob um via­du­to, vio­len­tan­do uma mulher ao som de Cantando na chu­va, Alex com os olhos man­ti­dos aber­tos com pre­si­lhas para ver fil­mes repug­nan­tes, Alex envol­to em talas e ban­da­gens sor­rin­do e fazen­do posi­ti­vo para a câme­ra.

Planos de uma bele­za fre­quen­te­men­te ter­rí­vel, em que a esté­ti­ca é sem­pre a expres­são de uma éti­ca das ima­gens. Não há, nes­se cine­ma, cenas supér­flu­as ou enqua­dra­men­tos mera­men­te orna­men­tais. Tudo é ple­no de sig­ni­fi­ca­do e for­ça dra­má­ti­ca.

Mundo em con­vul­são

E o mun­do ima­gé­ti­co de Kubrick não é de con­tem­pla­ção ou medi­ta­ção sobre o decor­rer do tem­po, como seria o caso de Ozu e, em outros sen­ti­dos, de Antonioni, Wenders ou Tarkowski. É um mun­do em movi­men­to, para não dizer em con­vul­são.

No vari­a­do arse­nal narrativo/expressivo que ele mani­pu­la com vir­tu­o­sis­mo, des­ta­ca-se uma figu­ra de esti­lo recor­ren­te: o tra­vel­ling fron­tal, seja de avan­ço (como a ste­ady­cam que acom­pa­nha o tri­ci­clo do peque­no Danny pelos cor­re­do­res do hotel de O ilu­mi­na­do) ou de recuo (como o que abre espa­ço para o cele­ra­do Jack Torrance no mes­mo fil­me; ou o que regis­tra a revis­ta dos recru­tas pelo igual­men­te cele­ra­do sar­gen­to Hartman em Nascido para matar). Movimentos que nos apro­fun­dam no des­co­nhe­ci­do (no pri­mei­ro caso) ou nos expõem à explo­são da lou­cu­ra, à insa­ni­da­de da guer­ra, à con­fu­são do mun­do.

Nesse cine­ma visi­o­ná­rio e impla­cá­vel, isen­to de con­ces­sões sen­ti­men­tais ou men­sa­gens edi­fi­can­tes, cha­ma a aten­ção um raro momen­to de “des­con­tra­ção do olhar”, de aman­sa­men­to da bar­bá­rie por for­ça do afe­to e da arte. É o anto­ló­gi­co final de Glória fei­ta de san­gue, em que, numa taver­na, sol­da­dos rudes e bêba­dos se ren­dem a uma atmos­fe­ra de huma­ni­da­de com­par­ti­lha­da ao ouvir uma jovem ale­mã desa­fi­nar uma can­ção popu­lar. Que Kubrick tenha se casa­do com a moça res­pon­sá­vel por esse ins­tan­te mági­co, e vivi­do ao lado dela o res­to de seus dias, tal­vez seja um indí­cio de que no pei­to daque­le urso reclu­so tam­bém batia um cora­ção.

http://www.youtube.com/watch?v=pJH8hO7VlWE

, , ,